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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Exposição destaca os artigos científicos mais citados com autoria de pesquisadores do ICMC

Indicadores da Web of Science foram utilizados como critério para destacar o impacto internacional da produção científica do Instituto


Na terceira edição da exposição, oito artigos estão em destaque

Está de volta ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, a exposição Highly Cited and Hot Papers: a produção científica do ICMC na Web of Science. Exposta na vitrine da Biblioteca Achille Bassi, no andar térreo, a mostra fica em cartaz até 18 de março. 

Em sua terceira edição, a exposição apresenta os artigos de autoria de pesquisadores que, atualmente, possuem vínculo ativo com o ICMC. A categoria hot papers lista os artigos que foram publicados nos últimos dois anos e que receberam citações suficientes para colocá-los como 0,1% dos principais artigos de seu campo acadêmico. Já a categoria highly cited papers abrange os artigos publicados nos últimos 10 anos e que receberam citações suficientes para colocá-los como 1% dos principais artigos em seu campo acadêmico, com base no limite dos mais citados em cada ano e área. 

Para fazer a seleção dos artigos, foi utilizado o Essential Science Indicators, uma ferramenta que analisa indicadores científicos a partir da base de dados internacional Web of Science. O objetivo da seleção é mostrar que os pesquisadores do ICMC produzem trabalhos que são referência nacional e internacional nos campos de pesquisa em que atuam. A exposição tem o apoio da Comissão de Biblioteca do ICMC e foi inspirada em uma iniciativa semelhante do Instituto de Física de São Carlos. 

Abaixo, é possível acessar a versão online dos artigos selecionados para a terceira edição da exposição: 

Mais informações 
Biblioteca Achille Bassi: (16) 3373.9634 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Reunir dados de 1,6 milhão de pacientes de hospitais públicos paulistas desafia pesquisadores

Projeto reúne 25 cientistas brasileiros e estrangeiros das áreas de medicina e computação, que estão analisando informações de 24 hospitais

Rangaraj Rangayyan (à esquerda), Agma Traina e Marco Gutierrez, três dos 25 pesquisadores do projeto Foto: Denise Casatti

Criar uma ferramenta capaz de melhorar a precisão dos diagnósticos médicos. Esse é o principal objetivo de um projeto realizado por 25 pesquisadores brasileiros e estrangeiros que pretende, por meio de técnicas de big data e análise de informações, desenvolver um banco de dados que seja capaz de auxiliar nos diagnósticos médicos.

Conhecida como medicina de precisão, essa área de pesquisa tem a finalidade de aumentar as chances de sucesso no tratamento de doenças. Para entender melhor como o projeto funciona, é preciso, primeiramente, entender quais informações esse banco de dados irá receber. Por isso, Agma Traina, coordenadora da pesquisa e professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, explica: “Existem os dados básicos do paciente, como informações de identificação, exames solicitados, hipóteses diagnósticas e tratamentos efetuados. Também há os mais complexos, que são os exames de imagem como tomografias computadorizadas, ressonância magnética e ultrassom.”

Segundo a professora, a ideia é criar uma ferramenta que integre todos esses dados a fim de gerar um conjunto de padrões para ajudar a identificar uma determinada doença. Assim, essas informações poderão apoiar a tomada de decisão pelo especialista médico no momento em que precisará, por exemplo, escolher qual tratamento é mais eficaz.

A professora exemplifica, ainda, como será esse processo de “casamento” de dados na prática: “Imagine que um radiologista acaba de receber um exame de raio X para avaliar. Nessa imagem, ele percebe que a anomalia aparente já foi vista anteriormente em outros exames, mas ele não se lembra qual a causa nem o tratamento dessa anomalia. Então, coloca a imagem da radiografia nesse banco de dados e o sistema faz uma busca pelas informações básicas, mostrando quais pacientes apresentaram a mesma doença. A seguir, mostra as imagens dos exames desses outros pacientes a fim de encontrar padrões que possam ser úteis no diagnóstico, que será realizado pelo especialista médico”.

Nesse processo de construção de diagnóstico, o banco de dados não será determinante para a tomada de decisão, mas servirá para o médico comparar as informações do sistema com as que ele tem em mãos. Isso faz com que esse profissional trabalhe com mais confiança, trazendo benefícios também para o paciente, já que o diagnóstico passa a ser mais preciso e rápido.

Desafios - O projeto ainda é recente, começou a ser desenvolvido no final do ano passado e, por isso, os pesquisadores ainda não definiram quais são as doenças que o banco de dados vai abranger. Por enquanto, estão sendo utilizados os dados de algumas doenças importantes existentes nos sistemas de informação dos hospitais participantes, mas já existem algumas pesquisas sendo desenvolvidas relacionadas a doenças pulmonares, como câncer, doenças reumatológicas do sistema músculo-esquelético e doenças cardiológicas.

Agma ainda explica que esse projeto pretende revolucionar o conceito de junta médica, que são constituídas por especialistas de várias áreas para discutir um determinado problema com base no conhecimento e experiência de cada profissional. A ideia do banco de dados é organizar esses conhecimentos numa base computacional que seja usada como suporte para a tomada das decisões médicas.

A equipe de pesquisadores utiliza informações de 1,6 milhão de pacientes cadastrados em 24 hospitais públicos do Estado de São Paulo. Diante desse grande volume, a professora Agma esclarece que um dos principais desafios do projeto é unificar os dados, já que são provenientes de diversos lugares e têm formatos diferentes.

“É difícil, por exemplo, transformar as cores, a textura e a forma das imagens dos exames em algoritmos. Por isso, nosso maior desafio é unir e identificar, nesse sistema, todos esses fatores que influenciam no diagnóstico”, explica o professor Paulo Azevedo Marques, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da USP, que é um dos pesquisadores principais do projeto. Ele complementa explicando que, para fazer o computador compreender o que aparece nas imagens, é preciso ensiná-lo a identificar cada um desses fatores até que se torne capaz de, automaticamente, reconhecer as características que determinam a presença de uma anomalia, tal como os médicos aprendem a fazer na prática.

Paulo diz também que existe a dificuldade em sintetizar as informações: “A grande massa de dados é um obstáculo para que o sistema possa fazer uma seleção de critérios. Ou seja, precisamos de uma técnica que consiga ponderar qual critério é mais importante para um determinado caso e, ao mesmo tempo, capturar para o médico apenas as informações mais relevantes, que poderão ser úteis e aplicáveis naquela situação”. Além de facilitar o diagnóstico médico, também será possível que o tempo de consulta seja reduzido e a ideia é que esse sistema possa apresentar todos os resultados relevantes em questões de segundos.


Principais etapas para criar um banco de dados de pesquisa a partir dos bancos de dados clínicos dos hospitais públicos


Para Paulo, aproximar a medicina e a computação é fundamental para que existam tecnologias sofisticadas que possam auxiliar na rotina dos profissionais da saúde, sobretudo os que trabalham com medicina de precisão: “Os profissionais da computação conhecem nada ou muito pouco sobre as necessidades do âmbito médico porque eles se formam, geralmente em centros de ciências exatas e ficam muito afastados do ambiente de atenção à saúde. Nesse sentido, a proposta do projeto é aproximar essas diferentes áreas de conhecimento, propiciando um ambiente otimizado para o desenvolvimento de tecnologias adequadas às demandas médicas”.

De acordo com Agma, é possível que já exista um protótipo do sistema daqui a dois anos e ela também explica como deve ser a implementação nos hospitais: “A instalação deve ser feita de forma gradual. Trabalho há 20 anos nessa área e percebo que as pessoas sentem receio de utilizar novas tecnologias. Sinto na pele como ainda é difícil conscientizar as pessoas para essas mudanças”.

Um grande projeto - A iniciativa dos 25 pesquisadores é apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e constitui o projeto temático Mining, Indexing and Visualizing Big Data in Clinical Decision Support Systems - (MIVisBD). Apesar de recente (a pesquisa teve início em setembro de 2017) já existem alguns resultados que foram publicados em diferentes revistas científicas. Um deles está disponível na revista ScienceDirect e outro na SpringerNature. Ambos os estudos são referentes a processamento de imagens em banco de dados a fim de reconhecer padrões de determinadas doenças. Além disso, o projeto já recebeu três premiações do Simpósio Brasileiro de Bancos de Dados (SBBD), o maior evento da América Latina de apresentação e discussão de resultados de pesquisas relacionadas ao campo de bancos de dados.

A pesquisa é realizada pelo ICMC, pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FMUSP) da USP e pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), além da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e da Universidade Federal do ABC e ainda conta a parceria de oito instituições internacionais.

Texto: Talissa Fávero - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP


Mais informações:
Assessoria de Comunicação do ICMC-USP
Tel. (16) 3373-9666 / comunica@icmc.usp.br

quinta-feira, 12 de julho de 2018

ICMC abre inscrições para workshop sobre controle do Aedes aegypti

Inscrições podem ser realizadas, gratuitamente, até o dia 3 de agosto


De acordo com o Ministério da Saúde, de janeiro até o início de junho deste ano, mais de 73 mil pessoas foram diagnosticadas com dengue, doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Isso significa que, a cada 100 mil habitantes, 77,6 pessoas possuem a doença. Além das estatísticas assustadoras, o mosquito ainda é culpado por transmitir a zika, o chikungunya e a febre amarela. Por isso, o Aedes tornou-se evidência tanto nos meios de comunicação como nas pesquisas de diversas áreas científicas, incluindo a computação. 

E para discutir sobre o controle desse mosquito, pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação (ICMC) e da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da USP em São Carlos, promoverão Workshop sobre biologia e controle do Aedes aegypti: pesquisa e prática. O evento será realizado no dia 10 de agosto, das 8 às 18 horas, no auditório Luiz Antonio Favaro, no ICMC.

O workshop é destinado para todas as pessoas e instituições que têm interesse no tema. Os interessados devem fazer as inscrições, gratuitamente, até o dia 3 de agosto, por meio do seguinte link: www.icmc.usp.br/e/7d555.

Segundo Juliano Corbi, um dos organizadores do evento e professor da EESC, o principal objetivo é unir conhecimentos de diversas áreas numa forma de tentar entender as demandas do público que trabalha diretamente no combate ao mosquito e, ao mesmo tempo, validar as pesquisas acadêmicas relacionadas a esse assunto.

“Tem muitos pesquisadores na universidade trabalhando e pesquisando sobre o Aedes e, ao mesmo tempo, muita gente em campo fazendo o controle desse mosquito, como é o caso da Vigilância Epidemiológica, por exemplo. Apesar disso, nós sentimos que a teoria e a prática não estão ‘conversando’. Dessa maneira, nosso objetivo é criar um evento que seja possível dialogar com esses grupos a fim de unir conhecimentos”, afirma o professor Gustavo Batista, docente do ICMC e também um dos organizadores do evento. Além disso, ele explica que é muito importante ter pesquisas relacionadas ao controle do mosquito, para que se entenda como suprimir a população deles e até como agir antes de uma epidemia a fim de evitar surtos como o da Zika, em 2015.

O destaque da programação do evento é a palestra sobre a armadilha inteligente que é capaz de identificar quantos e quais mosquitos estão em determinada área por meio do reconhecimento automático das espécies, sobretudo os mosquitos do gênero Aedes. Outro destaque é a palestra da Margareth Capurro, em que ela contará sua experiência com a Oxitec, empresa que desenvolve mosquitos geneticamente modificados, conhecidos como “Aedes do Bem”.


Texto: Talissa Fávero - Assessoria do ICMC/USP


Mais informações: 

Site do evento: www.icmc.usp.br/e/7d555

Seção de eventos do ICMC: (16) 3373.9622

segunda-feira, 19 de março de 2018

Festival de divulgação científica ganha o país e deve atrair 50 mil pessoas

Edição de 2018 do Pint of Science será realizada em 56 cidades brasileiras

Em 2017, evento foi realizado em 22 cidades; na imagem, público lota bar em Goiânia

Cientistas de 56 cidades brasileiras se preparam para participar de um dos maiores eventos dedicados à divulgação da ciência no mundo: o Pint of Science. Nos dias 14, 15 e 16 de maio, eles vão se unir a pesquisadores de outros 20 países e deixarão as bancadas dos laboratórios para ocupar mesas de bares e conversar sobre suas pesquisas com a população. Apenas no Brasil, a expectativa é de que 50 mil pessoas de todas as regiões compareçam aos bate-papos.

O objetivo é criar um canal de comunicação direto entre os cientistas e a sociedade, explica Natalia Pasternak Taschner, coordenadora do festival no país: “As pessoas querem saber, têm sede de ciência, e os cientistas querem falar”. Durante o festival, os pesquisadores conversam com o público de forma descontraída, respondem perguntas e não há formalidades como inscrição ou emissão de certificados. Também não é preciso pagar entrada, apenas o que for consumido nos estabelecimentos que sediam o evento.

Esclarecer como a ciência funciona e mostrar a beleza existente em sua capacidade de investigar e explicar o mundo estão também entre as metas dos organizadores. “É um desafio ensinar conceitos em uma conversa no bar, mas, se conseguirmos encantar as pessoas, despertar sua curiosidade, elas buscarão o conhecimento. É esse encantamento que procuramos despertar no Pint of Science”, afirma a coordenadora.

Fórmula de sucesso - Realizado pela primeira vez no Brasil em 2015, quando foi trazido da Inglaterra pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, o Pint of Science cresce a cada ano. Os 22 municípios da edição passada saltaram para mais de 50 e, com a entrada de cidades da região Norte, pela primeira vez o evento abrangerá todas as áreas do país.

“Para os municípios da região Norte, é interessante participar do Pint of Science porque podemos aumentar o intercâmbio e o fluxo de ideias, de troca de informações. Isso é fundamental para diminuir o preconceito com o trabalho de pesquisa que é realizado nessa parte do país e para ampliar a visibilidade dos nossos projetos”, afirma Adolfo Mota, professor da Universidade Federal do Amazonas que coordena o festival na região.

Além da coordenação nacional e regional, em cada um dos 56 municípios que participarão do festival há um coordenador local responsável pelo evento. A relação das cidades participantes já está disponível no site pintofscience.com.br e a programação em cada localidade poderá ser conferida a partir da segunda quinzena de abril.

Em Ribeirão Preto, festival acontece desde 2016

Confira mais imagens do evento no Flickr: icmc.usp.br/e/1bf73

Texto: Stefhanie Piovezan

Contato para a imprensa
Assessoria de comunicação nacional do Pint of Science
Telefone: (16) 3373-9666 (ICMC/USP)
E-mail: pintcomunica@gmail.com

Jornalistas responsáveis: 
- Denise Casatti ((11) 9-9125-9459)
- Stefhanie Piovezan - (11) 9-5206-2638

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Um mergulho no universo singular dos matemáticos

Para eles, catástrofe é um campo de estudo que pode ser incluído dentro da chamada Teoria de Singularidades. Há tantas definições possíveis para essa teoria tal como as múltiplas dimensões da realidade que habitam a mente dos pesquisadores dessa área. Suas aplicações se estendem à física, à computação, à economia, à biologia, à psicologia, à linguística e até a arte

Ton Marar chegou ao ICMC aos 17 anos, em 1976, para cursar Bacharelado em Matemática

Na sala escura, a luz ilumina a mesa do matemático Ton Marar. Estamos no fim da tarde de uma quarta-feira, início de agosto, no primeiro andar do bloco 3 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Chegamos a um ponto crítico na calmaria morna daquela cena: Ton tenta explicar o que estuda um matemático como ele. Nesse momento, recorda-se de um artigo que escreveu e a lembrança altera de forma drástica o rumo futuro da conversa. Um tornado invade a sala: “Como todos os fenômenos que se manifestam de maneira abrupta, os tornados também podem ser descritos matematicamente”.

A frase emerge do artigo que Ton escreveu para o livro Numa dada situação, lançado durante a 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, em conjunto com a obra Tornado, do artista belga Francis Alÿs. Para produzir o vídeo, Alÿs literalmente perseguiu tornados, durante dez anos, fotografando e filmando o fenômeno meteorológico pelo México.

Para explicar matematicamente esse fenômeno, Ton recorre a outro Thom, mais precisamente René Thom, matemático francês que ganhou a famosa Medalha Fields, o Nobel da matemática, em 1958. Os modelos concebidos por Thom por volta de 1965 deram origem à chamada Teoria da Catástrofe. Para simplificar, pense em processos do tipo causa-feito como, por exemplo, os ventos que se formam pelo encontro entre massas de ar quente e úmido com massas de ar frio e seco. É comum pensarmos que variações suaves nessas causas também provoquem variações suaves em seus efeitos, certo? “Pois não é bem assim que um tornado nasce”, explica Ton. 

Se mudarmos continuamente a intensidade das massas de ar, haverá um momento em que os valores atingirão um ponto crítico (ponto de bifurcação) e acontecerá uma transição abrupta no efeito: o vento se tornará um tornado. “Nesse momento ocorre um fenômeno espetacular”, escreve Ton. É quando um vórtice colorido surge, fruto do material que é arrebatado do solo, envolvido por uma nuvem de poeira (veja o desenho).



Mas você não precisa estar dentro de um tornado, como Francis Alÿs, para vivenciar a Teoria da Catástrofe. Ela acontece frequentemente, senão todos os dias, no fogão da sua casa, quando você coloca um pouco de água para ferver. No início do processo, na temperatura ambiente, as moléculas que constituem a água estão ligadas por forças de natureza elétrica. Conforme a temperatura aumenta, essas moléculas passam a se movimentar mais rapidamente e essas ligações tornam-se cada vez mais instáveis. Aqui também existe um ponto crítico: o momento em que a temperatura está tão alta e o movimento tão intenso que as moléculas se desconectam e a água passa do estado líquido ao gasoso. 

Esse momento singular que acontece no fogão está longe de ser um desastre. É por isso que, para os matemáticos, a Teoria da Catástrofe, apesar do nome, não tem necessariamente a ver com a análise dos fenômenos desastrosos do nosso mundo, mas com o estudo dessas transformações abruptas que estão mais presentes em nosso dia a dia do que podemos imaginar. 

Antes que o navio afunde – De fato, a máquina de catástrofe que mora no Laboratório de Singularidades do ICMC é totalmente inofensiva: um objeto com o formato de uma parábola, feito de isopor, com alguns pequenos ímãs, incapaz de provocar qualquer fenômeno que se pareça com um tornado. Quando esses ímãs são fixados na superfície desse objeto, seu centro de massa é alterado e a parábola oscila. Se o ímã é colocado em alguns pontos-chave da máquina, ela se torna totalmente instável e tomba. Por isso, ela é chamada de máquina de catástrofe gravitacional.

Esse brinquedo singular chegou ao Instituto pelas mãos da professora Isabel Labouriau, do Centro de Matemática da Universidade do Porto, de Portugal, em julho, quando ela ministrou um minicurso introdutório sobre Teoria de Singularidades durante o maior e mais reconhecido congresso científico da área: o International Workshop on Real and Complex Singularities. Promovido pelo ICMC a cada dois anos, o evento chegou a sua 14ª edição em 2016, reunindo especialistas de todo o mundo. Entre os divertidos títulos que a professora escolheu para listar os tópicos a serem tratados no minicurso estavam “como amassar uma caixa”, “como ficar nervoso muito rápido” e “como afundar um navio”. “O que é importante em um navio para ele não afundar? A posição do centro de massa. Quer dizer que isso depende da carga que tem no navio. Se você coloca uma carga muito desequilibrada, ele pode virar. Esse virar é a singularidade, é a tal mudança súbita”, explica Isabel. 

Os exemplos que Isabel dá estão relacionados a fenômenos que se alteram ao longo do tempo, que pertencem ao campo dos sistemas dinâmicos, uma área que vai ao encontro do jeito de ser de Isabel: extrovertida, falante, sempre gesticulando com os longos cabelos grisalhos encaracolados voando. Até a frase que ela usa para definir o que é uma singularidade tem movimento: “a gota d’água que entorna o balde”. 
Durante o minicurso, Isabel mostrou o momento em que o navio vira

A agitação de Isabel contrasta com a tranquilidade de David Mond, da Universidade de Warwick, da Inglaterra. Para explicar o que é singularidade, ele recorre à folha de papel e desenha. É um geômetra em ação: constrói três retas que se cruzam em um ponto. “Isso é algo instável”, diz. De volta ao papel, faz as mesmas três retas se cruzarem, mas de outro jeito: no meio, há um espaço entre elas, uma espécie de triângulo irregular, o que faz o cruzamento acontecer em três diferentes pontos. “Isso é estável”, diz. “Uma coisa me interessa muito: descrever como essa coisa instável se torna estável”, acrescenta. 

É difícil encontrar uma palavra melhor para descrever Mond do que estabilidade: quando uma nova pergunta é lançada pelo interlocutor, ele faz uma pausa para pensar na resposta mais exata, parece estar calculando cada palavra que usará. “A Teoria de Singularidades está interessada nas formas como os fenômenos instáveis mudam e em descrever todas as diferentes possibilidades deles se alterarem”, explica. Ele continua, mergulhando no mundo das formas geométricas: “Em matemática, uma coisa acontece frequentemente: alguns objetos que os matemáticos definem têm certos comportamentos complicados. Eles trabalham para entender isso e inventam uma linguagem para descrever essas estruturas. Quando você estuda essas complexas, ricas e complicadas estruturas, você descobre e prova coisas impressionantes, que podem ser aplicadas a outras áreas do conhecimento”.

David Mond orientou o professor Ton Marar, do ICMC, no doutorado

Aplicar os conhecimentos provenientes da Teoria de Singularidades na área médica é um dos desafios que mobilizam o professor James Damon, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. O matemático participa de um grupo multidisciplinar formado por médicos, estatísticos e cientistas da computação que pesquisa imagens médicas relacionadas ao câncer de próstrata. “Quando são captadas imagens do seu corpo em 3D, uma das coisas a fazer é identificar precisamente os órgãos e os ossos dentro do seu corpo. Mas essa ainda é uma tarefa muito difícil. Um dos objetivos dos matemáticos é construir modelos de partes do corpo para que possamos identificar precisamente essas estruturas”, conta Damon.

Ele explica que há variações nos modelos e que o desafio dos matemáticos é entender essas variações para poder incorporá-las e encontrar quais modelos melhor se encaixam com a geometria do nosso corpo. “A Teoria de Singularidades é muito útil nessa identificação dos formatos dos objetos e de suas variações”, conta Damon. 

A análise de imagens médicas não é o único campo da medicina no qual a Teoria de Singularidades tem muito a contribuir. “Ainda estamos começando a entender como o cérebro humano funciona. Mas os conhecimentos de Singularidades combinados com as equações diferenciais possibilitam capturar o comportamento desse sistema”, revela o matemático norte-americano. Ele explica que estudar o cérebro como um todo e analisar seu comportamento é muito mais complexo e desafiador do que pesquisar o funcionamento isolado de suas partes. 

Damon (à esquerda) e Sotomayor diante da escultura "A coisa", uma superfície singular

Sob diferentes perspectivas – Há poucos metros de onde encontramos o matemático Ton Marar, também no primeiro andar do bloco 3 do ICMC, está a sala da primeira mulher a chefiar o Departamento de Matemática do Instituto: Maria Aparecida Ruas, ou simplesmente Cidinha, como é carinhosamente conhecida por aqui. Ela é dessas pessoas com quem poderíamos ter uma conversa infinita, se isso fosse possível no plano real. Sua paixão pela matemática transparece na fala delicada, calma e pausada, com a qual é capaz de ensinar, de forma descomplicada, conceitos abstratos e complexos: “Quando você olha para um fenômeno, espera-se que, para ele ser tratado do ponto de vista matemático, você associe a ele equações. Mas sempre que olhamos para uma equação, podemos representar suas soluções no espaço. Então, em vez de olhar apenas para as equações, você também pode olhar para desenhos, para a geometria dos fenômenos”.

Desde que René Descartes criou o sistema de coordenadas, no século XVII, os matemáticos estão acostumados a pensar na posição de um ponto (objeto) considerando-se o espaço de duas dimensões (plano). Para localizar esse ponto ou objeto no plano cartesiano, eles se utilizam dos famosos eixos coordenados x e y, dispostos perpendicularmente um ao outro, de forma que a graduação dos eixos se relacionem entre si, indicando o exato lugar do objeto procurado (veja a figura). 


Cidinha explica que conseguimos representar um fenômeno no espaço usando duas coordenadas (x e y) se esse fenômeno possuir apenas duas dimensões: largura e altura, por exemplo. Mas se pensarmos em fenômenos com mais do que duas coordenadas (pense em um objeto tridimensional, que tem largura, altura e profundidade), vamos precisar de um espaço de dimensão maior para representá-lo. Por isso, a matemática não se restringe ao mundo tridimensional. “Dependendo do sistema que você analisa, as soluções do seu problema podem estar representadas em uma superfície, em uma curva ou em um objeto maior dentro de um espaço de dimensão maior. Para entender qualitativamente essas soluções, é importante, muitas vezes, entender a geometria dessa representação”, conta Cidinha.

É interessante observar que, até no universo dos matemáticos, há diversas perspectivas sobre as quais podemos analisar um fenômeno: olhando para suas equações, para sua geometria, para as alterações que sofre ao longo do tempo (sistemas dinâmicos), etc. “A Teoria de Singularidades usa ferramentas de diferentes áreas da matemática e as influencia. Isso é muito bonito e unifica a matemática”, acrescenta Isabel. “A riqueza da Teoria de Singularidades vem da sua interação com as diferentes áreas da matemática e também do contato com problemas da ciência e da tecnologia, os quais demandam que os matemáticos os ataquem usando diferentes instrumentos”, completa Jorge Sotomayor, professor aposentado do Instituto de Matemática e Estatística da USP.

Singularidades em toda a parte – Cidinha sempre quis ser professora de matemática. Na lousa da sala, quando ela desenha formas singulares e não singulares, é possível enxergar o gosto que ela tem por ensinar, algo que a habita desde a adolescência. Aos 12 anos, ela já dava aulas particulares de matemática para alunos do ensino fundamental. “Uma singularidade é uma palavra geral que classifica muitos tipos de comportamentos diferentes do comportamento padrão. Um ponto de bifurcação, por exemplo, indica uma mudança na forma do fenômeno, portanto, indica uma singularidade. Mas nem todo fenômeno singular tem um ponto de bifurcação”, explica. Ela continua: “Uma superfície no espaço, sem singularidades, é suave. Ela não tem quinas, não tem cantos, vértices”. Logo depois, pega um livro nas mãos: “A superfície desse livro tem singularidades ao longo dos pontos de encontro dos lados”, completa. A seguir, faz uma ressalva: “Nem sempre um ponto de encontro é uma singularidade. Se você une duas semirretas e elas viram uma única reta, você não tem singularidade. Mas se você as une de tal forma que formem um ângulo, você já tem um ponto singular”.

Cidinha foi a primeira mulher a se tornar chefe do Departamento de Matemático do ICMC

Para tornar mais clara a explicação, Cidinha recorre às palavras do matemático japonês Heisuke Hironaka, um dos primeiros a atuar na área da Teoria de Singularidades, laureado em 1970 com a Medalha Fields. Em uma entrevista publicada em 2005 pela American Mathematical Society, Hironaka diz: “Muitos fenômenos são interessantes, ou algumas vezes desastrosos, porque eles têm singularidades. Uma singularidade pode ser um cruzamento ou alguma coisa que, de repente, muda de direção. Existem muitas coisas assim no mundo, e é por causa disso que o mundo é interessante. De outra forma, o mundo seria completamente plano. Se tudo fosse suave, então, não haveria romances e filmes. O mundo é interessante por causa das singularidades”. O matemático japonês acrescenta ainda: “Sem singularidades, você não pode falar em formas. Quando você faz uma assinatura, se não há cruzamentos, pontas afiadas, é simplesmente um rabisco”.

E você, caro leitor, já analisou sua assinatura? Ela tem cruzamentos? Pontas afiadas? Tem singularidades ou é um simples rabisco? Ao compreender algo sobre a Teoria de Singularidades, ainda que o gesto seja comparável a um leve toque em sua superfície, é possível vislumbrar a beleza que habita o universo sob o ponto de vista dos matemáticos.

Desde 1990, o Grupo de Singularidades do ICMC realiza bienalmente o Workshop on Real and Complex Singularities, que já conta com a participação dos principais pesquisadores da comunidade científica nacional e internacional

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP

Crédito das imagens: foto de Ton e de Damon e Sotomayor - Denise Casatti; fotos de Isabel, Mond e dos participantes do Workshop - Reinaldo Mizutani; foto de Cidinha - Henrique Fontes.

Mais informações
Grupo de Singularidades do ICMC: http://www.sing.icmc.usp.br/index.php/en/
International Workshop on Real and Complex Singularities: http://www.worksing.icmc.usp.br/main_site/2016/
Interview with Heisuke Hironaka: http://www.ams.org/notices/200509/fea-hironaka.pdf

Contato para esta pauta
Assessoria de comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pint of Science: festival internacional de divulgação científica chega ao Brasil

São Carlos será a primeira cidade da América Latina a realizar o evento, que tem como objetivo levar pesquisadores para conversar sobre ciência em ambientes descontraídos como cafés, restaurantes e bares
Em 2015, festival acontecerá em 9 países

Que a ciência é uma atividade ­muito divertida os cientistas já sabem. Agora, eles vão sair dos seus laboratórios durante três noites para contar como é o trabalho que eles fazem e os impactos disso na vida das pessoas. Essa é a proposta do Pint of Science, um festival internacional de divulgação científica que será realizado pela primeira vez no Brasil este ano, nos dias 18, 19 e 20 de maio.

A iniciativa acontecerá simultaneamente em São Carlos, que é conhecida como a capital da tecnologia, e em mais de 50 cidades espalhadas por outros oito países: Inglaterra, Irlanda, Espanha, Itália, Austrália, Estados Unidos, Alemanha e França.

A instituição responsável por trazer o evento ao Brasil é o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. “Queremos facilitar o contato da comunidade com o conhecimento científico e possibilitar que dialoguem diretamente com os pesquisadores”, explica a presidente da Comissão de Cultura e Extensão do Instituto, Solange Rezende.

Durante as três noites do festival, o público poderá participar gratuitamente de seis debates que acontecerão em dois restaurantes da cidade: no Espaço Sete e no Mosaico. A cada noite, dois temas atuais serão discutidos, tais como robótica, tecnologia na educação, conhecimento livre, ciências matemáticas aplicadas à indústria, economia solidária e muito mais (veja a programação completa).

Da Inglaterra para o mundo – Em 2012, os pesquisadores Michael Motskin e Praveen Paul, do Imperial College London, organizaram um evento chamado Encontro com pesquisadores, trazendo aos laboratórios pessoas acometidas por Alzheimer, Parkinson, doenças neuromusculares e esclerose múltipla para mostrar o tipo de pesquisa que estavam realizando.

A experiência foi tão inspiradora que os dois cientistas pensaram: por que os pesquisadores não podem sair de seus laboratórios para encontrar as pessoas? Foi assim que nasceu o Pint of Science. A primeira edição do festival aconteceu na Inglaterra em maio de 2013. 

No Brasil, o evento conta com o apoio da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), do Núcleo de Apoio ao Software Livre (NAPSoL) e do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP.

No site do evento, público acessa a programação e pode conhecer mais sobre a história da iniciativa

Programação Pint of Science Brasil 2015

Segunda-feira, 18/05, às 20 horas
A tecnologia na educação e a educação para a tecnologia
Coordenação: Seiji Isotani (ICMC)
Onde: restaurante Mosaico (rua Aquidaban, 1342, São Carlos)

O conhecimento livre e a liberdade de compartilhar boas ideias
Coordenação: Francisco José Monaco (ICMC/NAPSoL)
Onde: Espaço Sete (rua Sete de Setembro, 1447, São Carlos)

Terça-feira, 19/05, às 20 horas
Matemática e beleza
Coordenação: Thaís Jordão (ICMC)
Onde: restaurante Mosaico

Inclusão social, etnomatemática e economia solidária
Coordenação: Renata Meneghetti (ICMC)
Onde: Espaço Sete

Quarta-feira, 20/05, às 20 horas
A inovação em ciências matemáticas e as ciências matemáticas em inovação
Coordenação: Francisco Louzada Neto (ICMC/CeMEAI)
Onde: restaurante Mosaico

A era da robótica e seus impactos na sociedade
Coordenação: Fernando Santos Osório (ICMC/CROB)
Onde: Espaço Sete

Mais informaçõesSite do evento: pintofscience.icmc.usp.br
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br