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terça-feira, 4 de julho de 2017

Competições estão virando moda na área de tecnologia: da graduação ao mercado de trabalho

Hackathons e disputas de inovação invadem o setor e contribuem para o desenvolvimento de alunos e profissionais

Hackathon da Globo: evento contou com a participação de vários alunos do ICMC
(crédito: Richard Duchatsch Johansen)

Quem está por dentro da área de tecnologia tem notado que, cada vez mais, as competições estão se tornando tendência no Brasil. Influenciadas pelos ideais de inovação que tomaram conta da área nos últimos tempos, as diversas competições vêm se popularizando nas universidades e no mercado. Hackathons, programas de aceleração de startups e até mesmo competições internas nas universidades possuem vários aspectos em comum, embora tenham objetivos distintos. 

Para que houvesse essa popularização, mudanças foram acontecendo em todo o ambiente da tecnologia. “O aluno está mais conectado, a tecnologia em constante evolução, as empresas à procura de bons profissionais e o mercado aquecido. Tudo isso cria um ambiente bastante propício a esse tipo de competição”, explica a professora Ellen Francine, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. 

As mudanças nos alunos, em especial, se relacionam com o aumento do interesse em empreender e, segundo a professora Ellen, é observado um crescimento significativo nos últimos anos: “Lá atrás a gente não via essa ideia de próprio negócio, era ‘eu quero ir pra uma grande empresa, crescer lá dentro’. Hoje, a gente vê isso de uma forma muito mais clara, já com alunos que estão ingressando”. 

A equipe de Caio (em pé, à direita) durante o Hackathon da Globo
(crédito: Richard Duchatsch Johansen)

Criatividade e aprendizado - Mas o que são essas competições? Como elas funcionam? Passar 30 horas de um fim de semana estudando sem intervalos não é, exatamente, o plano ideal de ninguém. Mas passar o mesmo período desenvolvendo um protótipo que pode resolver um problema importante e, ao mesmo tempo, conhecer outras pessoas, aprender coisas novas e ainda ganhar uns prêmios parece interessante, não é mesmo? É assim que funcionam os hackathons. 

Esses eventos são “maratonas de programação”, organizados por empresas, órgãos públicos ou grupos independentes a fim de encontrar soluções para um problema específico por meio do desenvolvimento de protótipos. Os hackathons têm crescido, em especial, graças à cultura de softwares e hardwares livres. 

Existem diversas vantagens em participar, principalmente por causa do aprendizado. “A primeira vez que eu ouvi falar de Arduino e Raspberry Pi foi num hackathon. Então, independentemente da área, você acaba conhecendo coisas novas, ferramentas novas”, explica Eder Santana, aluno de Bacharelado em Matemática do ICMC. 

Já Caio Lopes, aluno de Engenharia de Computação do ICMC, acredita que é a intensidade do aprendizado que realmente faz a diferença. “Se você decidir experimentar um conhecimento novo, você ganha uma energia a mais no hackathon. Eu estava aprendendo Android básico em um hackathon e saiu um aplicativo legal. Foi um salto muito grande, que eu não teria se decidisse estudar em um fim de semana”, ele conta.

Caio foi um dos alunos do ICMC que participaram da edição mais recente do Hackathon da Globo, realizado em maio, em que o tema era O futuro da produção e distribuição de conteúdo em jornalismo, esportes e entretenimento. Nesse evento, um dos mentores era Bruno Lemos, formado em Bacharelado de Sistemas de Informação no ICMC e campeão da edição de 2016.

Em 2017, outro Bruno se destacou na competição da Globo. Formado em Ciências de Computação, Bruno Orlandi fez parte da equipe que ficou em segundo lugar. “No ICMC, os trabalhos em grupo e conceitos como aprendizado de máquina me ajudaram no hackathon. Foi no Instituto que comecei a reunir um time e focar para programar algo. Por isso, os alunos do ICMC se destacam nessas competições”, diz.

Seu grupo desenvolveu um chatbot para interagir com as notícias do portal G1. Ao conectar com o Facebook, o usuário poderia fazer perguntas relacionadas à Operação Lava-jato, de depoimentos de políticos a empresas envolvidas. O chatbot identificava o contexto das perguntas e buscava, no acervo de notícias, a resposta correta. “A Globo está preocupada com a inovação e traz o público jovem para ajudar a criar novas ideias para o futuro”, explica Orlandi.

Essa imersão em um ambiente de inovação e criatividade não beneficia somente quem participa de um hackathon. A rede de contatos desenvolvida nesses eventos pode ser bastante vantajosa. “Eu conheci o CEO da Motorola, por exemplo. Um amigo meu conseguiu um estágio na Motorola porque o orientador dele conhecia um dos organizadores. Nos bons hackathons, na hora de fazer a apresentação, terá uma galera que vai querer financiar seu projeto, você ganhando ou não”, explica Eder. Ele conta que dezenas de iniciativas foram financiadas durante um hackathon na última Campus Party.

Bruno Orlandi (à esquerda) e sua equipe ficaram em segundo lugar no último Hackathon da Globo
(Crédito: Richard Duchatsch Johansen)

Riscos e contratempos - Mas será que tudo é vantajoso nesse universo? Alguns organizadores distorcem os propósitos dos hackathons em benefício próprio. Uma das principais críticas dos participantes envolve a realização de um evento para solucionar um problema específico. “Tem empresa que pensa assim: vamos comprar umas pizzas com o dinheiro dos participantes para resolver nosso problema”, diz Eder. Sua opinião é compartilhada por Caio, que acrescenta a questão da propriedade intelectual. “Alguns regulamentos falam que o código é direito da empresa e não do grupo que fez. A maioria dos participantes não gosta muito disso”, explica. 

Outro aspecto que tem sido levantado sobre essas disputas é a multidisciplinaridade dos eventos. Muitos organizadores divulgam seus hackathons apenas para programadores, o que acaba limitando o potencial criativo da iniciativa. Segundo Eder, uma boa equipe é dividida em três partes: a que pensa no negócio e na aplicação da ideia no mercado; a que vai criar, desenvolver o software e o hardware; e a de design, que vai transformar a ideia em um produto de verdade. “Eu acho que pluralidade é muito bom porque nem sempre a pessoa da área de programação sabe o que realmente funciona. Eu vejo, em vários hackathons, uma equipe de cinco desenvolvedores capazes de fazer qualquer projeto que entregarem para eles, mas não conseguem pensar num projeto viável”, ele afirma. 

Apesar de concordar com a ideia, Caio é mais cauteloso com essa mistura de áreas. “Desenvolvedor pensa de um jeito muito diferente do que um usuário. Então, dependendo da área, ter uma pessoa de fora ajuda demais. Só que, querendo ou não, as 30 horas são mais voltadas para desenvolver o protótipo. Qualquer outra área vai entrar como business, porque ajudará na ideia e a vendê-la. Eu fico muito bravo quando vou a um hackathon que o cara apresenta slide e não um protótipo”, explica. 

Será que esses pontos negativos não ameaçam os hackathons? Eder acredita que os aspectos positivos são mais importantes. “Na competição da Serasa, aqui em São Carlos, eles queriam adaptar melhor o mercado de varejo aos cegos. E isso era muito legal, tinha um benefício social”. Ele conta, também, que participou de uma competição sobre agricultura urbana, em que eram buscadas alternativas para plantar comida na cidade. “No geral, os bons hackathons que eu vi têm desafios no sentido de ajudar as pessoas. Elas vão comprar essas soluções, claro, mas você está ajudando de alguma maneira”, conclui. 
Equipe da Arquivei durante atividade realizada com alunos do ICMC no ano passado
(crédito: Denise Casatti)

Startups e programas de aceleração - Formado em Ciência da Computação pelo ICMC, Filipe Grillo faz parte da equipe que criou a startup Arquivei. Ela surgiu no fim de 2013 e foi desenvolvida por um grupo do qual participam outros ex-alunos do Instituto. A startup desenvolveu uma ferramenta online que consulta e armazena todas as notas fiscais emitidas por uma empresa, facilitando a organização e evitando a perda de documentos importantes.

Neste mês de julho, Filipe vai para os Estados Unidos com mais dois funcionários da empresa passar duas semanas no Google. Essa viagem é a primeira parte do LaunchPad Accelerator, programa de aceleração de startups do Google que tem duração total de seis meses. A Arquivei tentou participar da edição anterior do programa, mas não foi selecionada. 

Participar de programas de aceleração é uma alternativa para as startups encontrarem soluções e crescerem. Esses programas são criados por grandes empresas ou bancos por meio de um processo seletivo. Eles escolhem as startups que acreditam possuir soluções inovadoras e possam gerar valor. Nem todos os programas possuem as mesmas contrapartidas: enquanto alguns exigem participação nos lucros, outros desejam apenas trazer para dentro das empresas o viés empreendedor natural das startups, além de solucionar alguns de seus problemas. Em troca, cedem especialistas em diversas áreas para aconselhar no crescimento delas e investem dinheiro. 

O programa do Google, em especial, não exige nenhuma participação acionária nas empresas. “Eles ganham tendo contato, podem trocar conhecimento entre seus engenheiros e as startups”, afirma Filipe. Mesmo assim, ele acredita que vai ser uma experiência única. “Nessas duas semanas de viagem, vamos poder conversar com os engenheiros do Google e eles vão nos apresentar mentores que nos ajudarão a acelerar. Depois, de tempos em tempos, eles nos mandam tarefas para irmos na direção do crescimento indicado”, explica. 

Mas alguns programas não são tão benéficos para as startups. Filipe, inclusive, quase participou de um: “era um programa de aceleração com um contrato extremamente agressivo. Eles se reservavam ao direito de pegar uma porcentagem grande da sua empresa por um valor baixo, algo muito vantajoso para o programa mas nem um pouco para as startups. Tem que tomar muito cuidado com esses contratos de aceleração”, afirma. 

Por isso, Filipe revela que existem outras formas para uma startup crescer sem precisar competir nesses programas. “Aceleração é importante para ter mentoria e aprender a passar pelos desafios mais rápido. Se você está precisando do dinheiro, exclusivamente, é melhor buscar um fundo de investimento ou um investidor-anjo”, conta.

O aluno do ICMC Flávio Salviano foi finalista do Prêmio Santander Empreendedorismo
e recebeu orientação da professora Ellen (crédito: Denise Casatti)

No contexto da universidade - Como a universidade se relaciona com esse universo? No Brasil, a maioria dos hackathons costumam ser organizados por empresas e órgãos públicos. O ecossistema das startups, por mais que envolva os alunos, ainda não inclui totalmente o meio acadêmico. 

“Nos Estados Unidos, a vertente de hackathon é muito mais forte. Aqui, só empresa organiza, não vejo hackathons universitários”, afirma Caio, que participou pela primeira vez de uma dessas competições enquanto fazia intercâmbio. A Major League Hacking, por exemplo, é uma organização de estudantes norte-americanos que apoia hackathons universitários em todo o país, com foco na troca de ideias e ambiente mais comunitário. 

“Eu vi que os próprios alunos e universidades têm uma movimentação com relação a isso, até ligado ao movimento maker, que tem esse espírito de querer fazer, construir as coisas. O hackathon cria esse contexto num fim de semana, de sair da inércia e botar a mão na massa. Isso que eu sinto falta na universidade”, diz. Ele acredita que, no Brasil, durante a graduação, existe pouco espaço para iniciativas como essas, já que os alunos são sobrecarregados de provas e trabalhos.  Para mudar essa cultura, Caio pretende organizar, em parceria com a Semana de Engenharia de Computação do ICMC, um hackathon durante todo o evento, aproveitando a ausência de aulas no período.

As startups também estão se relacionando mais com a universidade. “A gente sempre vem aqui dar palestra, curso, essa proximidade é muito boa, e acho que até poderia ter mais”, diz Filipe, da Arquivei. “Temos uma agência de inovação na USP, porque a tendência é trazer as startups para dentro da universidade. É isso que a gente espera: motivar a empresa a vir e ter desafios, criar esse ambiente propício para que a gente estimule o desejo de empreender no aluno”, afirma a professora Ellen.

A universidade ainda possibilita que outros tipos de competição aconteçam. Cada vez mais, os docentes estão procurando empresas para que elas proponham desafios relacionados às disciplinas. É o caso da Siena Idea que, em parceria com o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), promoveu o Be an Icon, uma competição para o desenvolvimento de softwares relacionados aos beacons, dispositivos que podem ser utilizados como sinalizadores de produtos e de locais.

Outro exemplo é o Ideas for Milk, realizado pela Embrapa no ano passado com apoio do ICMC, em que os alunos deveriam pensar em soluções para problemas na cadeia do leite. “Não era um desafio de programação, não era hackathon, mas houve a conexão da Embrapa com a disciplina de Empreendedorismo e eles tentaram resolver um problema específico. Isso motivou os alunos a pensarem fora da caixa, que é o que se incentiva nessa disciplina”, conta Ellen. A própria Arquivei já contribuiu para o desenvolvimento de projetos em uma turma de Engenharia de Computação do ICMC.

Quem também se aventura pelos desafios de tecnologia são os alunos de pós-graduação do ICMC. Orientados pelo pós-doutorando Humberto Brandão, que ministra a disciplina de Inteligência Artificial Aplicada, mestrandos e doutorandos do Instituto se classificaram para a etapa final do Data Science Game, a maior competição de ciência de dados do mundo. Ele acredita que essa área se beneficia muito com esses eventos: “Hoje em dia se tornou muito mais fácil a gente aprender conceitos novos participando dessas competições, porque existe ali uma rede social de cientistas de dados trocando informações”. 

Para Humberto, participar de desafios como esse, bem como de hackathons e outras competições, é de suma importância porque possibilita aos estudantes aplicar toda a teoria que aprendem durante o curso, vislumbrando soluções que são úteis para algum tipo de comunidade. “Isso motiva muito os alunos que estão trabalhando, porque eles veem de maneira concreta como podem ajudar o mundo”, finaliza. 

Partipantes do Ideas for Milk, realizado no ano passado (crédito: Renan Alcântara)

Texto: Alexandre Wolf - Assessoria de Comunicação ICMC/USP

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Mais suor e menos glamour: venha conhecer os desafios da jornada das startups

Em um bate-papo na USP, em São Carlos, os empreendedores vão revelar os desafios que enfrentam durante o desenvolvimento de uma startup; a atividade é parte das comemorações dos 45 anos do ICMC


Ser um empreendedor, criar uma startup de sucesso e ganhar muito dinheiro. Esse é o sonho vislumbrado por milhares de jovens que, inspirados por histórias de sucesso, não conhecem os desafios que envolvem a criação de um modelo de negócio repetível e escalável, em um ambiente de extrema incerteza.

Trazer ao público a dimensão real (e algumas vezes sombria) desse cenário é o objetivo do bate-papo Mais suor e menos glamour: os desafios da jornada das startups, que será realizado na próxima quarta-feira, 19 de outubro, às 19h30, no campus da USP em São Carlos. 

A atividade faz parte das comemorações dos 45 anos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) e acontecerá no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano. O evento é gratuito, aberto a todos os interessados e não demanda inscrição prévia.

Entre os participantes do bate-papo estão empreendedores que fundaram startups de destaque no mercado e, antes disso, passaram por algumas experiências mal sucedidas ao longo da jornada. Confira, a seguir, o nome e a trajetória de cada um dos participantes.


Danilo Oliveira - Sócio-fundador do SigaLei, solução para busca e acompanhamento da tramitação dos projetos de lei no Congresso Nacional e nas Assembleias Estaduais. O SigaLei utiliza mineração de dados e técnicas de aprendizado de máquina para realizar análises descritivas e preditivas dos cenários políticos. Engenheiro da Computação formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 2012, é especialista em ficar em silêncio nos debates políticos travados nas Redes Sociais. Danilo acredita que o verdadeiro amadurecimento político do brasileiro passa pelo debate saudável e democrático entre as diferentes partes. 



Filipe Grillo - Bacharel e mestre em Ciências da Computação pelo ICMC com especialização em sistemas Web e multimídia interativos. Teve um projeto reconhecido no prêmio nacional de acessibilidade em 2013, organizado pela W3C Brasil e NIC.br. Em sua carreira, já atuou como analista de sistemas e como gerente de projetos de tecnologia no ramo de mobile payment em São Paulo durante 2 anos. É sócio da RunWeb desenvolvimento de sistemas, onde foi diretor de tecnologia durante 5 anos. Na startup Arquivei, é co-fundador e CIO, onde é responsável, no time de engenharia, pelas equipes de qualidade de software e de operações. 



Marcio Galli - Ex-aluno do ICMC e especialista em tecnologias Web, trabalhando com tecnologias para comunicação há mais de duas décadas. Mudou-se para o Vale do Silício em 2000, quando trabalhou como evangelista de tecnologia e em projetos de inovação para empresas como Netscape, Yahoo! e, ao voltar ao Brasil, na MozillaHoje é empreendedor e, atualmente, trabalha para a SlideQuest, uma startup que oferece um canal de comunicação e de cocriação de conteúdo, permitindo a distribuição de apresentações animadas para WebTVs, dispositivos móveis, desktops, além da geração automática de vídeo trailers.



Rafael Libardi - Especialista em segurança digital com projetos nos setores de privacidade de dados e segurança da informação. É formado em Sistemas de Informação e possui mestrado em armazenamento seguro de dados na nuvem pelo ICMC. Seu objetivo de vida é aprimorar a privacidade e a segurança da internet. É membro global da Internet Defense League, Internet Society, IEEE e ACM. É fundador e CEO da Ukkobox, que foi nomeada uma das seis FinTech Startups a se observar pela Visa em 2015; acelerada pela Cyber London; e em 2016 foi premiada pela SC Magazine como melhor startup de cybersegurança da Europa.



Rafael Meireles - Gestor de projetos na Bridge, primeira aceleradora de startups da cidade de São Carlos, e responsável pela Builder, braço da Bridge que tem como foco receber projetos de investidores que buscam diminuir o risco de investimento através de uma equipe preparada para criar e testar modelos de negócio e levar ao mercado empresas com alta capacidade de retorno. É bacharel em design gráfico formado pelo Centro Universitário SENAC em São Paulo, com cursos em Estratégia Empresarial e Gestão de Marketing (Ibmec-SP) e MBA em Gestão Estratégica (USP - Ribeirão Preto). 



Ricardo Agostinho - Empreendedor na área de TI, co-fundador do PISO (Polo Industrial de Software de Ribeirão Preto), co-idealizador do MOVER (Movimento Empreende Ribeirão), co-organizador do Startup Weekend Ribeirão Preto e OpenCoffee Empreendedorismo, colaborador no SUPERA Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, colaborador no processo de criação do SUPERA International Office, investidor em startups de base tecnológica, co-diretor do Founder Institute capítulo Ribeirão Preto e CEO da aceleradora de startups SEVNA Seed.




Serviço
O que: Mais suor e menos glamour: os desafios da jornada das startups
Quando: 19 de outubro, quarta-feira, às 19h30
Onde: auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano do ICMC (USP São Carlos)
Evento gratuito, sem necessidade de inscrição prévia
Página do evento: www.facebook.com/events/313659439005502/

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embrapa, USP e UFSCar desafiam empreendedores: buscar soluções para o mercado do leite

Palestras em São Carlos marcam o lançamento da iniciativa Ideas for Milk, competição nacional para encontrar as melhores ideias voltadas à cadeia produtiva do leite; inscrições no desafio vão até 12 de outubro




Conhecida como capital da tecnologia, São Carlos é uma das oito cidades brasileiras que vão sediar a etapa regional do Ideas for Milk, uma competição voltada a estimular a criação, a aceleração e o investimento em startups que busquem soluções tecnológicas para o mercado lácteo. O lançamento do desafio na cidade acontecerá dias 25 e 26 de agosto, quando serão realizadas palestras na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e a UFSCar são correalizadores da iniciativa, que é liderada pela Embrapa e tem o apoio de diversas empresas, aceleradoras e investidores-anjo.

O leite é produzido em 99% das cidades brasileiras por cerca de 1,3 milhões de produtores e transformado em uma centena de derivados lácteos pelas cerca de duas mil indústrias do setor, que expandiu 78% nos últimos cinco anos e faturou R$ 60 bilhões somente em 2015. A dimensão gigantesca desse setor contrasta com a carência de soluções em softwares, aplicativos e hardwares que auxiliem nas atividades produtivas e viabilizem a tomada de decisões mais precisas. Aproximar professores, estudantes, pesquisadores, empreendedores, profissionais do mundo do leite e do mundo da tecnologia é uma das metas do Ideas for Milk, já que essa união poderá criar oportunidades para o desenvolvimento de negócios em conjunto. 

As inscrições na competição são gratuitas e podem ser realizadas até o dia 12 de outubro por meio do site www.ideasformilk.com.br. Podem participar equipes informais e startups já constituídas propondo soluções web, mobile ou em hardware e apresentando inovações em modelos de negócio, produtos, processos, serviços e tecnologias. As propostas devem ter foco nas grandes áreas temáticas do agronegócio do leite, como insumos agropecuários, logística de captação e distribuição do leite, indústria de laticínios, mercado e consumidores finais.



Palestras de lançamento - Com a intenção de explicar como vai funcionar o desafio, mostrar as oportunidades da cadeia do leite e esclarecer as possíveis dúvidas do público, duas palestras acontecerão em São Carlos nesta semana: a primeira será na quinta-feira, dia 25, às 14 horas, no auditório Sérgio Mascarenhas, no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), no campus da USP; a segunda ocorrerá na sexta-feira, dia 26, às 9 horas, no auditório I da Biblioteca Comunitária da UFSCar, na área norte do campus São Carlos (ao lado do Teatro Florestan Fernandes).

Nos eventos, os participantes serão informados sobre as três etapas que compõem o Ideias for Milk. A primeira fase é local e vai selecionar as cinco melhores ideias inscritas em cada uma das oito cidade-sede: São Carlos, Belo Horizonte, Campinas, Juiz de Fora, Lavras, Piracicaba, Porto Alegre e Viçosa. Essas cinco melhores propostas participarão da segunda fase do desafio, as finais locais, em que será definido o ganhador de cada cidade. As oito ideias finalistas participarão da final nacional, em Brasília, no dia 14 de dezembro. 

Ainda este mês estão programados eventos de apresentação do Ideias for Milk em mais duas cidades-sede (confira a agenda). Em todo Brasil, dez universidades participam da iniciativa como correalizadoras e foram selecionadas por se destacarem nas áreas de ciências agrárias e tecnologias da informação e comunicação (TIC). A Embrapa Gado de Leite lidera a iniciativa com três unidades: Embrapa Informática Agropecuária, Embrapa Instrumentação e Departamento de Tecnologia da Informação.

Texto: Denise Casatti, Assessoria de Comunicação ICMC/USP – Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa Gado de Leite.

Mais informações
E-mail: cnpgl.ideasformilk@embrapa.br

Contato com a imprensa
Denise Casatti (ICMC/USP em São Carlos)
E-mail: comunica@icmc.usp.br
Telefone: (16) 3373.9666

Carolina Pereira (Embrapa Gado de Leite)
E-mail: carolina.pereira@embrapa.br
Telefone: (32) 3311.7548

quarta-feira, 23 de março de 2016

Palestra explica como programa da FAPESP pode contribuir para gerar inovação e criar startups em São Carlos

Evento gratuito acontecerá dia 30 de março, às 15 horas, no ICMC

Palestra será ministrada por Fabio Kon

Apoiar a execução de pesquisa científicas ou tecnológicas em micro, pequenas e médias empresas no Estado de São Paulo. Esse é o objetivo do Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Na próxima quarta-feira, 30 de março, uma palestra no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, mostrará por que o PIPE pode ser uma oportunidade excelente para auxiliar pós-graduandos recém-formados na criação de suas startups. 

A palestra será ministrada pelo professor Fabio Kon, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, que também é coordenador adjunto de pesquisa para inovação da FAPESP. Com o título O Programa PIPE da FAPESP e a sua startup são-carlense, a palestra acontecerá às 15 horas, no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano (sala 6-001) do ICMC. No evento, serão apresentados o histórico e os objetivos do Programa, bem como discutidas as características que um bom projeto deve ter para ser submetido ao PIPE. A plateia também terá a oportunidade de tirar suas dúvidas. 

No mesmo auditório, às 18 horas, o professor falará sobre Modelo de maturidade para ecossistemas de startups de software: onde sua cidade se encaixa e o que você pode fazer por ela? Nessa palestra, Kon apresentará um modelo resultante de pesquisas de campo realizadas em Tel Aviv (Israel), Nova Iorque (Estados Unidos) e na capital de São Paulo. O trabalho foi desenvolvido pelo Grupo de Empreendedorismo Digital do IME. Ele também discutirá como esse modelo pode trazer subsídios para que as cidades definam diretrizes e planos de ação para o desenvolvimento de um ambiente favorável à criação de empresas nascentes de cunho tecnológico.

Sobre o palestrante - Nos últimos anos, Fabio Kon tem trabalhado para consolidar o ecossistema de startups de São Paulo e apoiado um grande número de empresas nascentes de cunho tecnológico. Graduado em Ciências da Computação pela USP (1990) e em Música (Instrumento - Percussão) pela UNESP (1992), Kon possui mestrado em Matemática Aplicada pela USP (1994) e doutorado em Ciências da Computação pela University of Illinois At Urbana-Champaign (2000). Atua pesquisando principalmente os seguintes temas: sistemas distribuídos, computação em grade, middleware reflexivo, métodos ágeis de desenvolvimento de software, informática em saúde, multimídia e computação musical. É também avaliador de propostas altamente inovadoras do programa Horizon 2020 da Comissão Europeia. 

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666

terça-feira, 22 de julho de 2014

Embriões de um novo Vale do Silício?

O boom das startups na capital da tecnologia pode indicar a transformação no eixo de desenvolvimento tecnológico de São Carlos, resta saber se essas iniciativas terão fôlego no longo prazo e o quanto as universidades e instituições podem contribuir para a evolução desse cenário

Por: Denise Casatti

Eles geram riqueza a partir do conhecimento e criam seus próprios empregos. Nessas mãos empreendedoras mora uma ideia persistente: fazer um negócio dar certo, lançando produtos inovadores a partir do uso da tecnologia. As iniciativas que eles criam estão, cada vez mais, chamando a atenção do mercado, dos investidores, dos veículos de comunicação, construindo um cenário efervescente que já se espalhou pelo mundo e pelo Brasil, estimuladas por instituições e programas de apoio e aceleração.

Chamadas de startups, essas iniciativas também invadiram a capital da tecnologia, São Carlos, a 230 quilômetros da capital do Estado de São Paulo, multiplicando as possibilidades de emprego para quem está na graduação e na pós-graduação, em especial atuando em áreas ligadas às áreas de computação e sistemas de informação. “No Brasil, quando falamos de startups, alguns nomes vêm à cabeça: São Paulo, naturalmente, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. Excluindo-se essas capitais, quando olhamos para o interior do país, apenas duas cidades chamam a atenção de fato: Campinas e São Carlos”, assegura o empreendedor Thiago Christof, que criou um mapa colaborativo da cidade especialmente para conectar os agentes desse movimento por meio do website capitaldatecnologia.com.br.

“A cidade está se redescobrindo, é uma revolução que vem acontecendo há cerca de três anos. Os talentos que estão estudando hoje aqui entendem que podem permanecer por aqui. Também tem muita gente voltando para cá”, explica Christof, um dos cofundadores da startup Cidadera (www.cidadera.com), cuja intenção é mapear, de maneira colaborativa, os problemas urbanos das cidades. Os outros cofundadores da startup são Victor Stabile, ex-aluno da UFSCar, e Carlos Fialho, aluno do curso de Ciências de Computação do ICMC.

Fialho é apenas um entre tantos outros alunos e  ex-alunos do Instituto que se movem no ritmo acelerado das startups, destacando-se no cenário efervescente das empresas nascentes de tecnologia de São Carlos. Vale destacar pelo menos uma dezena dessas startups cujos fundadores têm em comum o convívio nas salas de aula do ICMC (veja o quadro).

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Transformação evidente – É nos últimos cinco anos que esse ritmo frenético do empreendedorismo tem se espalhado pelo ICMC e por São Carlos. Antes disso, o cenário era outro. Volte ao tempo, especificamente a 1997, e olhe para uma sala do ICMC, onde está acontecendo uma das aulas da disciplina optativa Empreendedores em Informática, incluída naquele ano na grade curricular dos alunos do curso de Ciências de Computação. Entre na sala e perceba que os professores estão tentando, sem sucesso, despertar nos estudantes a capacidade empreendedora, mas o mercado atrai mais: “O aluno chegava à sala de aula muito preocupado em melhorar o currículo dele. Quando falávamos sobre liderança, ele se interessava pelo assunto simplesmente porque queria atuar bem na dinâmica de grupo e ser selecionado por uma empresa”, relembra a professora Solange Rezende.

Faça o mesmo exercício em 2014: o resultado será completamente diferente. “Agora o aluno está mais interessado em explorar essa possibilidade de criar uma empresa”, conta o professor André de Carvalho, que, junto com Rezende, foi um dos responsáveis por implantar a disciplina Empreendedores em Informática no ICMC. Hoje, a disciplina passou a ser chamada simplesmente de Empreendedorismo e ganhou ramificações em duas outras optativas: Projeto Empreendedor I e II. Essas disciplinas são oferecidas nos três cursos de graduação do ICMC da área de computação: Ciência de Computação, Sistemas de Informação e Engenharia de Computação. Porém, no caso de Sistemas de Informação, é disciplina obrigatória; já em Engenharia de Computação, o tema também marca presença no currículo obrigatório junto à disciplina Administração e Empreendedorismo. Há, ainda, no curso de Sistemas de Informação a possibilidade dos alunos realizarem um estágio empreendedor no final do curso. Nesse caso, o aluno deve ser sócio efetivo na empresa em que estagia.

Solange e André: pioneirismo na implantação da disciplina
de empreendedorismo
Na opinião dos professores, uma série de fatores contribuiu para que ocorresse essa mudança no perfil dos alunos que hoje frequentam as salas de aula do ICMC em comparação àqueles que as frequentavam em 1997. Houve a criação de incubadoras, agências de inovação, programas de estímulo. Há oportunidades novas para obtenção de investimento, além de questões inerentes ao próprio desenvolvimento da área de computação no mundo. “Um marco que podemos citar é a criação do Facebook. A divulgação daquele mundo que apareceu em uma garagem, por meio de um grupo de pessoas, com investimento baixo, e no qual havia um brasileiro envolvido, contribuiu para despertar nas pessoas a possibilidade de fazer alguma coisa rentável com baixo investimento. E o melhor: uma oportunidade para os computeiros trabalharem da forma despojada como eles gostam: de bermuda e chinelo”, aponta Rezende. “Antes, só existia a figura do Anjo, em que uma única pessoa colocava dinheiro na startup. Agora, você pode encontrar, na própria web, redes de financiadores, é o que chamamos de crowfunding, em que várias pessoas investem um pouco e, assim, é possível alavancar os recursos necessários para fazer a empresa funcionar”, acrescenta Carvalho.

Os fundos de investimento e o capital de risco também estão de olho nas startups, assim como as aceleradoras, que investem nas empresas emergentes com objetivo de ter participação nos resultados quando o empreendimento começar a dar lucro. No caso das aceleradoras, é comum que exista um acompanhamento do dia a dia da startup, oferendo orientações sobre gestão, finanças e marketing para que a empresa possa crescer mais rapidamente.

A experiência de passar por esse processo dentro de uma aceleradora está sendo vivenciada pelo aluno do ICMC Lucas Lobosque, co-fundador da Freta.lá. A startup foi selecionada para participar do Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (SEED), um programa do estado de Minas Gerais que tem a finalidade de incentivar esse ecossistema. “Sem dúvida, nosso maior desafio foi entrar no SEED. Fomos selecionados entre 1.367 inscritos, ficando entre 40 melhores”, comemora Lobosque.

Para participar do processo, a equipe da Freta.lá precisou preencher um formulário extenso sobre a empresa, formulários individuais para cada um dos três fundadores – onde se incluem também Bruno de Melo, aluno da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), e Thiago Paes – além de um vídeo. Durante a seleção, o critério que tem maior peso é a equipe (60%). O projeto (40%) fica em segundo plano.

Desde janeiro, os três sócios do Freta.lá estão em Belo Horizonte e por lá permanecem até julho, participando de reuniões semanais com os agentes do SEED. Cada agente cuida de 10 startups e acompanha o progresso de cada uma, que poderá receber de R$ 78 mil a R$ 80 mil para investir em seu projeto (dependendo do número de fundadores). “Talvez mais importante que o dinheiro seja o networking. Você conhece muita gente interessante, do mundo inteiro. São contatos que vão nos ajudar bastante em nossas carreiras, independentemente de prosseguirmos no caminho do empreendedorismo ou não”, conta Lobosque.

Para Lucas, desafio é transformar idéias em produtos
Quando ingressou em Ciências de Computação no ICMC, Lobosque não sabia que se tornaria um empreendedor. Essa era uma possibilidade tal como trabalhar em uma grande empresa ou seguir carreira acadêmica. Depois que passou a entender melhor como o funcionava o mercado e notou que um desenvolvedor de software não era valorizado, decidiu seguir por outro caminho: criou sua primeira startup, voltada a desenvolver um sistema para informatizar academias de ginástica, tendo como sócio Melo. “Foi um fracasso total, a gente nem tentou lançar no mercado”, revela. No entanto, foi esse negócio malsucedido que impulsionou os sócios a buscarem o aprendizado necessário. Lobosque seguiu assim para os Estados Unidos com a meta de estagiar em uma startup. Encontrou a Bombfell, que tem como objetivo desenvolver roupas sob medida para homens, entregando as peças pelo correio. “Durante o ano que passei lá, o número de usuários triplicou”. 

Ao voltar dos Estados Unidos, o aluno do ICMC foi convidado pelos amigos para participar da Freta.lá. “Parece que o difícil é ter uma ideia, mas ter uma ideia é o mais fácil. O difícil é transformar essa ideia em um produto”, ensina Lobosque. Para todos aqueles que querem seguir o caminho do empreendedorismo, ele diz: “se você tem uma ideia e acha que é legal, precisa refiná-la, falar com outras pessoas e fazer acontecer, mesmo que não existam recursos. Não adianta ficar esperando aparecer algo. Você precisa arrumar alguém que acredite em sua ideia”. Eu acredito – Everton Cherman é o melhor exemplo de que vale a pena correr  trás das pessoas para convencê- las a acreditarem em sua ideia. Ele defendeu o doutorado no ICMC em janeiro deste ano e, logo em seguida, seu projeto – chamado Onion: cardápio inteligente de bolso – foi um dos selecionados pelo Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). O programa existe desde 1997 e destina-se a apoiar o desenvolvimento de pesquisas inovadoras sobre importantes problemas em ciência e tecnologia que tenham alto potencial de retorno comercial ou social, a serem executadas em pequenas empresas sediadas no Estado de São Paulo. 

“Inicialmente, são nove meses de apoio para que possamos desenvolver um protótipo e mostrar que ele é tecnicamente viável e tem indícios de ser comercialmente viável também”, explica Cherman. Nesse período, a Onion terá à disposição recursos da ordem de R$ 100 mil para disponibilizar bolsas aos pesquisadores envolvidos no projeto e para a compra de equipamentos. A intenção de Cherman é, após essa gestação de nove meses, alcançar aprovação para a segunda fase do programa, em que podem ser obtidos recursos de até R$ 1 milhão, destinados ao desenvolvimento comercial do produto e à realização de aperfeiçoamentos técnicos. 

Diferentemente de Lobosque, o sonho de ser empresário permeia toda a trajetória de Cherman, que cresceu acompanhando a rotina empreendedora de pais e tios: “Quando estava cursando Ciências de Computação na Universidade do Oeste do Paraná, em Foz do Iguaçu, comecei a fazer iniciação científica e me apaixonei pela pesquisa. Foi aí que vislumbrei a possibilidade de unir essa nova paixão com a mais antiga, que era criar uma empresa”. 

Para que seu projeto fosse selecionado pela FAPESP, Cherman convenceu dois parceiros relevantes a apostarem na Onion: o grupo Meira, que administra quatro casas noturnas na cidade de São Carlos (Vila Brasil, Qué Va, Beatniks Road Bar e Seo Gera); e o ParqTec, uma entidade privada e sem fins lucrativos que agrega três incubadoras de empresas em São Carlos – o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (CINET), a primeira incubadora instalada na América Latina; o Centro Incubador de Empresas de Software (SOFTNET) e a Design Inn. “Conversei com o grupo Meira e pedi uma carta de apoio. Se eu fosse aprovado pela FAPESP, eles se comprometeriam a disponibilizar o ambiente deles para eu testar meu projeto. Usei a mesma estratégia no ParqTec. Se eu fosse aprovado, eles me colocavam aqui”, revela Cherman. Deu certo. O berço ideal – Atualmente, há 30 startups incubadas no ParqTec que recebem apoio por meio da disponibilização de infraestrutura e treinamentos voltados a desenvolver a habilidade dos empreendedores no gerenciamento dos negócios, oferecidos principalmente por meio de parcerias com o Sebrae. “Só queremos aqui quem deseja ficar rico a partir do conhecimento. E temos o compromisso de criar um novo empresário, que vá devolver à sociedade todas essas oportunidades que ele está obtendo. Para isso, primeiro ele precisa ter sucesso”, afirma o diretor presidente do ParqTec, Sylvio Goulart Rosa Júnior. 

Everton e Sylvio: Onion conseguiu apoio também do ParqTec
Crítico ferrenho ao modelo que segrega universidades e empresas, separando-as por um muro intransponível, Goulart afirma que a Universidade tem que ser uma guerreira da mudança e colocar o Brasil em uma situação mais privilegiada na distribuição da riqueza do mundo. “Ela tem que gerar hoje conhecimento e riqueza. É um crime contra o povo paulista que esse conhecimento fique na prateleira. É preciso transferir esse conhecimento para o setor produtivo”, ataca. “A USP do século XX foi bem sucedida em sua missão e teve um papel fundamental para o Brasil. Mas como a USP do século XXI vai manter essa vanguarda, como poderá ter uma projeção internacional maior?”, questiona. 

Mas Goulart já enxerga mudanças nas universidades por causa da criação das agências de inovação (veja, na página 3, entrevista com o coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Bagnato). Porém, na opinião dele, é preciso mais estímulo: a saída é espalhar cursos de empreendedorismo por todos os departamentos das universidades, treinando e capacitando os alunos para a elaboração de planos de negócios, para a gestão de projetos, “fertilizando todo mundo” para a geração local do conhecimento e da inovação. 

“Precisamos levar alunos como o Everton para dar palestras aos calouros, mostrando que é possível criar uma empresa, que há apoio e sustentação”, defende. “A nossa ideia é que São Carlos seja um modelo e um laboratório de como vai ser o Brasil no século XXI. A região é o melhor tipo de investimento, porque é muito fácil recrutar gente altamente qualificada aqui: há pessoas empreendedoras que querem se qualificar para gerar conhecimento, é onde estão os alunos de graduação mais disputados, os programas de pós-graduação nota máxima da CAPES e os professores”, argumenta o diretor presidente do ParqTec.

Tundisi acredita que eixo de desenvolvimento da
cidade está mudando
Para o secretário municipal de Desenvolvimento Sustentável, Ciência e Tecnologia de São Carlos, José Galizia Tundisi, a cidade tem, de fato, uma missão muito grande em relação ao país, tendo em vista que foi pioneira na implantação de diversas tecnologias, figurando entre as primeiras a disponibilizar luz elétrica, bonde, telefone. “O que acontece agora é que, até por causa de uma demanda global, está havendo uma sinergia muito maior entre as universidades, as empresas e os parques tecnológicos. Existe um ambiente dinâmico com muitas interfaces e isso está se intensificando”, analisa Tundisi. Ele afirma que é papel de sua secretaria apoiar e estimular esse processo, por meio da articulação, junto a agências financiadoras, de instrumentos de apoio direto e indireto às empresas nascentes.

O secretário revela, ainda, que tem notado uma transformação marcante no município: “São Carlos está começando a mudar fundamentalmente o eixo de desenvolvimento tecnológico. Ela está passando de uma cidade com empresas voltadas à construção de hardware para um município que atrai empresas de desenvolvimento de software, contexto no qual as startups estão inseridas”. O secretário acredita que, se esse novo mercado de startups se consolidar em São Carlos, não há dúvidas de que será um fator de atração para a chegada de outras empresas à cidade. Serão elas capazes de criar aqui um novo Vale do Silício? Para essa pergunta, nenhuma startup ainda encontrou a resposta.


“Queremos que uma fração de nossos estudantes esteja disposta a ser geradora de riqueza”


Como coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Bagnato acredita que a inovação é um dos caminhos para que a Universidade – tradicionalmente uma grande consumidora de recursos – passe a contribuir para a geração de riqueza. Na opinião do professor, incentivar os alunos a criarem suas próprias empresas é uma das formas de se fazer isso. Na entrevista a seguir, ele explica como a Agência USP de Inovação tem atuado em prol das empresas nascentes, reconhecendo que a Universidade ainda é omissa e morosa no que diz respeito a essas iniciativas.

Recém-eleito como membro da prestigiada Academia Americana de Ciências (National Academy of Science, NAS), Bagnato também coordena o Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (Cepof), sediado no Instituto de Física de São Carlos, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiados pela FAPESP. Ele é o segundo brasileiro a ter alcançado a façanha de fazer parte da NAS, nesse caso, especificamente devido aos relevantes trabalhos desenvolvidos na área de átomos frios, pesquisa em ciências da vida e programas de difusão de ciências. 

Como a Universidade pode contribuir de forma mais efetiva para a inovação e o desenvolvimento do setor produtivo brasileiro?

Para que a inovação aconteça, é preciso alguns ingredientes. Normalmente, ela começa com uma ideia que precisa ser provada. A seguir, tem que se demonstrar que aquela ideia é capaz de ser utilizada. é o que chamamos de protótipo. Depois, é hora de mostrar que a ideia pode ser transformada em um produto e, por último, é preciso provar que ela pode chegar ao mercado. Essa é a escala da inovação, já que sem produto, sem algo que atinja o mercado, a inovação é manca. Por isso, toda inovação pressupõe a existência de algo que vá contribuir com a economia utilizando conhecimento, novas técnicasou conceitos. O problema é que não é toda a ideia que chega ao final desse processo. Então, é necessário um ambiente exploratório, onde milhares e até milhões de ideias sejam introduzidas e, certamente, vai sobreviver aquela que tem todas as características e potencialidades de ser um sucesso no mercado. E quem é capaz de ter esse volume de ideias? Ora, a universidade. Portanto, ela tem um papel importante em todo o ciclo de inovação porque é onde se exploram muitas ideias e há uma grande chance de se alcançarem novas aplicações, novos conceitos, e de chegarmos às chamadas inovações tecnológicas. Nós, aqui na Universidade, somos grandes consumidores de recursos públicos. A inovação é uma dessas oportunidades de colocarmos um “pezinho” do lado de quem produz, de quem contribui para criar recursos que nós mesmos vamos consumir. 

Qual o papel da Agência USP de Inovação nesse contexto? Que tipo de atividades são realizadas para que se promova a inovação? 

É extremamente importante que a Universidade organize a rotina de uso do conhecimento para transformá-lo em inovação. O que temos tentado fazer na Agência USP de Inovação é criar o hábito rotineiro de aproveitar as ideias e explorar aquelas que têm potencial de se transformar em inovação, ajudando a economia do país. O princípio básico é criar formas de deixar a nossa Universidade num estado tal que sempre iremos aproveitar as boas ideias que sirvam para o avanço tecnológico, criando mecanismos que permitam transferir esse conhecimento para que ele chegue, de fato, ao setor produtivo. E contribua com a economia, com produtos e com a nação, ou mesmo com a solução de problemas da nossa sociedade. Desenvolvemos um leque muito grande de atividades, há em torno de 50 iniciativas: palestras, olimpíadas de inovação, cursos de empreendedorismo para estudantes, apoio à propriedade intelectual dos docentes e pesquisadores, empresa júnior de inovação, atração de empresas para utilizar a nossa Universidade.

Podemos afirmar, então, que existe um grande interesse da Agência USP de Inovação em estimular os alunos a criarem suas próprias empresas?

Nós queremos que uma fração dos nossos estudantes esteja disposta a ser geradora de riqueza, não procuradores de emprego. Então, uma das maneiras de fazer isso é através da formação de empresas. Temos ajudado os alunos que estão dispostos a formar seus próprios negócios indicando como elaborar um projeto para dar início às atividades, licenciando a propriedade intelectual a custo quase zero e também oferecendo uma formação básica, ensinando como se deve conduzir uma empresa nascente. Por isso, disponibilizamos cursos optativos de empreendedorismo e inovação tecnológica num ambiente acadêmico.

A Agência possibilita que se registre uma patente por um preço simbólico?

Sim. Mas o importante não é só tirar a patente. É fundamental que essa patente tenha um valor no mercado. Senão, ela é um prejuízo, não um benefício. O problema é que a clientela brasileira para tecnologia ainda é muito incipiente. Então, estão usando como indicadores de progresso o número de patentes concedidas. Esse é um tipo de indicativo manco, porque não interessa o número de patentes que eu tenho na minha gaveta, mas quantas viraram riqueza. Ou seja, o que tem relevância é o número de patentes que se transformaram em produtos. 

Na sua opinião, o que falta à Universidade para termos um ambiente mais favorável à inovação e à criação de novas empresas?

Em primeiro lugar, a inovação tecnológica não substitui a ciência básica. A inovação é complementar, acontece além da relevância científica. Se você não tiver os pilares que sustentam a inovação, ela não acontece. Tanto é que as grandes instituições inovadoras do mundo são também grandes instituições de pesquisa: Cambridge, MIT, Harvard, Oxford. Só agora o Brasil começou a atingir um estado de produção científica em que é possível pensar na inovação de uma forma mais séria. Não existe milagre, épreciso tempo e continuidade no processo de investimento em ciência e tecnologia. Sem infraestrutura e pessoas qualificadas, ninguém desenvolve tecnologia. É muito comum as universidades conversarem só entre elas sobre inovação, mas têm que conversar com o mundo exterior. 

Como podemos estimular mais a inovação?

Não é estimular. É dar relevância à ciência que se faz. Na sociedade, há cada vez menos espaço para quem faz ciência que não gera nenhum avanço do conhecimento, da cultura, do patrimônio científico da nação e não contribui com o setor produtivo. Em nenhum sistema é possível termos professores em tempo integral que só dão aula, sem orientar alunos e realizar projetos de pesquisa. Não podemos acomodar uma massa que se diz intelectual e não contribui para o avanço do conhecimento, para a preservação do conhecimento nem para a inovação. Um pouco da falta de fôlego em inovação tecnológica das unidades da USP vem do fato dos dirigentes gastarem todo seu tempo administrando. Você toma cinco vezes a mesma decisão em diversas instâncias, em vez de tomá- -la somente uma vez. Essa visão tem que mudar. Toda a Universidade de São Paulo deve passar por um choque de gestão para que possa acordar. Porque senão ela vai falir. Aliás, já está dando os primeiros sinais. 

Em relação especificamente aos estudantes de graduação e pós-graduação, há algo que pode ser feito com eles para estimular o empreendedorismo?

Sim, pois a Universidade ainda é omissa e morosa no que diz respeito a essas iniciativas empreendedoras. Existe um provérbio muito válido que diz assim: de nada vale a pregação sem o exemplo do pregador. Enquanto os professores da USP não praticarem inovação, como irão transmitir isso aos alunos? Toda a ideia da pesquisa na Universidade está calcada no princípio de que devemos ter experiência para ensinar. Como você pode dar uma aula sobre empreendedorismo sem nunca ter entrado em uma empresa, nunca ter vivido nesse ambiente? Estou cheio de ver teóricos da inovação. A que isso leva? Ao fracasso. Só que a própria constituição do Estado, do funcionarismo público, enxerga determinadas iniciativas como proibitivas. Por exemplo, um docente não pode participar de uma empresa com a qual ele colabore. O problema todo é que a falta de regra e a falta de honestidade fazem com que tudo seja duvidoso. No exterior não é assim. Afinal, não é dessa forma que o mundo movimenta as suas engrenagens na inovação tecnológica. O pessoal tem que entender que é muito pior o funcionário público que consome recursos públicos sem dar nada em troca do que o funcionário público que, além de consumir, contribui para a sociedade. O cientista brasileiro ainda se acha desobrigado com essa sociedade. Isso é notável na estrutura das universidades públicas brasileiras. 

De onde vem esse ranço que existe entre a Universidade e os setores produtivos, essa concepção de que esses dois lados não podem se misturar?

Vem do colonialismo e do fato de que o cientista acha a sua ciência superior a qualquer necessidade da sociedade. Todas as universidades latinas são assim. É diferente se você analisa as instituições norte-americanas, europeias e alemãs. Por exemplo: o ganhador do Prêmio Nobel de Física em 2005, Theodor Hänsch, foi também o ganhador do prêmio alemão de inovação tecnológica. Ele ajudou uma empresa. E isso é um orgulho para a Alemanha. Aqui seria uma perversão. Eu não estou querendo ser agressivo com a Universidade. É que se você não identifica o seu problema, você não muda o seu status. Há um outro provérbio que diz: a loucura consiste em fazer a mesma coisa e achar que os resultados serão diferentes. Apesar disso, acho que a USP é a melhor Universidade da América Latina, e, certamente, uma das maiores e melhores do Hemisfério Sul. É uma referência e tem que realmente se preocupar em estabelecer os novos referenciais de pesquisa, de conduta, de contribuição para a sociedade. E a inovação passa por tudo isso.

Há algum diferencial em São Carlos quando tratarmos dessa temática do empreendedorismo e da inovação?

São Carlos é uma cidade que antecedeu as iniciativas de inovação tecnológica no ambiente acadêmico. Há 30 anos, no campus da USP em São Carlos já se formavam empresas, principalmente dentro do Instituto de Física, onde nasceu a primeira fundação de apoio à tecnologia, o ParqTec. Isso aconteceu muito antes do governo e das agências de fomento começarem, institucionalmente, a se preocupar com a inovação. Como a cidade foi pioneira nessa questão, aprendeu, por experiência própria, que algumas coisas funcionam bem e outras não. Hoje, o parque de óptica de São Carlos é o maior do Hemisfério Sul, agrega cerca de 50 empresas da área. A grande mudança que noto é que, agora, a informação está muito acessível e tem permitido que as pessoas contemplem horizontes que antes não eram possíveis.




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quarta-feira, 16 de julho de 2014

ICMCotidiano: nova edição mostra o impacto do ICMC na criação de startups em São Carlos


Empreendedorismo é o tema que permeia a edição número 104 do ICMCotidi@no, revista trimestral do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. A publicação traz como destaque o impacto do ICMC na criação de aplicativos ou empresas da área de tecnologia, que fica cada dia mais evidente quando analisamos o efervescente cenário são-carlense de startups. O assunto estende-se às páginas do “Abre Aspas”, que traz uma entrevista com o coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Bagnato.

As 32 páginas da nova edição trazem, ainda, matérias sobre os principais eventos, visitas e pesquisas realizadas Instituto. Um dos destaques é a editoria "Talentos", que mostra o fruto da união entre a sensibilidade do fotógrafo e a sagacidade do cientista Marinho Andrade. 

A nova edição está disponível em formato PDF no portal do ICMC, e também na plataforma Issuu. Se preferir a versão impressa, basta retirar seu exemplar na Assessoria de Comunicação do ICMC.

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