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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Ferramenta para detectar fake news é desenvolvida pela USP e pela UFSCar

Acessível via WhatsApp e na internet, plataforma que possibilita checar se uma notícia é falsa ou verdadeira está em fase de testes e aperfeiçoamento

Entre os pesquisadores que desenvolvem o projeto estão Roney (à esquerda), Rafael e o professor Thiago Pardo (em pé)

Quantas vezes você já recebeu uma informação via um aplicativo de troca de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, ou leu uma notícia circulando pela internet e gostaria de checar a veracidade do conteúdo? Agora, já é possível fazer essa verificação usando uma ferramenta piloto criada por um grupo de pesquisadores da USP e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A plataforma está em fase de testes e aperfeiçoamento, mas já é possível acessá-la gratuitamente via web ou pelo WhatsApp

“A gente sabe que, quando uma pessoa está mentindo, inconscientemente, isso afeta a produção do texto. Mudam as palavras que ela usa e as estruturas do texto. Além disso, a pessoa costuma ser mais assertiva e emotiva. Então, uma das formas de detectar textos enganosos é medir essas características”, explica o professor Thiago Pardo, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Pesquisador do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), Thiago é o coordenador do projeto que resultou na criação da plataforma e na publicação do artigo Contributions to the Study of Fake News in Portuguese: New Corpus and Automatic Detection Results, apresentado no final de setembro na 13ª Conferência Internacional de Processamento Computacional do Português

“A ideia é que a ferramenta seja um apoio para o usuário. Ainda estamos no início desse projeto e, no estado atual, o sistema identifica, com 90% de precisão, notícias que são totalmente verdadeiras ou totalmente falsas”, pondera o professor. “No entanto, as pessoas que propagam fake news costumam embasar suas mentiras em fatos verdadeiros. Nossa plataforma ainda não tem a capacidade de separar as informações com esse nível de refinamento, mas estamos trabalhando para isso”, completa Thiago. 

Para ver como a ferramenta funciona no WhatsApp, por exemplo, pegue seu smartphone e acesse este link: https://otwoo.app/nilc-fakenews. Automaticamente, uma janela de troca de mensagens do aplicativo se abrirá e você vai ler “Nilc-FakeNews” na tela. Basta apertar a tecla enviar e, imediatamente, você receberá outra mensagem: “Olá! Seja bem-vindo ao detector de fake news do NILC-USP – Detecção Automática de Notícias Falsas para o Português! O sistema irá utilizar o modelo de detecção para avaliar se a notícia é falsa ou verdadeira. Insira o corpo de uma notícia.” Pronto, você acabou de acessar o sistema de verificação! Agora, é só colar a notícia que deseja checar. Se forem verificados indícios de fake news, o sistema alertará: “Essa notícia pode ser falsa. Por favor, procure outras fontes confiáveis antes de divulgá-la”. 

Após cerca de 20 minutos sem uso, é necessário reativar o acesso ao sistema. Para isso, basta digitar a palavra “Fake” e apertar enviar. Você receberá novamente a mensagem “Olá! Seja bem-vindo...”. Em seguida, pode colar outra notícia e enviar para checagem.

Roney e Rafael explicam como funciona a plataforma no WhatsApp

Ensinando o computador – Mas como os pesquisadores conseguiram ensinar o computador a identificar o que é mentira e o que é verdade, se essa tarefa é difícil até mesmo para nós, seres humanos inteligentes? É aí que entram as técnicas da área de inteligência artificial. Para tornar a máquina capaz de reconhecer as características dos textos mentirosos e a dos textos verdadeiros, bem como diferenciá-los, uma série de passos precisa ser realizada. 

O primeiro desafio é construir um conjunto de notícias falsas e verdadeiras em português. É a partir do reconhecimento das características desse conjunto de dados que o computador poderá ser treinado para avaliar futuros textos. São as informações que os humanos inserem nas máquinas e os padrões criados para analisar cada conjunto de dados que modelam os sistemas computacionais para que realizem futuras tarefas. Essa é a mesma tecnologia que possibilita ao Facebook, por exemplo, reconhecer faces. Mas por que, então, quando o Facebook começou a fazer reconhecimento facial o índice de acerto era maior quando aparecia o rosto de alguém branco e ocidental? Ora, por causa do viés que havia no conjunto de faces utilizado para treinar a plataforma: a maioria eram imagens de rostos de seres humanos brancos e ocidentais. A questão gerou uma série de críticas à empresa e demandou um aprimoramento da ferramenta. 

No caso da plataforma criada para detectar fake news, o conjunto de notícias utilizado é composto por 3,6 mil textos falsos e 3,6 mil verdadeiros, que foram publicados na web entre janeiro de 2016 e janeiro de 2018. Esses textos foram coletados manualmente e analisados para garantir que apenas os que fossem totalmente falsos ou totalmente verdadeiros compusessem o conjunto, que está disponível para utilização em outras pesquisas (veja neste link: icmc.usp.br/e/f9049). 

Cada notícia verdadeira possui uma notícia falsa correspondente. Assim, por exemplo, do total de 4.180 notícias sobre política, metade (2.090) são falsas e metade são verdadeiras. O mesmo vale para todas as demais categorias.

Os conhecimentos da área de inteligência artificial entram em campo na sequência: os cientistas usam técnicas computacionais para processar os textos coletados automaticamente, fazer a classificação gramatical de todas as palavras, separar cada sentença e cada termo (incluindo pontuações e números). Depois, é hora de identificar as características presentes nesses textos que poderiam ser empregadas para classificá-los em falsos ou verdadeiros. Como os textos verdadeiros costumam ser mais extensos que os falsos, a quantidade de palavras e sentenças não é um fator adequado para diferenciá-los. “Se usássemos esse critério, o sistema teria a tendência de classificar todos os textos curtos como falsos e os extensos como verdadeiros”, explica o doutorando Roney Lira, do ICMC. Para evitar isso, os pesquisadores utilizaram outros parâmetros como o número médio de verbos, substantivos, adjetivos, advérbios e pronomes presentes nos textos (veja a tabela a seguir). 

Erro ortográfico é um dos parâmetros mais relevantes para a verificação da veracidade dos textos

“Das 3,6 mil notícias falsas que coletamos, 36% possuíam algum erro ortográfico, enquanto apenas 3% das verdadeiras apresentavam esse problema”, pondera Roney. Por isso, a presença de um erro ortográfico passou a se tornar um parâmetro relevante para a verificação da veracidade dos textos. Afinal de contas, a probabilidade de uma notícia ser falsa é muito maior se houver um erro ortográfico. 

Na penúltima etapa, os pesquisadores lançam mão de outra técnica de inteligência artificial: “Empregamos métodos clássicos de aprendizagem de máquina, que estão entre os mais utilizados atualmente, e conseguimos treinar o sistema com um índice de 90% de acerto na classificação das notícias”, diz Thiago. O professor explica que o índice de acerto é alto porque o sistema avalia, simultaneamente, diversas propriedades presentes nos textos. 

O professor Thiago Pardo é o coordenador do projeto, que está sendo desenvolvido há cerca de um ano e meio

Aprendendo e avançando – Cursando Ciências de Computação no ICMC, o estudante Rafael Augusto Monteiro é um dos colaboradores do projeto, do qual participou por meio de uma iniciação científica. Ele já sonha com os desafios futuros: “Nosso intuito inicial foi trabalhar com textos escritos, pois são uma unidade fundamental para análise em linguística computacional. Mas queremos expandir o projeto e passar a avaliar imagens, vídeos, áudios, abarcando outras mídias”. 

Já Roney pretende, durante o doutorado, eliminar uma das principais limitações do detector de notícias: avaliar textos que contém partes falsas e verdadeiras, separando o joio do trigo. “O próximo passo é tentarmos fazer checagem de conteúdo automaticamente, algo que as agências de notícias e os jornalistas fazem hoje manualmente”, conta Thiago. O professor também quer avançar na detecção de outros tipos de conteúdos enganosos (do inglês, deception) como as revisões falsas de produtos e os textos satíricos. “A mesma tecnologia da detecção de fake news pode ser usada nesses outros casos mediante adaptações. Nas notícias falsas, o grau de emoção do texto faz diferença. Em textos satíricos, como há sempre exagero, humor, espera-se encontrar alto teor emocional. Então, talvez essa característica deixe de se tornar relevante. Por outro lado, na revisão de produtos, é necessário checar as informações técnicas, por exemplo”. 

Financiado pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do CNPq e por outras duas agências de fomento brasileiras (CAPES e FAPESP), o projeto Detecção Automática de Notícias Falsas para o Português conta com a participação de mais três pesquisadores: Evandro Ruiz, que é ex-aluno do ICMC e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP; Tiago de Almeida, professor do departamento de Computação da UFSCar no campus Sorocaba; e de Oto Araújo Vale, professor do departamento de Letras da UFSCar no campus São Carlos. A equipe teve, ainda, o apoio do doutorando Murilo Gazzola, do ICMC, que foi responsável por disponibilizar a plataforma no WhatsApp. Todo esse trabalho tem sido realizado no âmbito de um projeto maior chamado Opinando (Opinion Mining for Portuguese: Concept-based Approaches and Beyond), que visa fornecer subsídios para a área de mineração de opinião para a língua portuguesa. 

Com aproximadamente um ano e meio de vida, o projeto já produziu resultados relevantes e os avanços que poderão ser alcançados no futuro são ainda mais promissores. Mas o professor Thiago ressalta que, por mais que a tecnologia nos ajude na difícil tarefa de identificar as fake news, continuará sendo fundamental a obtenção de informações por meio de fontes confiáveis: “Nenhum sistema será 100% eficiente. Cada vez que se cria algo para detectar um problema, alguém vai descobrir um jeito de burlar”. 

Se você acredita que os computadores podem nos salvar das fake news, informamos que essa notícia possivelmente é verdadeira. Mas não exagere: se você escrever que os computadores serão os salvadores da pátria no WhatsApp e enviar para o detector, vai descobrir que essa notícia pode ser falsa. Até o computador reconhece que os sistemas computacionais, tal como os seres humanos, são sujeitos a falhas e que não basta a tecnologia ou um salvador da pátria para solucionar os complexos problemas da humanidade. 

Ao completar 25 anos de existência, NILC é uma referência em processamento de linguagem natural do Brasil.
Os pesquisadores do Núcleo fomentaram o desenvolvimento de revisores ortográficos e gramaticais para o português,
tal como o que é até utilizado no Word, da Microsoft

Texto e fotos: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 
Arte das tabelas: Fernando Mazzola

Mais informações
Site do detector de notícias falsas: http://nilc-fakenews.herokuapp.com/
Link para acessar a ferramenta no WhatsApp: https://otwoo.app/nilc-fakenews
Conjuntos de notícias verdadeiras e falsas (Fake.Br Corpus): icmc.usp.br/e/f9049
Artigo Contributions to the Study of Fake News in Portuguese: New Corpus and Automatic Detection Results (versão pré-impressão):

Contato para esta pauta
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ouvir dá trabalho: USP desenvolve plataforma para medir esforço auditivo

Gratuita, a nova ferramenta está disponível na web e foi testada com adolescentes com e sem deficiência auditiva; resultados mostram que o recurso pode facilitar o trabalho de fonoaudiólogos

Plataforma foi testada com 13 adolescentes com deficiência auditiva,
que usavam um aparelho de amplificação sonora individual
(crédito: USP Imagens)
 
Na sala de aula, um adolescente se esforça para prestar atenção no que o professor está falando. O ambiente a sua volta não contribui para a realização da tarefa: os sons das vozes dos colegas se misturam a diversos outros ruídos como o barulho dos carros que passam na rua, o canto de pássaros, os passos de um colega que se levanta. Em um ambiente ruidoso, manter o foco para escutar o professor é um desafio para qualquer estudante ouvinte, imagine então a dificuldade enfrentada por um aluno com deficiência auditiva. 

Com o objetivo de facilitar a mensuração desse esforço auditivo, pesquisadores da USP criaram uma plataforma digital e gratuita que facilita a realização de testes de dupla tarefa. Adolescentes com e sem deficiência auditiva participaram dos primeiros experimentos usando a ferramenta e os resultados indicam que a plataforma poderá ser uma importante aliada dos fonoaudiólogos em diversos contextos. 

Exemplo de uma das telas da plataforma digital criada pelos pesquisadores

O projeto é resultado da união de esforços de duas pesquisadoras da área de fonoaudiologia, vinculadas à Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, e de mais dois pesquisadores da área de computação, ligados ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. A soma dos conhecimentos das duas áreas propiciou quantificar quanto os adolescentes se esforçam para compreender uma mensagem quando estão em uma situação adversa, enfrentando dificuldades para ouvir. 

“No depoimento de um dos estudantes sobre o ambiente da sua sala de aula, que considera barulhenta, ele diz que não consegue prestar atenção na fala do professor. Então, desiste de acompanhar a aula e começa a conversar com os amigos. Essa atitude pode trazer impactos negativos para o processo de aprendizagem”, explica Aline Duarte da Cruz, que defendeu recentemente seu doutorado no programa de pós-graduação em Fonoaudiologia da FOB. Dependendo do esforço auditivo que é realizado, o estudante pode apresentar fadiga, caracterizada como um sentimento de cansaço, exaustão, dificuldade de concentração, aumento da distração, alteração de humor, diminuição da energia e da eficiência mental, podendo levar ao estresse. Daí a relevância de construir instrumentos apropriados para mensurar o esforço auditivo. 

Foi a orientadora do trabalho de Aline, a professora Regina Tangerino de Souza, que tomou a iniciativa de buscar uma parceria na área de computação para lidar com um dos desafios encontrados pelas pesquisadoras: elas precisavam medir o esforço auditivo dos adolescentes de forma fácil e atraente, além de, ao mesmo tempo, registrar os dados obtidos de maneira rápida e confiável. Quando o e-mail de Regina chegou ao professor Seiji Isotani, do ICMC, ele logo pensou no doutorando Wilmax Cruz que, durante o mestrado, havia elaborado um software para apoiar cuidadores de idosos, o Day2Day. A experiência anterior de Wilmax na área de tecnologia aplicada à saúde foi fundamental para que os dois pesquisadores do ICMC atendessem ao chamado das fonoaudiólogas. 

“Todas as áreas do conhecimento têm buscado essa abrangência interdisciplinar. Na computação, em particular, temos essa visão de propiciar o uso de tecnologias por outras áreas, já que, atualmente, a computação permeia todos os campos”, destaca o professor Seiji Isotani. 


O projeto também contou com a colaboração do professor Jean-Pierre Gagne,
do Institut Universitaire de Gériatrie de Montréal, que foi co-orientador de Aline no doutorado


Como funciona – Aline explica que, para medir o esforço auditivo, é comum empregar um teste em que o participante precisa realizar duas tarefas simultaneamente: enquanto escuta uma fala em um ambiente com ruído (tarefa primária), a pessoa precisa, ao mesmo tempo, realizar outra tarefa como, por exemplo, uma atividade de memorização (tarefa secundária). Em suas buscas, Aline não encontrou uma padronização nessas atividades secundárias: enquanto alguns pesquisadores pediam aos participantes para memorizarem uma sequência de números, outros requisitavam que as pessoas se lembrassem dos desenhos de um baralho (naipes) ou de uma sequência de cores. 

Mas por que usar duas tarefas nesse caso? A fonoaudióloga explica que a dupla tarefa requer do participante a execução de várias operações mentais simultâneas, o que acontece frequentemente durante a aprendizagem, quando, por exemplo, os alunos precisam acompanhar atentamente a fala contínua do professor enquanto fazem suas anotações: “Na dupla tarefa, o participante deve focar sua atenção na tarefa principal, que é o reconhecimento da fala. Qualquer outra tarefa é secundária”. 

Imagine, agora, o trabalho que os fonoaudiólogos têm para medir, manualmente, o esforço auditivo de um paciente na realização dessa dupla tarefa. Para ter validade científica, um teste assim precisa ser realizado por mais de um especialista, para garantir que não existam erros no registro dos dados no papel. “Então, identificamos que havia uma lacuna: se usássemos a tecnologia para nos ajudar, poderíamos facilitar o registro dos dados e também tornar o teste mais agradável para os adolescentes, nosso público-alvo”, conta Aline. 

Foi assim que nasceu a Paleta, uma plataforma digital para auxiliar na execução de testes de dupla tarefa. O adolescente escuta várias sentenças em meio a ruídos enquanto vê, diante da tela de um computador, tablete ou do celular, uma sequência de cores piscando que precisa ser memorizada. A seguir, o adolescente deve repetir as sentenças que escutou bem como a sequência das cores que viu. A plataforma registra automaticamente o que foi lembrado pelo participante, bem como os erros, os acertos e o tempo que cada adolescente levou para recuperar a informação visual. Com esses dados coletados, calcula-se o esforço auditivo. 

O interessante é que foi um brinquedo popular da década de 1980, guardado na memória de Wilmax, que serviu de inspiração para a criação da Paleta. “Você se lembra daquele jogo chamado Genius, em que os botões coloridos emitiam sons, se iluminavam em sequência e a gente tinha que repetir? Então, eu pensei em fazer isso, só que de forma virtual”, revela o doutorando. 

Brinquedo Genius inspirou Wilmax
(crédito: divulgação)


Os primeiros testes – A Paleta foi testada com 18 adolescentes com audição normal e 13 adolescentes com deficiência auditiva de grau moderado e severo, com média de idade de 14 anos. Esses 13 adolescentes usavam um aparelho de amplificação sonora individual (AASI). Mesmo com a utilização do aparelho, quem tem deficiência auditiva costuma ter dificuldade para entender a fala em ambientes com ruído. 

Uma das soluções encontradas para reduzir esse problema é acoplar ao AASI uma tecnologia assistiva: o sistema de frequência modulada (sistema FM). O dispositivo é composto por um transmissor e um receptor. O transmissor é responsável por captar a fonte sonora, por exemplo, a voz do professor, por meio de um microfone. O sinal é enviado diretamente para o receptor, uma peça que é acoplada ao AASI do estudante. Assim, a ênfase recai exclusivamente na voz do professor. Desde 2013, o Sistema Único de Saúde fornece o sistema FM para crianças e adolescentes na faixa etária entre cinco e 17 anos. 

Com o objetivo de verificar se há uma redução no esforço auditivo dos adolescentes com deficiência auditiva ao utilizarem o sistema FM, Aline realizou testes com a Paleta em adolescentes que usavam o AASI, nas situações sem e com o sistema FM acoplado. “O uso do sistema FM foi efetivo para reduzir o esforço auditivo quando comparado com os resultados apenas com o uso do AASI. O esforço foi menor até mesmo quando comparado ao dos adolescentes que tinham audição normal”, ressalta Aline nas conclusões da tese de doutorado Esforço auditivo e fadiga em adolescentes com deficiência auditiva – uso do sistema FM

Em relação ao impacto do ruído na aprendizagem, Aline diz que a queixa dos adolescentes com deficiência auditiva diminui significativamente com o uso do sistema FM. “Eles apresentam melhor desempenho até que seus pares ouvintes”, enfatiza a pesquisadora. Não é à toa que a maioria dos adolescentes usuários do sistema FM encontra-se satisfeito e faz uso efetivo de seus dispositivos em sala de aula. 

Aline (à direita) e sua orientadora, a professora Regina, durante a defesa da tese de doutorado,
que aconteceu no dia 15 de maio na FOB/USP
(crédito: arquivo pessoal)

Colorida e em vários idiomas – “Quando começamos o projeto, não tínhamos ideia da importância que a plataforma poderia ter. Foi um processo intenso de construção conjunta”, diz Wilmax. A união de esforços deu tão certo que a Paleta estará disponível, em breve, em mais três idiomas – inglês, francês e espanhol – além do português. Gratuita e aberta, a plataforma pode ser personalizada. Ou seja, os fonoaudiólogos podem selecionar a quantidade de apresentações e a sequência de cores a serem empregadas na tarefa secundária que querem utilizar, de acordo com a tarefa primária selecionada. 

Acessível por meio de endereço eletrônico www.paleta.fob.usp.br, a Paleta pode ser utilizada via computador, tablete e celular, com suporte para sistema operacional IOS e Android. Aline destaca que cada vez mais profissionais de saúde têm aderido ao uso de aplicativos para auxiliar na consulta, diagnóstico e acompanhamento de pacientes. De fato, a Paleta mostra quanto o diálogo entre computação e saúde pode ser bem-sucedido, especialmente quando os especialistas das duas áreas do conhecimento sabem ouvir uns aos outros. 

Imagem mostra o ambiente de teste da Paleta


Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 

Mais informações 
Conheça a Paleta: www.paleta.fob.usp.br
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666 
E-mail: comunica@icmc.usp.br

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A matemática está em tudo: mergulhe no especial do Jornal da USP


Despertar um novo olhar para a matemática é o principal objetivo do Especial A matemática está em tudo. Lançado nesta segunda-feira, 23 de outubro, o Especial é uma plataforma multimídia fruto de um projeto que nasceu na área de comunicação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, em parceira com o Jornal da USP, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI).

Aliás, A matemática está em tudo é o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2017. Nesta semana, uma maratona de atividades acontecerá no ICMC, veja a programação completa: www.icmc.usp.br/e/91111

Além disso, este e o próximo ano foram instituídos como o Biênio da Matemática no Brasil. Nesses dois anos, diversos eventos tomarão conta do território nacional, incluindo o Congresso Internacional de Matemáticos, que ocorrerá pela primeira vez no país de 1 a 9 de agosto de 2018. 

A equipe que elaborou o Especial espera que, com esse material, a sociedade brasileira possa enxergar a matemática e as demais ciências com mais afeto.

Acesse e compartilhe o Especial:

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

terça-feira, 9 de maio de 2017

Site criado por estudantes da USP arrecada doações para crianças em tratamento

Plataforma "Somos Todos Heróis” faz do financiamento coletivo um projeto social

Da esquerda para a direita, a equipe do Somos Todos Heróis:
Marco Schaefer, Igor Marinelli e Fuad Schiavon

Com menos de um ano, Ana Clara sofreu um grave acidente de carro. Perdeu a mãe, um tio e sofreu uma grave lesão medular. Hoje ela luta para se recuperar. Além de roupas e alimentos, Ana precisa ser transferida da Santa Casa de São Carlos para outro hospital, onde possa responder melhor aos tratamentos. Ela é uma das crianças heroínas que foram atendidas pelo projeto social Somos Todos Heróis, um site de financiamento coletivo voltado a arrecadar doações para quem precisa de ajuda: seja um tratamento médico, a realização de uma cirurgia, auxílio para compra de alimentos ou materiais escolares. 

Cada doação simboliza o envio de um acessório para fortalecer a criança e torná-la uma heroína ou herói. Cintos, varinhas, escudos, visão de raio laser, capas e anéis mágicos fazem parte do arsenal que pode “equipar” as crianças. Criado em 2016, o site não tem fins lucrativos e todos os valores doados são depositados via PagSeguro diretamente na conta dos responsáveis pela criança.


Linguagem atrativa - A ideia e implementação do site vem de Matheus Marchiori, aluno da Faculdade de Direito (FD) da USP, e de Igor Marinelli, estudante de Engenharia da Computação, curso oferecido em parceria pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). Amigos desde o ensino médio, ambos decidiram iniciar o Somos Todos Heróis a partir da insatisfação com outros projetos sociais de que participavam, em especial por conta da falta de doações para crianças ou instituições carentes.

A temática de super-heróis mostrou-se uma forma de alcançar diversas idades. Como conta Igor, é algo que “mexe com muitas lembranças dos adultos e, ao mesmo tempo, inspira as crianças a pensarem em ações socialmente responsáveis desde pequenas”. Em seus dez meses de existência, o site já possibilitou que cinco missões fossem cumpridas, incluindo a de Ana Clara.

A montagem das missões é feita por Igor, que vai à casa das crianças averiguar a solicitação de campanhas, procura novas crianças e faz o contato com famílias e instituições. Além dele, a equipe conta hoje com mais duas pessoas ativas: Fuad Schiavon, que cuida do design do site, e Marco Schaefer, programador e desenvolvedor, ambos também alunos de Engenharia da Computação em São Carlos. Matheus Marchiori compõe atualmente o conselho jurídico do projeto. E o time está aberto a quem quiser ajudar.

E agora, quem irá nos defender - O desenvolvimento da plataforma levou cerca de seis meses. Ainda que tenha um custo de manutenção baixo, o site conta com uma parceria com a empresa HomeHost do Rio de Janeiro, que lhe garante a hospedagem sem despesas. Porém, quando é feita uma campanha pela página do Facebook do projeto para incentivar a doação, os gastos com publicidade saem do bolso da equipe.

O site também deve receber novidades em breve. A equipe trabalha agora para gamificar mais a plataforma a fim de torná-la mais atrativa. Um sistema de conquistas está em desenvolvimento, no qual os usuários poderão subir de nível a partir de suas ações e doações e obter prêmios, como camisetas do Somos Todos Heróis.

Texto: Jornal da USP - editado e atualizado pela Assessoria de Comunicação do ICMC/USP

Mais informações
Confira a reportagem da EPTV: icmc.usp.br/e/15394
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Pesquisa propõe a criação de plataforma de jogos acessíveis para idosos

Proporcionar maior inclusão e qualidade de vida na terceira idade são alguns dos objetivos do projeto

O grupo de pesquisadores estabeleceu uma parceria com a empresa Aptor e o projeto
foi aprovado no Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP

Conforme envelhecemos, vamos perdendo nossa capacidade motora, visual e cognitiva. Idosos convivem com esses problemas diariamente e muitos não têm conhecimento sobre alternativas que possam amenizar esse processo de transformação natural. Pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), estão desenvolvendo uma plataforma de jogos digitais para idosos, ferramenta que poderá trazer mais qualidade de vida a esse público.

Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que existem no país aproximadamente 20 milhões de brasileiros com idade igual ou superior a 60 anos e espera-se que, em 20 anos, esse número triplique. Isso se dá devido a fatores como aumento da expectativa de vida e queda das taxas de fecundidade, natalidade e mortalidade. “Jogos digitais têm sido desenvolvidos especialmente para a população jovem, habituada a essas interações e com aprendizagem mais rápida. Adequar e proporcionar esse tipo de conteúdo aos idosos ainda é um desafio que, se vencido, será um importante instrumento de inclusão social”, explica Leandro do Amaral, que faz doutorado no ICMC.

“Os idosos de hoje já estão inseridos no mundo da tecnologia, mas devemos trazê-los ainda para mais perto dessa nova cultura. Muitos deles já jogavam games quando eram mais novos, mas atualmente não há preocupação da indústria de jogos com essas pessoas. Games não são somente para jovens e crianças”, conta Gabriel Lima, que se formou em Ciências de Computação no ICMC. Hoje, Gabriel trabalha na Aptor Consultoria e Desenvolvimento de Software, empresa parceira dos pesquisadores no projeto Ambiente lúdico adaptativo como ferramenta para proporcionar treinamento cognitivo ao público senescente

Para desenvolver uma ferramenta com jogos acessíveis a quem tem mais de 60 anos, os pesquisadores precisam levar em conta o déficit cognitivo e motor que os idosos costumam apresentar. É recomendado evitar movimentos muito rápidos durante o jogo, excesso de informações na tela e o tamanho das letras deve ser maior do que o tradicionalmente empregado nos games destinados a outros públicos. “A maior dificuldade é entender a necessidade do idoso. Ele não pode se sentir frustrado por não conseguir jogar. Ao mesmo tempo, a experiência não deve ser entediante como acontece em games que não apresentam desafios”, diz Gabriel.

Leandro explica também que, no Brasil, não há muitos jogos para idosos e os que existem não se preocupam com acessibilidade. Outro fator importante que deve ser levado em conta no momento de criar um game para essas pessoas é que o projeto precisa se relacionar com o universo cultural de quem tem mais de 60 anos. Por isso, foi realizada uma pesquisa prévia com 50 idosos para obter mais informações sobre as características desse público a fim de propor jogos com uma temática atrativa.

Ao criar a plataforma, também será possível, segundo os pesquisadores, contribuir com a evolução das habilidades e técnicas cognitivas dessa população, retardando uma série de declínios, como, por exemplo, o comprometimento da memória. De acordo com Leandro, pesquisas sobre o desenvolvimento motor dessa população têm ganhado destaque, tendo em vista as transformações já esperadas durante as fases do envelhecimento e por ser um nicho de mercado que deverá ser cada vez mais explorado. 

“É uma área de pesquisa muito promissora e que está se desenvolvendo não só no Brasil como no mundo todo. Os idosos são muito atuantes e desejam participar”, conta Renata Pontin, professora do ICMC e orientadora de Leandro. 

Nos jogos para idosos, o tamanho das letras deve ser maior do que o
tradicionalmente empregado nos games voltados a outros públicos

Importância reconhecida – Para viabilizar a criação da plataforma, os pesquisadores estabeleceram uma parceria com a Aptor e apresentaram uma proposta para o Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), criado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O projeto foi aprovado pela agência de fomento e receberá até R$ 200 mil nos primeiros nove meses de pesquisa (chamados de fase 1). Ao final do período, os pesquisadores apresentarão um relatório técnico sobre o andamento do projeto. Caso obtenham resultados satisfatórios, o financiamento pode ser renovado por mais dois anos (fase 2), com a garantia de que um produto final seja entregue ao final do prazo. 

“É muito importante receber esse recurso da FAPESP, que nos possibilita arriscar. Hoje em dia, com o atual cenário econômico do país, talvez não fosse possível produzirmos esse trabalho”, diz Leandro. O projeto está sendo realizado em parceria com Marcos Hortes e Paula Castro, professores do Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e com os alunos de pós-graduação Lucas de Carvalho e Francine Golghetto, ambos da UFSCar. A iniciativa recebe, ainda, a contribuição de Thiago Bittar, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), regional Catalão. Além de Gabriel, o projeto conta com a participação de mais três desenvolvedores da Aptor: Marcelo Petrucelli e Felipe Padula, ex-alunos do ICMC, e Janaina Pertile, aluna do curso de graduação em Imagem e Som da UFSCar. 

Segundo Renata, essa pesquisa possibilita o envolvimento dos jovens com os idosos, um aspecto fundamental não somente para o crescimento profissional dos estudantes, mas também por outros fatores: “Do ponto de vista acadêmico, os alunos formados em computação saem do curso falando apenas com a máquina. Agora, eles estão começando a ter contato com as pessoas e entender as necessidades do ser humano. Isso trará muitos benefícios e humanizará os cursos da área”. 

Empolgado com o projeto, Gabriel confirma o que diz a professora: “Quando você vê que está preenchendo uma lacuna e fazendo alguém se sentir melhor, isso faz diferença e se torna uma grande recompensa”, finaliza.

Texto: Henrique Fontes – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP

Créditos das fotos: imagem do grupo de pesquisadores - Reinaldo Mizutani/Assessoria de Comunicação ICMC/USP;
imagem de idoso manipulando tablete - Marcos Santos - USP Imagens

Mais informações
Site da FAPESP:
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Descubra quanto dinheiro é repassado pelo governo federal para sua cidade e como ele é investido

Um portal desenvolvido por pesquisadores da USP e da UFABC contribui para que os cidadãos avaliem a gestão dos recursos públicos nas cidades brasileiras e tenham acesso a informações relevantes antes de decidirem em quem votar nas próximas eleições

Em 2015, o governo federal repassou R$ 3,6 bilhões para a cidade de São Paulo

O que você faria se soubesse que a cidade onde mora recebeu R$ 3,6 bilhões do governo federal para manter os serviços públicos funcionando durante um ano? O montante pode impressionar à primeira vista, mas será, de fato, um valor significativo quando pensamos na cidade de São Paulo? Considerando-se que o município é o mais populoso do Brasil e dividindo esse montante pelo número de habitantes da cidade, é como se cada cidadão paulistano tivesse recebido apenas R$ 309,09 do Governo Federal durante 2015. 

Se morasse em Presidente Kennedy, município do Espírito Santo com apenas 11.221 habitantes, esse cidadão não poderia reclamar: teria recebido, no mesmo período, exatamente R$ 21.113,36, ou seja, 68 vezes o valor per capita (por pessoa) de São Paulo, devido ao repasse dos royalties do petróleo na região. Não é à toa que a cidade capixaba ocupa a primeira colocação no ranking dos municípios que mais receberam recursos per capita do governo federal em 2015, enquanto São Paulo amarga a posição 5.510, quase um lanterninha no hall dos 5.568 municípios do Brasil.

Todos esses dados estão disponíveis no portal Repasse, desenvolvido em parceira por pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e da Universidade Federal do ABC (UFABC). “A ideia veio quando imaginei minha mãe no posto de saúde. Ela chega e não tem médico, não tem medicamento, não tem agulha e pergunta: por quê?”, conta o pesquisador William Siqueira.

Gráfico mostra em que áreas foram aplicados os recursos que a prefeitura de São Paulo recebeu do governo federal em 2015

Foi durante um curso de especialização em tecnologias e sistemas de informação na UFABC que William resolveu se dedicar à criação de uma plataforma para ajudar o cidadão comum a encontrar respostas para os problemas que costuma enfrentar na hora de utilizar um serviço público: será que o Governo Federal repassou o dinheiro para a prefeitura? A prefeitura enviou ao posto de saúde? O posto gerenciou adequadamente o recurso? “Quando um cidadão tenta encontrar essas respostas e começa a pesquisar, cai em um monte de burocracia e informações picadas, que nunca lhe dão uma visão geral sobre onde está o problema”, completa William. Na UFABC, ele conheceu o professor Mário Gazziro, que se tornou o orientador de seu projeto. Para ajudar a enfrentar os diversos obstáculos que precisariam superar para colocar a proposta em prática, eles estabeleceram uma parceria com o professor José Fernando Rodrigues Júnior, do ICMC.

“A ideia do projeto se baseia no fato de que não basta ter dados. Eles precisam estar integrados, organizados e serem acessíveis de maneira interativa e amigável para a população”, revela José Fernando. O professor explica que, apesar da exigência de que os municípios apresentem seus dados de forma transparente – a Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527) entrou em vigor em março de 2012 –, não há um padrão na apresentação: “Algumas cidades ainda publicam os dados somente em formatos dificilmente legíveis por máquinas, como, por exemplo, papéis digitalizados (escaneados), um artifício para dificultar o processamento automático”.

"Não basta ter dados", diz o professor José Fernando, do ICMC

É por isso que iniciativas como a do Repasse podem contribuir para ajudar a conscientizar as prefeituras sobre a necessidade de se ter mais transparência e estimular a participação da população na fiscalização das contas públicas. Ao acessar a plataforma, é possível ver detalhadamente onde foram aplicados os recursos repassados pelo governo federal a cada município, mês a mês. Por meio de gráficos coloridos e dinâmicos, o cidadão consegue verificar quanto foi investido em cada área (saúde, educação, saneamento, cultura, etc.), subárea, programa e ação, além de identificar quem foi favorecido e quanto recebeu.

A ferramenta também possibilita fazer comparações. “É possível identificar discrepâncias e irregularidades ao se comparar municípios. Esse é o intuito do projeto: estimular o cidadão comum a saber o que está acontecendo na administração de sua cidade e a ficar atento a possíveis problemas na destinação dos recursos”, ressalta o professor Mário.

“A sociedade brasileira amadureceu e vive uma fase de busca de informações, de transparência, de respeito aos seus direitos. Agora não basta a divulgação de um resultado, ela quer ter certeza do conteúdo e tem o direito de questionar. Por isso, todo e qualquer trabalho desenvolvido por entidade pública, privada ou mesmo pessoa física é muito bem-vindo”, diz o ouvidor do Ministério Público do Estado de São Paulo, Roberto Fleury de Souza Bertagni. Ele revela que muitos cidadãos entram em contato com a Ouvidoria para fazer denúncias e pedir a atuação do Ministério depois de obter informações em plataformas, sites e outros meios de divulgação. 

Fleury cita o exemplo de uma prefeitura que recebeu um repasse do governo federal de R$ 5 milhões destinados à saúde. Quando o recurso é desviado para outros fins, cabe ao Ministério Público Federal investigar o caso, pois houve prejuízo ao patrimônio da União. Mas se o montante é investido de forma inadequada ou ineficiente, cabe ao Ministério Público do Estado averiguar a prestação do serviço.

Neste exemplo, é possível ver quantos recursos foram repassados pelo governo federal ao município de São Carlos em julho de 2016 e em que áreas foram aplicados
De onde vêm os dados – Atualmente, o portal Repasse trabalha com os dados disponibilizados no Portal da Transparência. São contabilizados somente os repasses realizados pelo governo federal aos municípios e não outras fontes de recursos obtidos pelas cidades, tal como o dinheiro arrecadado diretamente pelos municípios via Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Imposto sobre Serviços (ISS), Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) e outras taxas (água, luz, etc.). Também ficam de fora os repasses realizados pelos governos estaduais referentes ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e ao Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). 

“O próximo passo natural da ferramenta é estender a base para dados municipais de arrecadação e adicionar outras métricas, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), os resultados do Enem e dados provenientes do Datasus”, explica José Fernando. Ao acrescentar esses novos dados ao portal, será possível avaliar com mais precisão se os recursos financeiros aplicados estão trazendo resultados em áreas como educação, saúde e segurança, por exemplo. Também será necessário utilizar tecnologias mais robustas de processamento e apresentação de dados, como técnicas de inteligência artificial, aprendizado de máquina e mineração de dados.

Atualmente, existem várias ferramentas na web que possibilitam avaliar a gestão dos recursos públicos, entre elas estão o portal Meu Município e o Compara Brasil. Há, ainda, o recém-lançado Ranking de Eficiência dos Municípios – Folha (REM-F), o qual mostra que cerca de 70% dos municípios brasileiros dependem hoje, em mais de 80%, de verbas que vêm de fontes externas de sua arrecadação. Esse alto grau de dependência das prefeituras para com os recursos da União e dos Estados contribui para reforçar a relevância da população acompanhar como esses recursos são investidos localmente.

O professor Mário ressalta que é importante o cidadão avaliar as fontes de dados desses sites. Alguns deles utilizam a declaração final de renda, um documento que os municípios são obrigados a entregar para o Tesouro Nacional. “Essa não é uma fonte tão confiável quanto o Portal da Transparência, pois há casos de municípios que fraudam os dados antes de entregarem esses relatórios ou simplesmente atrasam a entrega em anos de eleição, ocultando a saúde financeira do município e impedindo que os eleitores e a mídia tenham acesso à informação”, pondera o professor.

Ranking dos municípios que mais receberam recursos do governo federal (per capita) em 2015,
com seus respectivos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH)


Movimento global – Para os pesquisadores que criaram o projeto Repasse, o principal diferencial da iniciativa é possibilitar que o cidadão explore livremente os dados. “O site permite a montagem de vários rankings e a realização de novos comparativos”, conta José Fernando. São funcionalidades que só existem porque o projeto foi construído com dados abertos e qualquer pessoa pode acessar sua Interface de Programação de Aplicações (API). “Isso facilita misturar uma fonte de dados com outra. Por exemplo, se o cidadão tem um hospital do lado da casa dele que não funciona bem, ele pode checar quanto é repassado para lá e comparar o valor com o que é recebido por outros hospitais da região. Dessa forma, qualquer pessoa pode construir sua própria aplicação”, exemplifica William.

O portal segue um movimento mundial que busca disponibilizar as informações de maneira que qualquer pessoa ou computador possa acessá-las, manipulá-las, reutilizá-las e redistribui-las, relacionando-as a outros dados disponíveis sobre o assunto. São os chamados dados abertos conectados, um conceito fundamental quando a meta é ampliar a transparência pública.

“A Inglaterra e os Estados Unidos estão liderando o movimento em prol da produção dos dados abertos conectados”, diz o professor Seiji Isotani, do ICMC. Ele lançou, junto com o professor Ig Bittencourt, do Instituto de Computação da Universidade Federal de Alagoas, o livro Dados Abertos Conectados. Entre os desafios que permeiam a área, os autores citam a falta de conhecimento técnico sobre como disponibilizar os dados de forma aberta e conectada e também a falta de conhecimento tecnológico sobre as ferramentas existentes para realizar essa tarefa de forma adequada. 

Livro explica como disponibilizar os dados de forma aberta e conectada

No Brasil, o grupo Transparência Hacker tem atuando em prol da disseminação dos dados abertos e se tornou um fórum de debates para que cidadãos, jornalistas e desenvolvedores encontrem soluções quando se deparam com informações públicas em formatos que dificultam a leitura por computadores. “Estamos caminhando para um mundo com dados abertos: eles serão algo tão imprescindível quanto qualquer outro serviço público”, destaca William. Ele cita uma conferência TED em que Tim Berners-Lee, o pai da web, afirma que os dados abertos são importantes para dar o próximo passo na evolução no mundo da Tecnologia da Informação, quando passaremos de um cenário em que as máquinas só leem os dados para um mundo em que elas começarão a entender as coisas, um mundo semântico.

Voltando à comparação entre São Paulo e Presidente Kennedy, vale lembrar que avaliar apenas os repasses per capita das duas cidades pode levar a conclusões precipitadas. Para uma adequada análise, é preciso considerar outras informações, entre elas o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), e examinar a complexa e diversa realidade dos dois municípios. A leitura dos dados é apenas um ponto de partida. Para chegar à compreensão, é preciso ir além. Esse desafio cabe a cada um de nós, cidadãos.


Gráfico compara os repasses per capita para os municípios de São Paulo e Presidente Kennedy,
mostrando também os respectivos IDH


Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Crédito da foto da cidade de São Paulo: Marcos Santos/USP Imagens

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quarta-feira, 11 de março de 2015

Plataforma online gratuita criada por ex-alunos do ICMC facilita gestão de eventos

Ferramenta está sendo aprimorada a cada nova versão e possibilita criar crachás e certificados personalizados, além de gerenciar inscrições e pagamentos

Ricardo Chino (estagiário) e André Marcatto (sócio):
trabalhando juntos para aprimorar a plataforma
Criar um site específico para um evento, gerenciar inscrições, receber pagamentos, elaborar crachás, controlar presenças e emitir certificados personalizados. Essas são algumas ferramentas disponibilizadas por uma plataforma online gratuita criada por ex-alunos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos.

“Nosso objetivo é reduzir o tempo que os organizadores de um evento gastam quando precisam lidar com as questões ligadas à tecnologia da informação, otimizando custos e recursos humanos”, explica um dos criadores da plataforma, André Marcatto. Segundo ele, a ideia de lançar a ferramenta surgiu a partir da identificação de um problema: Vitor Pereira, na época aluno do ICMC tal como Marcatto, deparou-se com uma série de dificuldades ao organizar um evento para a empresa em que atuava, a ICMC Júnior. Logo, vislumbrou uma oportunidade: criar uma solução integrada para atender às demandas dos eventos científicos. Nascia, assim, nos corredores do ICMC, a VP eventos

A jornada empreendedora de Marcatto e Pereira já completou três anos, tempo no qual várias versões da ferramenta foram lançadas. O foco dos sócios, agora, é adaptá-la para atender às necessidades de eventos corporativos e aprimorar a funcionalidade destinada ao gerenciamento financeiro. No caso específico de eventos em que são cobradas inscrições, a plataforma recolhe uma taxa de 10% sobre o valor de cada pagamento efetuado. Para efetuar esses pagamentos, os participantes podem optar pelo boleto bancário, por débito em conta corrente ou usar o cartão de crédito.



Fruto do ICMC – Para Marcatto, a VP Eventos não existiria se não fosse o ICMC: “Sempre que precisamos desenvolver algo para a nossa plataforma, procuramos mão-de-obra no Instituto”. Ele cita o exemplo do ex-aluno Igor de Lorenzi Andrade, que cursou Ciências de Computação no ICMC, e criou o aplicativo para gerenciar frequência nos eventos. O aplicativo possibilita que, na entrada do evento, os organizadores façam a leitura do QR Code existente no crachá dos participantes e registre automaticamente sua presença.

Também faz parte da equipe da VP Eventos o estudante Ricardo Chino, que cursa Ciências de Computação no Instituto. “No ICMC você tem muitos talentos. Eu diria que 90% dos alunos são muito acima da média na parte técnica porque estudam muito e gostam do que fazem”, completa Marcatto. 

Ele adiciona outro importante ingrediente quando discorre sobre os diferenciais dos alunos formados no ICMC: “Um dos pontos fundamentais é a cidade em si porque aqui você tem muitas empresas de tecnologia.” Segundo Marcatto, essas empresas possibilitam que os alunos encontrem facilmente um lugar para estagiar. “Tenho muitos amigos que não conheciam nada sobre aplicações móveis, conseguiram um estágio durante o próprio curso e, em seis meses, já estavam dominando o assunto”, conta.

Mas a vontade de empreender, no caso de Marcatto, nasceu muito antes que ele sonhasse em estudar no ICMC. Quando tinha apenas 10 anos, ele já pensava em desenvolver algo novo no mundo da internet. “Ter um negócio meu e ver as pessoas usando a ferramenta que criamos é o máximo”, finaliza.

Texto e foto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação ICMC/USP

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Site da plataforma: www.vpeventos.com
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Plataforma criada por aluno do ICMC e ex-alunos da UFSCar facilita contato entre prefeituras e cidadãos

Engenheiro de software responsável pela implementação da nova plataforma é aluno do curso do Sistemas de Informação do ICMC

Equipe do Cidadera busca construir pontes entre prefeituras e cidadãos
Falta de água, alagamentos, calçadas em mau estado, postes queimados, mato alto, buraco no asfalto, lixo e entulho jogados na rua: as reclamações postadas pelos cidadãos na internet parecem não ter fim. Preocupados com a questão, um grupo criou uma plataforma gratuita para que as prefeituras possam responder a mais de oitenta tipos de reclamações da população. Um aluno do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e ex-alunos da UFSCar são os responsáveis pela iniciativa. 

"O que buscamos com isso é facilitar o trabalho das prefeituras e entregar aos gestores uma visão estratégica para a tomada de decisões. Os gestores têm acesso aos detalhes da demanda incluindo relatos, fotos e a localização no mapa da cidade, adquirida pelo GPS do celular do reclamante", explica o aluno do ICMC José Victor Bueno, 28 anos, engenheiro de software responsável pela implementação da ferramenta.

A ideia surgiu em decorrência de outro projeto lançado pelo grupo em 2013, o Cidadera, que é composto por um site e um aplicativo para o mapeamento colaborativo de problemas urbanos. Atualmente, o Cidadera é uma startup (empresa nascente de tecnologia) e em sua base de dados há cerca de dez mil reclamações em aberto. "Inicialmente, criamos um serviço na internet para os cidadãos exporem suas reclamações publicamente, principalmente aquelas que não foram atendidas pelos canais oficiais", conta Victor Morandini Stabile, idealizador do Cidadera e diretor de tecnologia. "À medida que os meses passaram e o número de reclamações publicadas aumentou, prefeituras começaram a entrar em contato. Percebemos que muitas delas gostariam de atender melhor seus cidadãos na internet, mas não sabiam como", acrescenta.

A demanda levou a equipe a construir uma ferramenta voltada especificamente para os órgãos municipais. "Agora, atendemos os dois lados: de um deles está o cidadão, que tem suas reclamações ouvidas e, do outro, colaboramos com o gestor municipal, centralizando e organizando as demandas", comenta Bueno.

Para utilizar o canal e responder às reclamações dos cidadãos, as prefeituras devem acessar o site do serviço (http://cidadera.com/prefeituras) e fazer o cadastro, que é gratuito. Já os cidadãos que querem expor suas insatisfações podem usar tanto o site Cidadera (http://cidadera.com) quanto o aplicativo, disponível para download também gratuitamente.

Diferencial na formação - Na opinião de Bueno, a formação teórica sólida oferecida pelo curso de Sistemas de Informação do ICMC foi fundamental para o desenvolvimento da plataforma. “Os alunos que se formam na USP têm um diferencial: desenvolvem a capacidade de aprender sozinhos, tornando-se autodidatas. Por isso, somos capazes de aprender rapidamente a utilizar as ferramentas empregadas no mercado, as quais se alteram constantemente”, afirma.

O aluno do ICMC ingressou no projeto Cidadera no segundo semestre de 2014, quando fez o segundo estágio obrigatório previsto na grade curricular do curso. Foi nesse tempo que passou a desenvolver a plataforma voltada às prefeituras. Durante o primeiro estágio obrigatório, no primeiro semestre de 2014, Bueno desenvolveu um site de conteúdo para web na Sanca Ventures, uma aceleradora de startups de São Carlos. Foi lá que conheceu a equipe do Cidadera.

“Costumo dizer que a computação é a pedra lascada moderna porque é uma ferramenta que está presente em tudo no mundo. Por isso, há um campo de trabalho muito amplo para ser explorado. Em São Carlos, particularmente, há muitas empresas para estagiar”, conclui o aluno.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Salvos pela ciência: computação pode evitar catástrofes em grandes eventos e complexos industriais

Grupo de pesquisadores brasileiros, alemães, austríacos e espanhóis está desenvolvendo uma solução inovadora empregando dispositivos móveis, técnicas de aprendizado de máquina e processamento de imagens para auxiliar centrais de controle em empresas e eventos

Comitê de Fomento Industrial de Camaçari é um dos parceiros do projeto

O que há em comum entre um estádio de futebol lotado com mais de 60 mil pessoas e um polo industrial com empresas químicas e petroquímicas? Para um consórcio com mais de 40 pesquisadores brasileiros, alemães, austríacos e espanhóis, esses dois universos, aparentemente tão díspares, unem-se quando o assunto é risco: caso ocorra um desastre em um desses lugares, os danos são de proporções equivalentes.

Criar um sistema que possibilite uma ação rápida e eficiente no gerenciamento de crises em grandes eventos esportivos ou polos industriais – evitando mortes, danos materiais e ao meio ambiente – é o desafio científico e tecnológico que move esses pesquisadores. Eles estão desenvolvendo uma plataforma computacional inteligente chamada RESCUER, capaz de aliar informações provenientes da multidão via dispositivos móveis, como tablets e smartphones, com dados obtidos da defesa civil e bombeiros, a fim de construir um mapa da situação e possibilitar a tomada de decisões. A pesquisa também inclui a elaboração de estratégias para instruir a população que está em risco e direcionar corretamente as forças de resgate e combate.


“Em cada etapa do desenvolvimento dessa plataforma, há desafios diferentes”, explica a coordenadora do projeto na Europa, Karina Villela, do Instituto Fraunhofer de Engenharia de Software Experimental (IESE), da Alemanha. Segundo ela, as informações provenientes da multidão (crowdsourcing) podem ser captadas, em tempo real, por meio dos sensores disponíveis nos smartphones ou por meio de um aplicativo, que está sendo desenvolvido especialmente para ser usado em situações de emergência. 

Na época em que aconteceu a Copa do Mundo de Futebol no Brasil, o protótipo do aplicativo foi testado com estudantes do campus da USP em São Carlos, com participantes do FIFA Fan Fest em Salvador e com torcedores que assistiam a um jogo da Alemanha no estádio Fritz-Walter, em Kaiserslautern. “O resultado da avaliação desse protótipo é valioso para que possamos aprimorar o aplicativo”, conta a professora Elisa Yumi Nakagawa, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, uma das nove instituições parceiras do projeto.

Nessa fase inicial de desenvolvimento, o aplicativo possibilita ao usuário selecionar uma das quatro opções disponíveis (fogo, explosão, pânico de massa ou outro) e alertar a respeito. Automaticamente, um mapa é exibido indicando a localização. Nesse mesmo mapa, o usuário pode usar uma seta para especificar o local exato onde está acontecendo a emergência. Depois, é hora de informar a gravidade da situação clicando em ícones. Por exemplo, no caso de um incêndio, pode ser escolhido um extintor (para uma situação menos grave), uma mangueira (situação um pouco mais grave) ou um carro de bombeiros (situação grave). A seguir, solicita-se ao usuário que informe se há pessoas feridas e descreva o fogo (informando a cor e a direção da fumaça). Por último, há a opção de enviar uma foto ou vídeo. 

Exemplo de uma das telas do aplicativo

Uma multidão de informações – Mas o que acontecerá se 60 mil pessoas usarem esse aplicativo ao mesmo tempo? “Não é possível que um ser humano consiga analisar todas as informações enviadas pela multidão, olhando cada imagem e vídeo. Nosso papel é fazer isso de forma semiautomática, para que possamos extrair o que é mais relevante dessa imensidão de dados”, explica o professor José Rodrigues Junior, do ICMC. 

Para isso, o grupo de pesquisadores do Instituto que participa do projeto RESCUER está mesclando conhecimentos de diferentes áreas da Ciência da Computação: processamento de imagens, aprendizado de máquina e banco de dados. “Um dos problemas que enfrentaremos é a variação da qualidade do material enviado. Na multidão, teremos pessoas correndo, sendo empurradas, em lugares muito escuros ou muito claros, e até mesmo com o celular de cabeça para baixo enquanto filma”, conta o professor.

“A tecnologia disponível para a análise de imagens estáticas já existe, mas quando se fala em vídeos, o desafio é maior”, acrescenta Karina Villela. Segundo Rodrigues Junior, outro obstáculo a ser enfrentado é o tempo de resposta, pois é preciso avaliar uma grande quantidade de dados o mais rápido possível. “Ainda não existe uma tecnologia de aprendizado de máquina suficientemente capaz de avaliar as informações com 100% de precisão. A melhor máquina para fazer isso ainda é o ser humano. No entanto, o computador é capaz de selecionar as melhores informações a serem apresentadas e também de aprender com o ser humano, nesse caso, com os especialistas da central de comando”, diz Rodrigues Junior. 

Por isso, entre as soluções de análise de dados propostas pela equipe está a atuação da central de comando, que receberá as informações extraídas da multidão: “Na central de comando, é um ser humano que irá olhar as informações encaminhadas pelo computador e decidir o que fazer com elas”. Assim, se a central começar a receber informações repetidas ou vídeos e imagens com qualidade muito baixa, basta registrar isso para que o sistema de análise automática dos dados seja aprimorado. “É assim que o computador aprende com o ser humano”, ensina Rodrigues Junior.

O kit de ferramentas que o RESCUER pretende fornecer à central de comando engloba ainda uma tela com um mapa apresentando de forma simples e em tempo real a situação de emergência. Estudos na área de visualização de informações estão sendo realizados para verificar qual a melhor maneira de mostrar as ocorrências nessa tela. 

Aplicativo já passou por testes

Da computação à psicologia – A complexidade do RESCUER está também na vastidão de áreas de conhecimento que devem ser abarcadas para que a plataforma alcance o sucesso almejado. Em um workshop realizado em Linz, na Áustria, com as forças de resgate e combate do polo que reúne as indústrias químicas da cidade, os pesquisadores tentaram compreender melhor como é a reação das vítimas no momento de uma emergência. 

“Como as pessoas vão interagir com seus dispositivos móveis em um contexto de estresse? Estamos estudando o comportamento humano para entender quanto a capacidade cognitiva das pessoas pode ser afetada e aprimorar o aplicativo”, conta Villela. A ideia é criar algo que possibilite, primeiramente, uma comunicação bastante rápida: “Estou em perigo!”. Depois, quando a pessoa estiver com um nível de estresse menor, poderá enviar uma foto e dar mais detalhes sobre o que está acontecendo.

Sintonia – Além de atuar em prol desse fluxo de informações que nasce da multidão e é direcionado para o centro de comando, o projeto também vai reger as interações que serão estabelecidas entre esse centro e seus vários públicos. Como em uma grande orquestra, o desempenho dos músicos depende de uma boa regência. O maestro aqui é o centro de comando que envia instruções precisas para os grupos de pessoas que estão em risco.

Também é fundamental comandar adequadamente as forças de resgate e combate: como fazer para que cada instituição mantenha sua independência e trabalhe de forma conjunta? Um dos caminhos apontados pelo RESCUER é fornecer a todos os envolvidos no resgate e combate uma visualização conjunta dos planos de ação propostos. Assim, cada um tem a liberdade de desenvolver seu plano, mas, ao visualizar a atuação do outro, poderá repensar sua estratégia.

Villela explica que, quando acontece um acidente em um polo industrial, há uma série de documentos a serem preenchidos pela empresa e enviados para comunicar oficialmente a ocorrência aos órgãos internos e externos (demais empresas, autoridades públicas e imprensa, por exemplo). Abre-se aqui outra frente de trabalho no RESCUER: a intenção é automatizar essa comunicação que a empresa precisa fazer, de forma individualizada, com esses diferentes públicos, empregando técnicas e recursos da área de gerência de variação.

Diante de tantos desafios multidisciplinares, a previsão é de que o projeto seja finalizado no primeiro semestre de 2016. Financiada pela União Europeia e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a iniciativa conta com mais sete instituições parceiras além do IESE e do ICMC: a Universidade Federal da Bahia (coordenadora do projeto do lado brasileiro); a Universidade Politécnica de Madri; o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari; as empresas MTM Tecnologia, Vomatec e FireServ; e o Centro de Pesquisa Alemão em Inteligência Artificial (DFKI).

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Infográfico: Thiago Zanetti e Yasmim Reis - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Fotos: Divulgação

Mais informações
Site do projeto: www.rescuer-project.org
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