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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Uma mulher à frente do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP

Esta é a primeira vez, em 46 anos, que o Instituto está sob direção de uma mulher; filha de um taxista e de uma dona de casa que também era costureira, Cristina sempre estudou em escolas públicas e se tornou professora, tal como as quatro irmãs, em uma universidade pública

Cristina (segunda à esquerda)  logo após a cerimônia de posse como diretora do ICMC:
as quatro irmãs são professoras em universidades públicas brasileiras
(crédito: Denise Casatti)

Este texto não existiria se a história de Maria Cristina Ferreira de Oliveira não fosse uma exceção. O ineditismo é um dos aspectos que mais chamam a atenção na trajetória dessa professora da USP que se tornou a primeira mulher a assumir a direção do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), umas das cinco unidades de ensino e pesquisa do campus da Universidade, em São Carlos. 

Aliás, é provável que Cristina só tenha aceitado o desafio de relatar o percurso de sua vida porque compreendeu o quanto compartilhá-lo pode ensejar reflexões e até inspirar outras jornadas. Para quem tem uma personalidade reservada como ela, o autoelogio é uma impossibilidade. Talvez seja por isso que a professora se sinta incomodada em expor sua vida, embora esteja tão acostumada a estar diante de plateias em salas de aula e encontros científicos. 

Mesmo com a timidez característica de Cristina nunca saindo de cena, depois de alguns momentos de bate-papo, o diálogo flui espontaneamente e de forma descontraída. Aos poucos, ela se revela com franqueza para o interlocutor, especialmente quando vai detalhando as escolhas que fez ao longo do caminho e a tornaram quem ela é hoje. “Eu tenho muito orgulho de ter feito escola pública e estar aqui. Eu gostaria de ver mais gente com essa história entrando na USP”, diz a professora no início da noite de 18 de junho. 

Cristina discursa na cerimônia de posse: na mesa de honra, ela era a única mulher entre 11 homens
(crédito:Denise Casatti)

Acomodada em uma das mesas no espaço coberto adjacente à lanchonete do Instituto, usando jeans e blusa de malha, ela relata de forma objetiva os princípios e valores que a motivam: “O que muda a vida de uma pessoa é conseguir estudar, fazer um curso de graduação e se sair bem. Assim, ela tem uma opção de vida. É uma oportunidade única. Sou muito agradecida porque eu e minhas quatro irmãs tivemos a oportunidade de estudar. Hoje, a vida que temos é incomparável à vida que meus pais tiveram”. Na fala de Cristina, está a essência do que significa o conhecimento para ela: transformação. 

Cristina e suas quatro irmãs são doutoras e docentes em universidades públicas brasileiras. Nascidas em São Carlos, as cinco irmãs estudaram em escolas públicas durante todo o ensino básico e superior. Taxista, o pai transportava pessoas e mercadorias para cidades vizinhas em sua perua Kombi. Para reforçar a renda da família, a mãe, dona de casa, também costurava. Habilidosa, fez o próprio vestido de casamento e tentou – sem muito sucesso – ensinar o ofício às filhas e iniciá-las na arte do crochê, do bordado e da pintura em tecido. Mas o desejo profundo daquela mãe era expresso em uma frase que dona Diomar repetia à exaustão para as garotas: “Mulher tem que estudar e ter carreira para não depender do marido”. Ela não queria ver as meninas presas a casamentos infelizes por falta de opção, algo bastante comum nos anos 60 e 70 do século passado. 

Descendente de lavradores italianos, dona Diomar só teve oportunidade de cursar até a 4ª série do fundamental. Por isso, mesmo com o orçamento apertado, resistiu à ideia que predominava naquele tempo e não quis que as filhas começassem a trabalhar em uma fábrica assim que concluíssem o ensino médio. Ela e o marido sabiam que, em São Carlos, as meninas tinham a oportunidade de estudar em uma das duas universidades públicas (USP e UFSCar) e, dessa forma, poderiam arcar com o sustento da família até todas se formarem. 

As gêmeas – Cristina e sua irmã gêmea, Maria do Carmo, são as mais velhas do quinteto e as boas notas conquistadas na infância e na adolescência deixaram um legado para a posteridade e um fardo para as caçulas da família. Se as mais novas tiravam nota baixa, os professores logo as lembravam de que era preciso seguir o exemplo das “gêmeas”. Até o sétimo ano do fundamental, as duas permaneceram na Escola Estadual Bispo Dom Gastão, na Vila Prado. Depois, seguiram para a Escola Estadual Professor Arlindo Bittencourt. Foi lá que a professora de matemática Regina Tancredi sugeriu que Cristina poderia cursar matemática, mas que computação também era uma interessante opção para quem gostava de ciências exatas. 

Diomar com as gêmeas Maria Cristina e Maria do Carmo
(crédito: Arquivo pessoal)

Ao concluírem o ensino fundamental, as gêmeas prestaram uma espécie de “vestibulinho” e foram aprovadas – Maria do Carmo em primeiro lugar e Cristina em terceiro – para cursar o ensino médio na Escola Estadual Doutor Álvaro Guião. Inseparáveis até então, a trajetória das duas só deixou de caminhar em paralelo no cursinho, quando Maria do Carmo foi aprovada em Engenharia Química na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no meio de 1981 e Cristina amargou a frustração de não passar em Engenharia de Materiais. Ela permaneceu no cursinho por mais seis meses sem sua gêmea. Sorte do ICMC que, no início de 1982, conquistaria uma nova aluna: Cristina começou a fazer Ciências de Computação. 

“O bom de ter uma irmã gêmea é que você tem, desde pequenininha, uma pessoa que sempre vai dividir, mais ou menos, as mesmas coisas com você. Quando começa a ir à escola, você não começa sozinha. Quando vai prestar vestibular, tem alguém na mesma direção”, diz Maria do Carmo, a irmã gêmea de Cristina, logo depois da cerimônia de posse da nova diretora, na noite de 17 de agosto. 

Orgulhosa da irmã, Maria do Carmo revela que a cerimônia tem um significado especial: “É uma data marcante para a gente. Amanhã, se meu pai estivesse vivo, faria 86 anos e, com certeza, estaria muito orgulhoso”. Professora no Departamento de Engenharia Química da UFSCar, onde fez a graduação em Engenharia Química, Maria do Carmo conta que a ligação forte com a irmã permanece: “Somos muito companheiras e sempre nos demos muito bem. Só nós duas moramos em São Carlos e dividimos os cuidados com a minha mãe, que está com 83 anos.” 

Aliás, as outras três irmãs também seguiram carreira na área de Química, tal como Maria do Carmo, mas optaram pela graduação na USP, tal como Cristina. Marysilvia, que nasceu cerca de dois anos depois das gêmeas, é hoje professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro; cinco anos adiante, chegou Marystela, que atualmente é professora na Universidade Federal de São Carlos em Sorocaba; a caçula, Mariselma, veio uma década depois das gêmeas e, hoje, é professora na Universidade Federal do ABC. 

Cristina (de vermelho, ao centro) com sua turma durante a formatura em Ciências de Computação no ICMC

Mulheres na USP – Ao ingressar em uma das primeiras turmas de Computação do ICMC, curso oficialmente reconhecido pelo Ministério da Educação em 1981, Cristina encontrou uma sala de aula bastante equilibrada: cerca de 50% dos estudantes eram homens e 50% mulheres. Essa informação pode causar surpresa, já que a área de tecnologia atualmente é ocupada, majoritariamente, por homens. Entre as décadas de 1970 e 1980, houve uma grande inversão nos gêneros da área de tecnologia no mundo todo, mesma época em que surgiu o computador pessoal. 

Nos últimos cinco anos, por exemplo, apenas 9% dos alunos formados no curso de Ciências de Computação do ICMC eram mulheres; no Bacharelado em Sistemas de Informação, o índice chegou a 10% e em Engenharia de Computação, 6%. A diferença começa antes do ingresso na Universidade, já que as carreiras da área de computação são pouco procuradas pelas garotas, uma situação que vem gerando preocupação dentro da academia e estimulado o surgimento de diversas iniciativas destinadas a atrair mais mulheres para as ciências exatas. 

Cristina sabe quanto sua ascensão à diretoria do ICMC é simbólica nesse momento em que a busca pela igualdade de gênero ganha mais relevância a cada dia. Entre as 42 unidades de ensino e pesquisa que compõem a USP, 15 delas (35,71%) têm mulheres na direção atualmente. Mas somente duas dessas 15 unidades são da área de ciências exatas: o ICMC e a Escola Politécnica. “A Universidade como um todo, em média, está bem equilibrada na questão de gênero. Mas algumas áreas ainda têm problemas muito sérios, especialmente devido a aspectos culturais. Aqui em São Carlos, em que há o predomínio das ciências exatas e tecnológicas, temos um problema localizado. Mas, felizmente, pouco a pouco isso está sendo modificado. A posse de uma primeira diretora no ICMC já é um bom sinal. É um marco importante e isso vai ajudar, certamente, esse campus de São Carlos a ter uma alteração, uma renovação”, afirmou o reitor da USP, professor Vahan Agopyan, na noite da posse de Cristina. 

Tornar-se a primeira mulher a ocupar esse cargo de direção não foi algo que Cristina planejou, simplesmente aconteceu de forma natural, especialmente a partir do momento em que foi convidada para ser vice-diretora do Instituto pelo professor Alexandre Nolasco de Carvalho na gestão anterior (2015-2018). O ICMC mantém uma tradição de continuidade e, ao longo dos anos, a tendência é de que quem ocupa a vice-diretoria assuma a direção na gestão seguinte. 

Apesar de destacar que nunca teve dificuldades na carreira por ser mulher, uma situação embaraçosa aconteceu quando Cristina foi indicada para fazer seu primeiro estágio, antes mesmo de se formar. O professor Fernão Stella de Rodrigues Germano, docente do ICMC que já faleceu e dá nome ao maior auditório do Instituto, recebeu certo dia o telefonema de uma grande empresa que atuava em São Carlos e estava em busca da indicação de um estagiário. Fernão logo falou sobre Cristina. Do outro da linha, o representante da empresa frisou que queria a indicação de um homem. Fernão não hesitou e respondeu: “Ela é o melhor homem que eu tenho aqui.” Resultado: Cristina conseguiu o estágio e trabalhou na empresa durante os últimos seis meses do curso, em 1985. 

Mas ela já havia sido capturada pela magia da ciência antes, quando conquistou uma bolsa da FAPESP para desenvolver seu projeto iniciação científica. Lembra-se que essa foi a primeira vez que obteve alguma renda. A iniciação científica despertou em Cristina o desejo de prosseguir na carreira acadêmica e fazer mestrado. O que não imaginava é que, apenas dois meses depois de se formar, ela se tornaria professora no ICMC. “Naquele tempo, a pós-graduação em computação estava começando, havia pouca gente no Instituto e não era preciso fazer concurso para ingressar como docente. Bastava ser aprovado no processo seletivo e se comprometer em ingressar no mestrado”, explica. Foi assim que Cristina e uma colega de sua turma, Rosane Minghim, que também é professora no ICMC até hoje, tornaram-se docentes da USP em fevereiro de 1986. 

O primeiro computador pessoal a gente nunca esquece: em São Carlos, Cristina disputava um dos poucos terminais existentes com outros professores e alunos, foi na Universidade de Wales que teve seu primeiro PC
(crédito: Arquivo pessoal)

Amor e doutorado – “Ninguém teve que pedir mais a mão de uma mulher em casamente do que eu”, brinca Osvaldo Novais de Oliveira Jr, que é casado com Cristina há 31 anos. Professor no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Osvaldo é mais conhecido como “Chu”, apelido carinhoso que ganhou na adolescência, tempo em que a expressão “Chuchu beleza” era moda. Chu explica que, além de receber o “sim” de Cristina, precisou do aval de muito mais gente: primeiro do senhor Walter, pai da moça; depois foi a vez do então departamento de Ciências de Computação e Estatística do ICMC, que precisou liberar a professora recém-contratada para estudar no exterior; a seguir, foi necessário o aceite da Universidade de Wales, no Reino Unido, onde Cristina fez o doutorado; por último, até a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) entrou na dança do “sim”, já que a ida do casal ao Reino Unido só aconteceu porque houve apoio financeiro da instituição, que concedeu uma bolsa de doutorado à Cristina. 

Com a permissão de todas as instâncias cabíveis, Chu e Cristina se casaram no dia 14 de março de 1987. Nem tiveram tempo de curtir a lua de mel. No dia seguinte, embarcaram no voo rumo a Bangor, no Reino Unido, onde Chu já estava fazendo o doutorado desde setembro de 1986 na Universidade de Wales. “Eu nunca tinha viajado para fora do país e meu medo era que estudar lá não desse certo”, conta a professora que, para aproveitar a oportunidade no exterior, precisou abandonar o mestrado que havia começado no IFSC. Deu tão certo que ela fez o doutorado direto antes do tempo previsto, que costuma ser de quatro anos.  

Recém-casados, Chu e Cristina  partiram para o Reino Unido em busca do doutorado
(crédito: Arquivo pessoal)

Em julho de 1990, Cristina e o marido voltaram ao Brasil. Um ano e dois meses depois, nasceu Ligia. Dois anos e quatro meses depois, chegou Tiago. “Eu tenho muito orgulho da minha mãe e dos meus avós. Eu sei que eles insistiram muito para que as filhas estudassem. Ela é um exemplo de retidão, muito responsável e muito correta com tudo”, disse Ligia, emocionada, no fim da cerimônia de posse da mãe como diretora do ICMC. Formada em Direito pela USP, ela mora em São Paulo e diz que se identifica muito com Cristina. 

Como não poderia deixar de ser, o ICMC tem papel relevante nessa história de amor e doutorado. Foi em uma festa promovida por Edson Moreira, hoje professor aposentado do ICMC, que eles se conheceram. Ele já tinha visto a moça algumas vezes, porque ela descia em um ponto de ônibus próximo da república em que Chu morava: “Mas eu nunca teria coragem de me aproximar dela, porque no começo dos anos 80 os estudantes eram muito mal vistos pelos são-carlenses. Não havia qualquer esperança”. Nas festas do Centro Acadêmico Armando Sales de Oliveira (CAASO), a desigualdade de gênero não favorecia qualquer aproximação, em média havia uns 500 homens e umas 5 mulheres. 

Amigo de Edson, Chu estava saindo da festa quando Cristina chegou com algumas amigas. Uma delas, Mônica, era filha do professor Fernão e amiga de Edson. Então, naquele universo tão escasso de mulheres, Edson insistiu para que o amigo não fosse embora. Deu certo: Chu tomou coragem e chamou Cristina para dançar. Na noite seguinte, domingo, ele a convidou para ir à pizzaria. Ela aceitou. Pronto: o casal nunca mais se separou. Era agosto de 1985 e Chu já estava preparando as malas para embarcar no doutorado. O que ele nem Cristina imaginavam é que o amor construído até setembro de 1986 se fortaleceria ainda mais durante os seis meses que permaneceram a um oceano de distância. 

Tiago, Cristina e Ligia logo após a posse da mãe como diretora do ICMC

As trajetórias científicas dos dois às vezes também se cruzam e fazem brotar projetos e artigos. No pós-doutorado, optaram por um local em que ambos pudessem desenvolver seus projetos e foram, carregando os dois filhos, para a Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, em 2000, onde ficaram por um ano. Chu conta que a esposa é uma líder nata e diz que sua gestão no ICMC “será muito bem feita, porque tudo o que ela faz é muito bem feito”. 

Para Cristina, o Instituto precisa formar cientistas, bacharéis, engenheiros e licenciados com habilidades para desempenhar suas missões não apenas com competência, mas com sabedoria e ética. “À busca por formar recursos humanos de alto nível, gerar e transferir conhecimento para a sociedade, precisamos agregar nossa luta por uma educação de qualidade também nos níveis de ensino fundamental e médio para todo o país. Eu acredito que o acesso à educação de qualidade é a forma mais ampla e mais justa de oferecer igualdade de oportunidades de acesso ao ensino superior àqueles que assim desejarem. Eu e minhas irmãs, aqui presentes, somos um exemplo”, declarou a diretora no seu discurso de posse. 

“Desde o ensino fundamental até a universidade, tive o privilégio de contar com a sabedoria, o apoio e o entusiasmo de muitos professores genuínos, pessoas bem formadas, competentes, exigentes, dedicadas, comprometidas com sua missão e com disposição para apresentar aos alunos um mundo de possibilidades”, completou Cristina, agradecendo a todos os professores que a estimularam a seguir sua carreira. 

Que a história dessa primeira mulher a assumir a diretoria do ICMC seja também um estímulo para as garotas enxergarem o mundo das ciências exatas como uma possibilidade. Só assim a história de Cristina deixará de ser uma exceção. 

Para Cristina, o acesso à educação de qualidade é a forma mais ampla e mais justa de oferecer igualdade de oportunidades de acesso ao ensino superior|
(crédito: Denise Casatti)

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 


Mais informações 
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666 
E-mail: comunica@icmc.usp.br

terça-feira, 8 de maio de 2018

A cientista antenada

Conectando-se com as emoções humanas, uma pesquisadora mineira conseguiu aliar sua carreira acadêmica na área de inteligência artificial com as dimensões menos exatas da vida

Solange (ao centro) abraça o filho Vitor ao lado da filha Naiara e do marido Anandsing
na fazenda Pedra Branca, onde viveu a primeira infância

Uma tiara vermelha com antenas chama a atenção de um garoto que está deitado em um dos leitos da Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, cidade no interior do Estado de São Paulo. Da direção da tiara surgem dedos que conversam com o menino como se fossem pequenos seres vivos animados. São aqueles dedos que tiram Vitor, 5 anos, da apatia em que se encontrava há uma semana, desde o momento em que foi internado e deixou de interagir com o mundo. 

Em silêncio, aos poucos, os dedos do garoto também passam a ganhar vida e começam a se comunicar com as mãos daquela mulher que usa tiara vermelha e se localiza no meio do palhaço e da fada, para os quais Vitor não dá a menor bola. Logo, ele se senta à cama e recebe, de presente, uma bexiga azul em formato de cachorro, esculpida pelos dedos alegres e desconhecidos. Aos poucos, aquele trio se despede e sai do quarto mudo. Só depois que cruzam a linha da porta e desaparecem, o silêncio do garoto se rompe e sua voz alcança o corredor do hospital: “Anteninha, eu te amo”. 

É nesse momento que as emoções da mulher de tiara vêm à tona, junto com a imagem de seu próprio filho, que também é Vitor, que também tem 5 anos. Em vez de doente na cama, o filho dela está saudável, brincando na casa em que vivem, a poucos quilômetros dali. Apelidada de Anteninha, Solange Rezende permite-se agora chorar, pois já está fora do quarto. Depois de se recompor, volta ao encontro do garoto. Ao rever Anteninha, Vitor pede outro presente: quer uma cadelinha cor-de-rosa para fazer companhia ao cachorro azul. 

Solange como Anteninha durante a visita que fez à Santa Casa no último domingo, 6 de maio
Ciência com emoção – O acontecimento relatado acima, vivido 13 anos atrás, está marcado na memória de Solange e, ao ressurgir no bate-papo desta manhã de sábado, 5 de maio de 2018, deixa os olhos brilhantes de Anteninha marejados. Professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desde 1991, Solange é uma das 110 voluntárias do grupo Amor em Gotas, que se dedica a levar alegria a crianças hospitalizadas. Atuando como voluntária há 16 anos, hoje ela é uma das gestoras da iniciativa e carrega com orgulho, naquela manhã, o álbum de fotos das inúmeras visitas que já fez. Em uma das imagens, aparece vestida de branca de neve. “A essência da vida está nos detalhes, quando enxergamos o poder que temos em nossas mãos”, diz Solange, e completa: “Às vezes, um pequeno gesto possibilita conexões”. 

No álbum de fotos, destaque para a Branca de Neve
Segundo ela, as experiências vividas como voluntária contribuíram efetivamente para ampliar suas percepções nas pesquisas científicas que realiza na área de inteligência artificial: “O ambiente acadêmico é muito competitivo e somos cobrados a todo tempo. Muitas vezes, ficamos correndo atrás de suprir essas demandas e nos esquecemos da essência da vida”. Ela diz que a atuação no grupo Amor em Gotas, mudou até a forma como lida com seus alunos. “Passei a dar mais abertura para os estudantes. Hoje, sempre que precisam de alguma ajuda, eles me procuram”. 

Em um mundo em que as máquinas têm a capacidade de aprender, em que é possível extrair conhecimento de uma infinidade de dados (a área de mineração de dados é a especialidade de Solange), surge a pergunta: será que um dia os computadores serão capazes de desenvolver uma sensibilidade comparável à de Anteninha e poderão promover novas conexões entre os seres humanos? Para Solange, esse é o limite do desenvolvimento da inteligência artificial. Por mais que o conhecimento avance, ela acredita que as máquinas nunca desenvolverão percepção, sensibilidade e intuição tal como os humanos.


Vida na fazenda – A história dessa pesquisadora começou no interior de Minas Gerais, na cidade de Comendador Gomes. Foi lá, a 40 quilômetros do município, na fazenda Pedra Branca, que ela estabeleceu contato com o universo do conhecimento, guiada pelas mãos de Margarida. Foi ela que lhe apresentou as primeiras letras e números no quarto construído pelo pai para ser escola de Solange, a filha mais velha, do irmão Hugo, um ano mais novo, e de José, três anos mais moço. Como a professora morava na casa da família, a turminha tinha aula 24 horas por dia, sete dias por semana. 

Só no quarto ano do ensino fundamental é que a mãe, Zilda, e as crianças precisaram ir para Frutal, cidade vizinha, e os pequenos começaram a frequentar uma escola pública. Agora, a família tinha também um novo membro: Ataídes, sete anos mais novo do que Solange. O quarteto passava a semana na cidade com a mãe e voltava à fazenda aos finais de semana, onde o pai trabalhava e continuava morando. 

No segundo ano do ensino médio, que Solange cursava pela manhã, conseguiu uma bolsa de estudos para fazer o “Normal” à noite, uma espécie de curso técnico para quem desejava dar aula no ensino fundamental. Naquele tempo, ela já começou a pensar que não queria morar a vida toda naquela região e construir um futuro igual ao da maioria de seus primos de primeiro grau – 82 no total, contando tanto os do lado materno quanto paterno. A inspiração veio, então, de duas primas que tinham prestado vestibular e estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Com a ajuda delas, Solange convenceu a família de que também deveria fazer faculdade na UFU e foi assim que começou sua trajetória acadêmica: cursando Licenciatura em Ciências, com habilitação em matemática. 

Hugo, Ataídes, a professora Margarida, José e Solange (da esquerda para a direita):
a professora mora hoje em uma fazenda a poucos quilômetros
de onde ensinou as primeiras letras e números para Solange

Da matemática à computação – No início da faculdade, Solange sabia que se tornaria professora e o sonho era fazer pós-graduação em matemática pura na Universidade de Brasília. Sempre foi a professora dos irmãos, por insistência da mãe, já que a caderneta de notas toda azul da garota contrastava com as cadernetas vermelhas dos meninos. Por isso, aos 15 anos, quando o pai perguntou o que ela queria ser quando crescesse, respondeu: “Quero dar aula para gente inteligente”. A resposta dura tinha uma justificativa: os irmãos não gostavam de estudar e ela se sentia uma professora frustrada. “Na verdade, o que eu tentei dizer é que queria dar aula para quem gostasse de aprender”, diz. 

E de gostar de aprender ela sempre gostou. Tanto que, quando o professor de topologia da UFU, Viktor Bojaczuk, voltou de uma viagem à Polônia com um computador portátil Apple em mãos e perguntou aos alunos quem desejava se aprofundar em uma nova área do conhecimento, ela topou de imediato. “Era 1985 e a gente não tinha acesso ao computador, ele ficava fechado em uma sala e quem mexia na máquina era um operador. Nas aulas de programação, nós escrevíamos os códigos em uma folha verde e mandávamos para o operador, rezando para que ele entendesse o que a gente tinha escrito e que a máquina executasse aqueles comandos de forma correta até o final do semestre”, recorda-se Solange. 

Então, quando ela viu pela primeira a oportunidade de mexer diretamente em um computador portátil, não pensou duas vezes. Solange ouviu a palavra inteligência artificial pela primeira vez na aula de Bojarkuzc, que anunciou profeticamente: “Estou aprendendo a programar com uma linguagem diferente, que é totalmente lógica e tem tudo a ver com matemática. Mas é algo muito maior, que vai estar presente na vida de todo mundo no futuro, a inteligência artificial”. 

A tal linguagem de programação é ensinada até hoje no início das disciplinas de inteligência artificial, chama-se Prolog. Depois que teve acesso a programar diretamente no computador usando Prolog, Solange sabia que seu destino não estava mais atrelado à matemática pura, o que ela queria era computação: “O professor Bojaczuk mudou o rumo da minha vida”. Dois outros professores, Sergio Schneider e Costa Pereira, falaram para a garota sobre a USP, em São Carlos, dizendo que lá havia uma professora que atuava na área de inteligência artificial: Carolina Monard. 

Assim que se formou, Solange viajou para São Carlos e conheceu Carolina. Começou a fazer mestrado em Ciências de Computação e Matemática Computacional no ICMC em 1987. Quatro anos depois, quando estava no primeiro ano do doutorado em Engenharia Mecânica, na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), prestou um concurso para se tornar professora no ICMC, onde está até hoje. 

Além de ministrar aulas e realizar pesquisas na área de inteligência artificial, Solange também ensina empreendedorismo. Aliás, ela foi uma das responsáveis, junto com o professor André de Carvalho, também do ICMC, por inserir a temática do empreendedorismo nos cursos de computação do Instituto. Sob sua orientação estão sete doutorandos, três mestrandos, quatro alunos de iniciação científica e um pós-doutorando. Nas quintas à tarde, ela atua como consultora em uma startup são-carlense chamada Itera. Ainda sobra fôlego para o Amor em Gotas e para coordenar o festival de divulgação científica Pint of Science em São Carlos, que acontecerá dias 14, 15 e 16 de maio, juntamente com outras 55 cidades brasileiras e mais 20 países do mundo. “Sou uma apaixonada pela vida e pela possibilidade de ajudar as pessoas que desejam entrar em movimento para buscar seus sonhos”, diz. 

Ao relatar sua história, Solange dá indícios de onde nasce a motivação para o seu fazer. Entre os ensinamentos do pai, seu Amador, falecido há sete anos, uma frase se destaca na memória: “Filha, a vida inteira você tem que cuidar para que o brilho dos seus olhos nunca se apague”. Talvez esse seja o segredo de Solange: manter-se antenada com o que faz os olhos brilharem. 

Encontro no fim de 2017 na casa de Solange:  confraternização reuniu alunos do Laboratório de Inteligência Computacional do ICMC e seus familiares

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 

Mais informações 
Pint of Science São Carlos: https://pintofscience.com.br/events/saocarlos
Laboratório de Inteligência Computacional do ICMC: http://labic.icmc.usp.br
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

De aluno a reitor: ele sempre sonhou em seguir carreira acadêmica

O reitor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Marcelo Turine, fez mestrado e doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos: “foram seis anos de aprendizagem e enriquecimento científico”

O ex-aluno do ICMC Marcelo Turine durante a cerimônia de posse como reitor da UFMS

No dia em que completou 46 anos, 8 de novembro de 2016, Marcelo Turine se tornou o reitor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Naquele momento, sentiu uma mistura de emoção, responsabilidade e amor à vida. Quando iniciou a trajetória como professor na UFMS, em 2002, ele não imaginava que um dia se tornaria reitor da Instituição, mas sonhava levar a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação do Estado de Mato Grosso do Sul ao patamar de referência nacional e internacional.

Na entrevista a seguir, ele revela, entre outras coisas, como a formação que obteve no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, contribuiu para que ele se tornasse o que é hoje.

Gostaria de compreender melhor os motivos que o levaram a fazer seu mestrado no ICMC. O senhor já conhecia o Instituto antes de estudar aqui? Lembra-se do primeiro dia em que esteve no Iocal? Quais foram as primeiras impressões?
Finalizei a minha graduação em Bacharelado em Ciência da Computação na Unesp/Ibilce em São José do Rio Preto/SP e meu sonho era continuar a vida acadêmica, ser professor, educador e cientista. Com 21 anos, eu e dois amigos, Marcus Vinicius Maltempi e Ricardo Hasegawa, decidimos fazer mestrado no ICMC em São Carlos. Como diz a música de Luiz Gonzaga “Pau de Arara”, só trazia a coragem e a cara. Nunca tinha visitado o Instituto, não conhecia nenhum professor ou a cidade de São Carlos. Cheguei em janeiro de 1992 e já fomos fazer a disciplina de Estrutura de Dados com a professora Agma Traina. Fui muito bem acolhido pela equipe da pós-graduação e colegas da disciplina e senti o potencial do Instituto nos primeiros dias: competência científica, seriedade acadêmica e qualidade do corpo docente. Entrei no mestrado logo após cursar a disciplina e conversei com vários professores para orientação. Importante destacar que as bolsas de mestrado não eram fáceis de conseguir. Somente depois de um ano que tive bolsa da Capes, um alívio e uma vitória.


Em que momento o senhor decidiu seguir carreira acadêmica e prosseguir seus estudos no mestrado, doutorado e pós-doutorado? Essa decisão foi tomada ainda quando estava na graduação?
É estranho falar sobre a programação da nossa vida. Como disse antes, já na graduação pensava em seguir a carreira acadêmica, ser professor de uma universidade pública brasileira, casar, ter filhos e ser feliz, um ingrediente essencial para a vida. O ICMC foi uma grande escola e casa cientifica para mim. Foram seis anos de aprendizagem e enriquecimento científico. Construí muitas amizades, amigos de que tenho saudades até hoje. Alguns ainda estão por São Carlos, outros se mudaram e outros já não estão no nosso meio. Não posso deixar de me lembrar do meu grande amigo, colega de república e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Mauro Biajiz, que nos deixou tão precocemente.

Como conheceu sua orientadora no mestrado, a professora Maria das Graças Volpe Nunes? Ela foi uma pessoa importante em sua jornada?
A professora Graça Nunes é uma pessoa especial e muita querida na minha vida. Me ensinou os primeiros passos de um planejamento científico, até como fazer revisão bibliográfica. Um exemplo de ética e respeito, que além de ensinar tratava com amor seus orientados. Obrigado Graça Nunes, sua orientação me acompanha ainda hoje na minha vida científica e de gestão universitária. Uma orientadora que realmente nos orientou e de início aceitou o desafio de orientar um grupo da UNESP de Rio Preto: a mim, Marcus Vinicius, Ricardo Hasegawa e Rosana Satie. Eu queria fazer um projeto na área de computação aplicada para educação e na área de Sistemas Tutores Inteligentes. Iniciei minha pesquisa com a orientação da Graça Nunes e coorientação da professora Maria Dolores Ceccato Mendes, da Matemática, e, em 1994, defendi o trabalho TEGRAM – Um sistema Tutor Inteligente Baseado no Tangram para Ensinar Conceitos de Geometria. Não posso deixar de agradecer aqui toda equipe do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), do qual fiz parte desde o seu início em 1993, em especial Graça Nunes, meu querido amigo Osvaldo Novais de Oliveira Junior (Chu), Sandra Aluísio e Maria Cristina Ferreira de Oliveira.

O professor Paulo César Masiero, que também é professor aposentado do ICMC, foi seu orientador durante o doutorado no Instituto de Física da USP, em São Carlos. Ele também foi uma pessoa marcante na sua trajetória?
Sim, o Masiero é meu ídolo, referência na Engenharia de Software e amigo. Ainda não desisti de trazê-lo para Mato Grosso do Sul como professor visitante sênior na Faculdade de Computação da UFMS. Em 1994 não tinha doutorado no ICMC e todos o faziam no Instituto de Física. Eu queria continuar minha carreira científica e procurei o professor Masiero, que disse ter um desafio de trabalhar com modelagem de aplicações web com Statecharts. A Engenharia de Software não era minha praia, mas aceitei o desafio sob sua orientação. Como coorientadora tive novamente uma grande mulher e professora na minha vida, a professora Maria Cristina Ferreira de Oliveira, a Cris, com quem aprendi muitas coisas além dos ensinamentos acadêmicos: amor ao próximo, o sentido da família e muita humildade. Obrigado Graça Nunes, Cris e Masiero, vocês são exemplos para mim e amo vocês. Concluído o mestrado, fui aprovado no doutorado, realizado no período de 1994 a 1998. O doutorado foi muito bem planejado e organizado pelos meus orientadores: o respeito ao tema científico e prazos de conclusão foram, como deve ser, respeitados, ante a existência de investimento público.

De que forma a formação obtida no ICMC, as pessoas que conheceu e as oportunidades que surgiram aqui mudaram sua visão de mundo e o ajudaram a se tornar o que é hoje? Houve algum momento em que pensou em desistir?
A pesquisa desenvolvida no ICMC mostra a importância dos resultados decorrentes do emprego de recursos públicos, buscando qualidade e efetividade, dentro de um critério de valorização do mérito e num contexto humanizado. Essa visão formatou minha conduta profissional ao demonstrar que a frutificação da competência está intimamente ligada ao respeito às características humanas, sobretudo nas áreas da educação, pesquisa, extensão e inovação. As pessoas que conheci e as com que trabalhei mais proximamente, algumas já mencionadas, e outras tantas que fizeram parte importante da minha formação, se enquadravam dentro desse contexto. O tratamento dispensado ao aluno demonstrava sua importância e potencial, o que trago para a gestão da UFMS. Eu jamais pensaria em desistir, pois otimismo, fé e persistência são partes da minha essência.

Quais são os principais desafios que o senhor enfrenta atualmente em sua gestão frente à UFMS? Estudar no ICMC contribuiu de forma significativa para enfrentar esses desafios de hoje?
Assumi a gestão da UFMS em um momento político em que mudanças estão sendo realizadas, inclusive em relação à destinação e redução de recursos públicos, o que faz com que a forma de gestão tenha que ser modificada. Para assumir a reitoria da UFMS deixei os seis anos de presidência da FUNDECT (Fundação de Amparo ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), fundação como a FAPESP, autarquia em que os recursos são escassos e o bom resultado depende de muita racionalidade, mas que tem uma estrutura reduzida. O desafio é usar criatividade na gestão e motivação, para que o uso dos recursos disponíveis possam promover o desenvolvimento e a expansão do conhecimento, alavancando a UFMS nos cenários nacional e internacional. O ICMC já tinha essa característica ao tempo de minha pós-graduação, experiência que pretendo expandir na UFMS.

O professor Marcelo Turine (à direita) foi empossado como reitor da UFMS
no dia 4 de novembro pelo Ministro da Educação, José Mendonça Bezerra Filho.
Já a cerimônia de posse aconteceu no dia 8 de novembro

O título da sua dissertação – TEGRAM – Um sistema Tutor Inteligente Baseado no Tangram para Ensinar Conceitos de Geometria – já indica que o senhor se preocupava com a formação dos professores para a educação básica. Em seu discurso de posse como Reitor, o senhor destacou que essa é uma responsabilidade fundamental da UFMS. Em sua opinião, de que forma os professores universitários podem contribuir para transformar o atual cenário da educação básica no Brasil?
Os professores universitários são os formadores dos profissionais que atuam ou atuarão na educação básica. Os profissionais a serem formados deverão estar aptos a promover nas nossas crianças o desenvolvimento de habilidades como comunicação na língua pátria e potenciais cognitivos, artísticos, culturais, esportivos, lógicos e matemáticos. O ensino deve contribuir para o desenvolvimento na criança e no adolescente de aptidão para análise crítica, sem implantação prematura de contornos ideológicos que ofusquem sua capacidade de pensar e agir livremente. Os valores humanos a serem transmitidos na educação básica devem ser agregadores, dentro de um projeto de harmonia nacional. Tudo isso começa na Universidade.

Durante a posse, o senhor também afirmou que é um apaixonado pelo papel da educação, da ciência, da tecnologia e da inovação como pilares para o desenvolvimento do Brasil e do Mato Grosso do Sul. Como o senhor pretende, durante sua gestão, estimular esse papel transformador da Universidade, o qual o motivou a ser reitor?
Para auxiliar nossos professores e cientistas nos novos desafios de pesquisa, será criada uma agência de desenvolvimento e inovação. É nosso papel institucional criar um ambiente motivador, inovador, empreendedor e com responsabilidade social e ambiental nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e inovação, formando profissionais cidadãos prontos para auxiliar na resolução dos problemas de nossa sociedade e para que sintam a UFMS como um bom lugar para estudar, pesquisar e trabalhar. A mudança de paradigma na gestão universitária exige do corpo diretivo a abertura ao diálogo construtivo e permanente, a pavimentação de diretrizes e planos operacionais eficientes e eficazes e a transparência de todas as ações, bem como o respeito à diversidade. Pretendo ter uma gestão pautada no diálogo, na descentralização, na transparência e na governança pública com eficiência, bem como incentivar a criatividade, a ciência, a tecnologia, a inovação, a internacionalização e a comunicação, como alicerces para mudanças na prática acadêmica e na gestão administrativa.

Quer deixar alguma mensagem especial para os leitores?
Sou casado há vinte anos com uma mulher maravilhosa, desde 1996, e tenho três filhos queridos (Dhara, de 13 anos, Iago, com 7, e Davi, com 6). Olhando meus sonhos, posso dizer que Deus já me deu tudo que sonhava. Novos desafios profissionais surgem: ser reitor de uma das 63 universidades federais do Brasil e da maior universidade de Mato Grosso do Sul é um orgulho. Nunca sonhei ser reitor da UFMS, mas sonhava levar a educação, ciência, tecnologia e inovação do Estado de Mato Grosso do Sul ao patamar de referência nacional e internacional. A educação a serviço das políticas públicas. E agora tenho esse desafio e com trabalho em equipe e dedicação vamos percorrer o caminho necessário para tal finalidade.
Quero encerrar dizendo que tenho saudades da vida de estudante de mestrado e doutorado. Os dias passam e o importante são as amizades que conquistamos. Penso que devemos viver o presente, pensar o futuro e aprender com o passado. Nesse contexto, o ICMC fez parte da minha vida e ajudou a moldar o que sou. Por isso, agradeço a todos que comigo conviveram e que não conseguiria nominar, desde o responsável pela manutenção da ordem e limpeza do local que criavam, assim, condições para o desenvolvimento das habilidades intelectuais no Instituto, os profissionais da secretaria que tanto nos auxiliavam, até os orientadores, responsáveis pela formação intelectual dos estudantes.
Por fim, reforço para nossos jovens estudantes que não podemos deixar de sonhar. Nossos sonhos são a força espiritual que deve nos mover e nos unir aos nobres objetivos da sublime missão das universidades brasileiras: ensinar para a formação integral do cidadão, pesquisar para abrir novos horizontes do conhecimento e buscar todas as oportunidades para conversão do conhecimento em geração de riqueza e da tão carente geração de emprego para a massa de jovens que buscam na universidade pública brasileira a possibilidade de ascensão social.

Para Turine, ser reitor de uma das 63 universidades federais do Brasil e
da maior universidade de Mato Grosso do Sul é um orgulho


Texto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Fotos: Divulgação UFMS


Leia mais no especial "Um instituto e suas infinitas histórias"


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Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Semcomp fazendo história: exposição é inaugurada no ICMC

Público poderá conferir os principais fatos que marcaram os 19 anos de história da Semana de Computação do ICMC visitando a exposição que está em cartaz no Museu Odelar Leite Linhares

Exposição fica em cartaz até novembro

Uma das maiores semanas de computação do Brasil está alcançando a maioridade este ano, quando acontece sua 18ª edição. É a Semana de Computação (Semcomp) do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Para resgatar essa trajetória, que está registrada nas memórias de alunos, ex-alunos, professores e funcionários, o Museu de Computação Odelar Leite Linhares inaugurou nesta segunda-feira, 17 de agosto, a exposição Semcomp fazendo história.

“É a primeira vez que fazemos essa exposição e queremos que ela se repita nos próximos anos, retratando também a melhor Semcomp de todas, que está acontecendo este ano”, disse o diretor do ICMC, Alexandre Nolasco de Carvalho. A inauguração da exposição foi realizada logo após a abertura da 18ª Semcomp, que ocorre até dia 21 de agosto.

“Tão importante quanto mostrar a nossa história para a comunidade externa é mostrar para a comunidade interna que, se hoje temos um evento do porte da 18ª Semcomp, é porque uma história foi construída e nada melhor do que mostrá-la em uma exposição”, ressaltou a presidente da Comissão de Cultura e Extensão do ICMC, Solange Rezende. 

A curadora do Museu, Elisa Nakagawa, também destacou a importância do evento: “A Semcomp tem quase duas décadas de trajetória e está atrelada à história do ICMC. É muito relevante termos um espaço aqui no Museu para podermos relatar isso”. Quem quiser conferir a exposição tem até o final de novembro para visitar o Museu, de segunda a sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 14 às 18 horas.

A professora Solange Rezende e o diretor do ICMC inauguraram a exposição
Nascimento e evolução - Segundo a professora Regina Santana, do ICMC, as sementes de criação da Semcomp foram lançadas durante um workshop realizado no dia 13 de novembro de 1996 para comemorar os 21 anos do curso de Bacharelado em Ciências de Computação do Instituto. O evento nasceu para promover discussões que são de interesse dos estudantes e estimular a interação com profissionais que já estão no mercado de trabalho.

Desde os primórdios, a Semcomp é organizada com a ajuda dos alunos que fazem parte do Programa de Educação Tutorial (PET), promovendo atividades como palestras, minicursos e painéis. Apesar de completar 19 anos – pois a primeira edição do evento aconteceu em 1997 – a Semcomp não foi realizada em 2002, por isso, este ano está em sua 18ª edição. “O motivo que levou à não realização está ligado a uma crise no PET. Em 2002, o programa não teve bolsas e os alunos ficaram desmotivados”, revelou a professora Regina.

Em 1997, quando a Semcomp foi lançada, o ICMC oferecia apenas um curso na área de computação, o Bacharelado em Ciências de Computação, disponibilizando 40 novas vagas a cada ano. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, há no Instituto outros dois cursos nessa área – Sistemas de Informação e Engenharia de Computação – e são oferecidas, anualmente, um total de 190 novas vagas.

A expansão desse campo do conhecimento no Instituto acompanha o desenvolvimento da área de computação no mundo e a Semcomp segue o trilho desse trem: passou dos 138 participantes da 1ª edição para cerca de 850 atualmente. E se no começo foram apenas uma dúzia de atividades, agora esse número ultrapassa 30.

Da esquerda para a direita: Regina Santana, Neide Franco, Marcos Santana,
Elisa Nakagawa, Esther Prado e Alexandre Nolasco de Carvalho

Texto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação ICMC/USP
Fotos: Reinaldo Mizutani (primeira e última imagem) e Leonardo Ribeiro

Exposição Semcomp fazendo história 
Onde: Museu de Computação Odelar Leite Linhares, no ICMC (Av. Trabalhador São Carlense, 400).
Site do Museu: mc.icmc.usp.br
Quando: de 17/08 a 30/11
Horário: segunda a sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 14 às 18 horas
E-mail: museu@icmc.usp.br
Telefone: (16) 3373.9146

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Museu de Computação do ICMC convida para a abertura da exposição Semcomp fazendo história


O Museu de Computação Odelar Leite Linhares, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, realizará a abertura da exposição Semcomp fazendo história na próxima segunda-feira, 17 de agosto, às 11 horas. 

A exposição relata os principais fatos que marcaram a trajetória da Semana de Computação (Semcomp) do Instituto, a qual se tornou uma das maiores semanas de computação do Brasil e construiu uma história de sucesso que está registrada nas memórias de alunos, ex-alunos, professores e funcionários. O evento faz parte da programação da 18ª edição da Semcomp, que acontece de 14 a 21 de agosto.
 
Toda a comunidade do campus da USP em São Carlos está convidada a participar da abertura. O Museu está localizado no bloco 4 do ICMC, na área 1 do campus da USP, em São Calos, na avenida Trabalhador são-carlense, 400. O Museu funciona de segunda a sexta, das 8 às 12 horas e das 14 às 18 horas. 

Mais informações
Seção de eventos do ICMC: (16) 3373.9622
E-mail: eventos@icmc.usp.br

quinta-feira, 13 de março de 2014

A trajetória do menino que queria ser professor de matemática

Esta é a história de como um moleque que não era nada brilhante transformou-se em um matemático, fez seis pós-doutorados e dirigiu, em São Carlos, um dos mais renomados institutos de ciências exatas do país


O ritmo que Plácido Táboas imprime à voz faz jus à origem de seu nome. Do latim, plácido quer dizer calmo, tranquilo, sossegado. Mas essa serenidade que emana das palavras do professor Plácido não condiz com as histórias das lutas por ele travadas no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. 

Plácido é, antes de tudo, um forte. Diferentemente do sertanejo descrito por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, os traços desse professor não são herança dos mestiços do litoral brasileiro, vieram do além-mar, mais especificamente da Espanha. Definindo-se como “um briguento, um questionador”, Plácido não se arrepende de ser assim: “A gente é feito de certo barro e não tem como mudar”.

Confira, na entrevista a seguir, a trajetória desse menino de Pirassununga que abandonou o cursinho do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO), onde estudava para prestar o vestibular de engenharia, porque queria ser professor de matemática.



O que o levou à Licenciatura em Matemática e qual foi o estímulo para seguir esse caminho?

Eu não era um bom aluno. Era um moleque de interior, pensava em jogar bola, fazer estripulias, brincar, mas tinha um pendor para ciências exatas. Em casa, não era considerado nenhum menino precoce ou genial. Os mais inteligentes eram minha irmã, Maria Carmem, e meu irmão Celso. Ela era dez anos mais velha do que eu; já o Celso, oito anos. Havia também o Henrique, seis anos mais velho.

Maria Carmem não fez faculdade, terminou o ensino médio, estudou matemática com professores particulares e passou em um concurso para ser professora em escola pública. Eu vi isso e me entusiasmei, tinha gosto pela matemática também e achava um bom caminho me tornar professor de matemática. Na época, era uma profissão valorizada, não fazia ninguém ficar rico, mas era digno e tinha muita respeitabilidade.

Já o Celso era um rapaz brilhante. Ele também terminou o ensino médio e passou no vestibular para engenharia sem fazer cursinho, aqui na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). No entanto, ele arrumou uma namorada, começou a querer casar e abandonou a engenharia. Acabou prestando um concurso tal como minha irmã e foi ser professor de matemática em Leme.


E seus pais, em que trabalhavam?

Meu pai era comerciante, um imigrante que veio sozinho da Espanha para o Brasil com 18 anos. Ele disse que estava indo para a Argentina e parou aqui para visitar um irmão. Acabou ficando. Arrumou um emprego em São Paulo, em uma revenda da Ford. Como o irmão morava em Pirassununga, acho que ele conheceu minha mãe lá e passou a ser operário no interior. Depois, deixou a fábrica e montou um comércio de pães e doces – uma espécie de confeitaria. Em paralelo, abriu uma relojoaria e criou uma seção de ótica. Por fim, vendeu o outro comércio e ficou só com esse último.

Minha mãe era dona de casa, ajudava nos negócios e tinha formação de corte e costura. Ela chegou a ter uma escola de corte e costura. Com a evolução do negócio do meu pai, abandonou tudo e começou a trabalhar mais no comércio.

Eles não tinham férias. Trabalhavam todo final de semana, só descansavam no domingo à tarde. Era dura a vida.


O jovem Plácido ajudava nos negócios da família?

Eu dava uma mãozinha, tinha algumas tarefas. Uma delas era limpar os vidros da loja. Também ajudava a atender o balcão, mas não tinha um horário fixo de trabalho. Lembro que certa vez meu pai abriu uma sorveteria, só que a tecnologia de fazer sorvete não era tão evoluída. Minha mãe levantava-se às 4 horas da manhã para fazer as caldas e, depois, tinha de bater o sorvete. Eu ajudava nisso.


Com o abandono do cursinho do CAASO, atrasou um ano sua entrada na faculdade?

Na verdade, contando esse ano do cursinho, foram três anos no total. Meus pais descuidaram e eu entrei na escola quando estava para fazer oito anos. Isso não foi culpa minha. Depois, eu perdi mais um ano no primeiro colegial.

Nesse tempo, havia algumas disciplinas em que me dedicava com afinco, com muito amor. Eu me entusiasmei com a literatura francesa e os poetas românticos franceses. Fazia traduções literárias das poesias sozinho. O professor de francês gostava muito das traduções. Eu não pegava o dicionário e fazia a correspondência das palavras. Lia, procurava entender o que o poeta queria dizer e, então, escrevia em português uma frase que traduzia aquela ideia.

Eu gostava também de português, sempre tive facilidade para redação, e de desenho geométrico e matemática. Só estudava essas coisas. Tive notas ótimas nessas disciplinas, porém, nas outras fui reprovado.


Qual foi a reação de seus pais?

Meu pai me ameaçou não me matricular mais e eu me assustei. Ele falou que ia procurar um emprego para mim. Quando chegou o momento de fazer a matrícula, o pessoal lá em casa não foi cuidar disso. Fui escondido, fiz a matrícula e eles me deixaram estudar. Então, eu me tornei um aluno razoável. Bem, se eu tivesse entrado na época certa na escola, não sido tão relapso em algumas disciplinas no primeiro colegial e não tivesse perdido esse ano do cursinho, eu teria ganhado três anos da minha vida.


Mas será que, de alguma forma, não foram importantes esses anos “perdidos”?

Acho que sim. Tinha um professor que eu admirava muito, o Mario Tourasse Teixeira, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro, onde me graduei em 1965. Ele me influenciou muito, não só na formação matemática, mas humanística também. Era uma pessoa fantástica. Uma vez, conversando com ele, eu disse: gostaria de voltar atrás na minha vida com a experiência que tenho agora. Eu ia estudar até latim! Não sei se meu caminho seria fazer matemática, porque eu gostava de outras coisas também, mas teria uma formação melhor. Ele falou: será que você não está enganado? Esse período que você acha que perdeu vadiando, não foi um tempo em que aprendeu muito e passou a conhecer coisas que a gente não aprende na escola? Respondi: pode ser, muitas coisas a gente aprende vivendo...


Houve outros professores relevantes na sua trajetória?

Lá de Rio Claro, uma pessoa igualmente importante é o professor Nelson Onuchic, que foi meu orientador de doutorado. Ele foi um exemplo, muito estimulante como orientador, como professor. Foi decisivo ter feito iniciação científica com ele quando eu era aluno da graduação.

Outro professor importante foi um americano, Jack Hale, com quem fiz meu primeiro pós-doutorado nos Estados Unidos. Ele faleceu há cerca de 4 anos e era uma pessoa especial, um matemático fora de série. Mas eu o conheci antes de ir para lá, o professor Nelson o trouxe para São Carlos. Aliás, o Nelson teve um papel relevante na atração de pessoas importantes para cá.


Em seu discurso de posse como diretor do ICMC, em 2002, o senhor afirma que “a principal função do diretor é criar condições, ser um facilitador das manifestações das lideranças, criando condições para que elas possam se expressar da melhor maneira”. Há algum exemplo desse tipo de atitude durante sua administração?

Fiz um grande esforço para que fosse criado o Departamento de Matemática Aplicada e Estatística (SME). Cosequentemente, foi criado o Departamento de Sistemas de Computação. Esse era um desejo de alguns grupos e eu achava justo que os estatísticos tivessem mais liberdade para se desenvolverem. Antes, o Instituto tinha dois departamentos: Matemática e Computação. Todas as discussões eram polarizadas, o departamento que tinha a maioria dos votos é que definia as decisões. Então, pensei: se nós criarmos um terceiro departamento, vai melhorar, ninguém terá maioria, teremos que negociar. Se isso tivesse acontecido antes, provavelmente, o nome do Instituto seria Instituto de Ciências Matemáticas de São Carlos e não ICMC. 


De fato, aconteceu uma grande discussão antes da mudança do nome do Instituto em 1998. O senhor acha que essa alteração não deveria ter ocorrido?

Não é que não deveria ter acontecido. Eu era contra a mudança do nome. Não acho isso importante, não mudou a história do Instituto. Justamente por isso não deveria mudar. É um nome inteligente, não privilegia a matemática. É um Instituto de Ciências Matemáticas, o que inclui computação, estatística, etc. Por que mudar? Eu era a favor de manter o nome porque nós temos uma dificuldade em manter tradições e elas são importantes.

Mas quando a gente fala que uma pessoa gosta de tradição, temos a impressão de que ela é retrógrada, reacionária, de direita. E não é assim. Daqui a 10, 15 anos, vamos mudar outra vez? Em vez disso, vamos tornar esse nome histórico. Que daqui a 100 anos seja o mesmo nome. Isso não quer dizer que não devemos evoluir. Continuo achando que o nome não é fundamental para definir o que se faz aqui dentro.


Outro fato marcante da sua gestão foi a ampliação das vagas do curso de Bacharelado em Ciências de Computação – de 40 para 100 – e a criação do curso de Engenharia de Computação – 50 vagas. Esse crescimento das atividades não foi acompanhado pelo aumento do quadro técnico-administrativo. Como foi lidar com esse desafio?

A gente foi se organizando. Houve um aumento no número de docentes, mas o número de funcionários não cresceu o quanto seria necessário. De certa forma, isso faz que nossos funcionários se organizem de uma forma bastante eficiente.

Mas o crescimento traz alguns prejuízos no dia a dia. A gente perde um pouco a naturalidade da convivência porque é preciso ser mais formal. E o fato de haver certa pessoalidade, por exemplo, na seleção de docentes, tornava mais fácil planejar o desenvolvimento do Instituto. Agora a gente contrata um docente por concurso, que é muito competente, mas muitas vezes não tem o perfil de que gostaríamos. Isso é muito importante em uma instituição acadêmica. Aliás, esse é um ponto sobre o qual a Universidade deveria se debruçar e resolver. 

Há, é claro, o lado positivo do crescimento: nossa inserção no contexto nacional e internacional. Quando éramos pequenos, nosso impacto era local. Agora, somos mais globais.


O que há de plácido em Plácido?

Eu passo a impressão de uma pessoa afável. Talvez eu seja afável. Mas vou ser honesto: briguei muito aqui. Eu nem sempre fui bem aceito. Quando me indicaram para diretor, eu não era da situação, mas da oposição. Na universidade, as pessoas que estão mais no começo da carreira são as que têm menos poder. E eu sempre tive muita afinidade com essa turma, então eu sempre fui oposição nesse sentido, por ser a parte mais fraca. Foi uma surpresa ter sido indicado diretor porque sempre fui muito questionador.

Mas foi bom, viu? Se eu fosse voltar atrás, não mudaria muita coisa não. Meu orientador, o Nelson, falava assim: a gente é feito de certo barro, e não tem como mudar.




Biblioteca Achille Bassi, um capítulo à parte

Houve um pequeno contratempo no início da gestão de Plácido: a obtenção de recursos para a construção do novo prédio da Biblioteca Achille Bassi. Segundo ele, o diretor anterior, professor Paulo Masiero, já havia conversado com a administração central da USP e os recursos estavam garantidos para o projeto.

No entanto, houve uma mudança institucional e o órgão que era responsável pelas construções, o Fundusp, deixou de existir. Conclusão: o dinheiro sumiu! “Eu briguei muito e, no fim, consegui a verba diretamente com o reitor, Adolpho José Melphi”, contou. No final da gestão de Plácido, a biblioteca começou funcionar parcialmente e foi inaugurado o último andar do prédio, onde está a hemeroteca. “Essa é uma das características do nosso Instituto: um diretor não procura derrubar o que o outro fez. Isso é uma das virtudes da nossa administração: a mudança de gestão não significa uma ruptura drástica na administração”, disse.

Ele também destacou o esforço pela realização do projeto de jardinagem para o entorno do novo prédio, desenvolvido pelo professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Sílvio Macedo, um dos responsáveis pelo projeto de reforma da Praça do Relógio da USP, no campus Cidade Universitária, em São Paulo.

Plácido (último à direita) com o professor Nelson Onuchic (na cadeira de rodas):
um dos esforços de sua administração foi garantir acessibilidade aos prédios do ICMC


Dois filhos, dois netos

Casado com a também professora de matemática Carmem Maria, que conheceu quando estava fazendo faculdade em Rio Claro, Plácido tem dois filhos: Gustavo, que nasceu em 1971, logo que Plácido foi contratado pelo ICMC; e Ariane, a caçula, nascida em 1975. Formada em direito, Ariane é também psicóloga e trabalha atualmente na Prefeitura Municipal de São Carlos. Já Gustavo é formado em Engenharia Mecânica pela EESC, trabalha atualmente na AGCO, em Mogi das Cruzes, e tem dois filhos: Luca e Mateu.


Esta entrevista está disponível na revista ICMCotidi@no, edição 103, disponível eletronicamente no ISSUU (icmc.usp.br/e/488ae) ou em PDF (icmc.usp.br/e/4f79d).


Texto e fotos: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação ICMC/USP


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