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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Esses cientistas querem capturar o mundo com redes

Dos neurônios às mudanças climáticas, há uma ciência que está tentando compreender as conexões que regem o nosso mundo. Nesse desafio, matemáticos, cientistas da computação, físicos, meteorologistas, biólogos, engenheiros e químicos trabalham juntos

Somente uma rede interdisciplinar é capaz de capturar as questões que esses pesquisadores querem compreender

Tecer uma rede é uma obra de arte. Tem a rede de pesca, a rede de balanço, a rede de computadores, a rede de telefonia, a rede elétrica, a rede de amigos no Facebook, a rede de neurônios... Há uma infinidade de redes permeando nosso mundo e algumas constituídas por bilhões de componentes. Mas o que existe em comum entre a rede que liga seus amigos no Facebook e a que conecta seus neurônios?

Para responder essa pergunta, precisamos entender como os cientistas que estudam esse tipo de fenômeno analisam as redes. Para começo de conversa, eles transformariam cada pessoa no Facebook ou cada neurônio no cérebro em um ponto. Não satisfeitos com essa nuvem de pontos, eles também avaliariam as relações e conexões que existem entre cada pessoa (são amigas ou não?) e também entre cada neurônio. A seguir, representariam essas conexões por meio de retas. Imagine, agora, o resultado desse trabalho. Perceba que, apesar das duas redes serem realmente muito diferentes, suas estruturas serão muito parecidas. 

O que os cientistas criam quando transformam essas redes em pontos no espaço e os interligam por meio de retas é chamado, tecnicamente, de grafo. Um grafo é um prato cheio para qualquer pesquisador, porque eles podem extrair desse tipo de objeto matemático uma série de informações que, se olhássemos para uma rede complexa de outra forma, seria humanamente impossível analisar. Em um grafo, fica mais fácil identificar os pontos que têm mais conexões e, portanto, são mais centrais naquela rede. 

Com um grafo, fica mais fácil extrair informações relevantes da rede que está sendo estudada

“Se você analisa um neurônio isoladamente, não consegue explicar a memória, a consciência, nada disso. Você precisa olhar como eles estão conectados, ou seja, o todo. Só assim podemos compreender como o nosso cérebro funciona”, explica o professor Francisco Rodrigues, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Essa é outra característica que conecta a rede de seus amigos no Facebook à rede de seus neurônios: eles não podem ser compreendidos de forma isolada, mas somente em relação ao todo. 

“O que acontece se eu tenho uma doença e uma parte dos meus neurônios são eliminados? Qual a consequência do desmatamento na Amazônia para o transporte de umidade ao Sudeste do Brasil? Precisamos de ferramentas que nos respondam esse tipo de pergunta, que levem em consideração os diversos agentes que interagem de forma complexa nesses sistemas, formando redes”, acrescenta Elbert Macau, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). 

Há cinco anos, Elbert coordena, pelo lado brasileiro, o projeto Fenômenos Dinâmicos em Redes Complexas, que une matemáticos, biólogos, cientistas da computação, meteorologistas, físicos, engenheiros e químicos provenientes de 10 diferentes instituições de pesquisa, sendo seis delas do Brasil e quatro da Alemanha. Entre o fim de setembro e o início de outubro, esses cientistas realizaram um evento no ICMC, a quarta edição do ComplexNet – Workshop and School on Dynamics, Transport and Control in Complex Networks. A iniciativa marcou o fim da primeira jornada do projeto e o começo de um novo ciclo, que vai durar mais cinco anos.

Financiado conjuntamente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), o projeto temático já produziu bons resultados como vários artigos publicados em revistas científicas de alto fator de impacto, como a Nature, e promete ir além. Ao propiciar uma melhor compreensão sobre diversos fenômenos, a iniciativa está ajudando a fortalecer um novo campo do conhecimento, que pode gerar impactos relevantes na vida de todos nós.

Elbert é o coordenador do projeto pelo lado brasileiro

Esquizofrenia e epidemias – “O cérebro, o clima, as interações biológicas, as cidades, as redes sociais, os terremotos... O que esses sistemas têm em comum? Você pode representar a estrutura deles como um grafo e pode usar um mesmo conjunto de ferramentas para resolver os diversos problemas que surgem nesses contextos. Uma rede complexa nada mais é do que a estrutura de um sistema complexo”, descreve Francisco. 

As redes complexas têm ajudado o professor na identificação das diferenças entre os cérebros de pessoas saudáveis e daquelas que apresentam esquizofrenia, um transtorno mental que dificulta a distinção entre as experiências reais e imaginárias, interfere no pensamento lógico e tem causas ainda desconhecidas. “A partir de um scanner de ressonância magnética, mapeamos o cérebro e analisamos os dados das redes corticais. Quando a pessoa tem a doença, o cérebro é menos organizado em determinadas regiões do que o de uma pessoa que não tem”, relata Francisco. Para identificar essa desorganização cerebral, o modelo matemático desenvolvido na pesquisa extrai e analisa 54 características das redes corticais e consegue identificar, com 80% de precisão, qual ressonância pertence a um paciente que tem o distúrbio. Agora, o próximo passo é aplicar o mesmo método para diagnosticar outros tipos de transtornos como o autismo (assista ao vídeo).

Esse é apenas um exemplo do tipo de trabalho que vem sendo realizado no campo da neurociência com as redes complexas e que poderá, por meio da criação de modelos matemáticos computacionais, facilitar o diagnóstico médico futuro de uma série de distúrbios. Na biologia, as redes complexas também têm sido empregadas para construir mapas que ajudam a compreender as interações entre nossos genes, as proteínas, os processos metabólicos e outros componentes celulares.

Agora imagine o que acontece quando uma epidemia se propaga. Nesse caso, também existe toda uma rede complexa que precisa ser melhor compreendida pela humanidade para que possamos conter a disseminação de uma doença contagiosa, por exemplo. “Nesse caso, entender os tempos corretos de diagnóstico e isolamento é fundamental para a saúde da população”, conta o professor Tiago Pereira, do ICMC. Ele coorientou a pesquisa de doutorado do matemático alemão Stefan Ruschel, da Universidade de Humboldt, em Berlim. Utilizando bases de dados da Organização Mundial da Saúde sobre a gripe H1N1, os pesquisadores estudaram como extinguir a doença. A população foi dividida em três grupos: saudáveis, doentes e isolados. A partir de modelos matemáticos, foi calculado o tempo ideal para identificação da doença bem como o tempo de isolamento necessário para a cura (assista ao vídeo). 

“O mais importante, nessas doenças, é o tempo de identificação. Se você consegue rastrear todos os doentes em nove dias e curá-los ou colocá-los em quarentena, a epidemia será controlada”, revela Stefan. “No caso da H1N1, depois de 30 dias não há mais chance de se controlar a doença”, acrescenta o alemão. “O prazo de nove dias é economicamente inviável porque você teria que diagnosticar muita gente em pouco tempo”, pondera Tiago. Ele explica que, considerando-se a inviabilidade desse diagnóstico em tão pouco tempo, passa a ser decisivo, para o controle da epidemia, manter os doentes isolados no tempo ideal. “Se você isolar a pessoa por um tempo ideal, a doença é extinta, mas se você isolar a pessoa além desse tempo, a doença vai reaparecer”, conclui.

Tiago destaca que, no caso da H1N1, manter os doentes isolados no tempo ideal é decisivo

Secas, chuvas e ventos – Pense agora na atmosfera terrestre. “Ela é um fluido, não tem nenhuma fronteira a não ser a superfície e o espaço. O que acontece no Oceano Pacífico ou no Índico pode nos influenciar”, conta o pesquisador Gilvan Sampaio, do INPE. Na opinião dele, o ferramental das redes complexas possibilita avançar na compreensão dos fenômenos climáticos e meteorológicos em comparação com as técnicas tradicionais que são usadas, há pelo menos 30 anos, pelos cientistas que atuam nessa área.

O professor Henrique Barbosa, do Instituto de Física da USP, diz que os primeiros artigos científicos que tratam da aplicação das redes complexas no contexto da climatologia e da meteorologia são bastante recentes, datam de cerca de 10 anos atrás. Ele dá um exemplo para explicar como essas redes podem ser empregadas para capturar a complexidade do clima no mundo. Comece analisando a quantidade e a distribuição das chuvas em todo o planeta nos últimos anos. Uma maneira de estudar se há uma relação entre esse índice pluviométrico e a variação de temperatura na superfície do mar em todo o mundo é considerar que cada posição no globo é um nó em uma rede complexa, um pontinho no papel: “Eu só vou ligar um par de pontos se houver uma correlação alta entre a precipitação em um e a temperatura do mar no outro. No final, eu tenho muitos pontos, com muitas linhas conectadas. Então, passo a estudar esse objeto matemático”.

Esse objeto, que representa a relação entre a quantidade de chuva e a variação de temperatura na superfície do mar em todo o globo, pode ajudar os cientistas a entenderem se essas chuvas estão conectadas a fenômenos como o El Niño, que consiste na mudança da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico. Note que esse objeto é também um grafo e que as ferramentas empregadas para analisá-lo são as mesmas que outros cientistas usaram para ver como funcionam as redes que conectam os neurônios do seu cérebro e também seus amigos no Facebook.

“Nós usamos a técnica de redes complexas para entender os eventos extremos de precipitação da América do Sul. Tem uma vasta literatura científica a respeito da umidade que vem da Amazônia, que é transportada pelos jatos de baixos níveis para a região do Sudeste, os quais são ventos bem acelerados que vêm da Amazônia em direção ao Sudeste. Quando isso está acontecendo, detectamos mais chuvas e tempestades por aqui”, revela Barbosa. “Nós então construímos uma rede complexa para representar os eventos extremos de precipitação. O que descobrimos foi que esses eventos extremos se propagam de sul para norte (da Bacia do Prata em direção aos Andes Bolivianos), em direção contrária ao fluxo de umidade que vem da Amazônia. Essa análise também nos permitiu criar um modelo que, com 24 horas de antecedência, prevê a ocorrência de chuva extremas no planalto Andino”, completa o professor. As conclusões estão destacadas no artigo Prediction of extreme floods in the eastern Central Andes based on a complex networks approach, publicado em 2014 na Nature Communications.

Henrique cita, ainda, diversas outras pesquisas em que as redes complexas têm contribuído para o avanço do conhecimento, tal como o trabalho do grupo mostrando que 25% das chuvas na região sudeste é de água da floresta Amazônica, publicado em 2014 na revista Atmospheric Physics and Chemistry (On the importance of cascading moisture recycling in South America). “As redes complexas permitem a você quantificar e analisar problemas que são intrinsecamente não lineares. Por meio da análise das redes você consegue inclusive determinar se as equações que estão regendo os fenômenos observados – ainda que você não as conheça – são lineares ou não lineares. Isso é algo que a gente não consegue quando usa os métodos tradicionais”, explica o professor. 

Para Gilvan, um dos maiores desafios dos pesquisadores envolvidos no projeto é “falar a mesma língua”: “Tanto nós da área de meteorologia e climatologia precisamos entender mais sobre redes complexas, quanto os matemáticos, cientistas e engenharias de computação precisam entendem mais sobre clima”. Como as questões que esses pesquisadores querem compreender são muito complexas, não é de se surpreender que somente uma rede interdisciplinar seja capaz de capturá-las.

Henrique destaca que 25% das chuvas na região sudeste é de água da floresta Amazônica

Satélites, energia, lasers e inovação – “Estamos vivendo em um mundo em que a palavra que permeia tudo é interação”, diz Elbert Macau. Além de coordenar o projeto Fenômenos Dinâmicos em Redes Complexas, ele estuda como tornar nossos sistemas de observação mais potentes: “Quando você coloca um conjunto de instrumentos de observação, quer sejam telescópios ou radiotelescópios, cada um em um satélite, tem-se um conjunto deles que precisam se deslocar no espaço mantendo uma determinada formação para que você possa, virtualmente, compor uma antena imensa a partir dessas pequenas antenas”. Lembre-se de que a distância entre esses satélites pode ser de centenas até milhares de quilômetros. Nesse contexto, aparecem diversos problemas. “Essa geometria tem que poder ser alterada, porque você às vezes tem que substituir um satélite, alterar a resolução, dividir a formação para observar outros lados da Terra ou do universo. Para isso, tenho que saber como essa rede se estrutura e o acoplamento entre os satélites é fundamental”.

Depois de falar do que podemos enxergar a partir do acoplamento de satélites, Elbert mergulha no sistema de distribuição de energia: “No modelo tradicional, você tem geradores e consumidores estruturados em uma determinada rede. Por si só, isso já é uma coisa complicada”. A questão é que, atualmente, essa estruturação em rede está se tornando ainda mais complexa porque não existe apenas uma central elétrica geradora de energia: “Você pode ter uma fazenda que seja alimentada por um gerador eólico. Nesse caso, quando tem vento, há geração de energia para o local, mas quando não tem, a fazenda se torna consumidora. Há, ainda, residências com células fotovoltaicas e estamos começando a instalar sensores piso elétricos em pontes, estradas, viadutos, estádios para que possam gerar energia. Isso tudo cria um sistema de redes que altera a sua configuração ao longo do tempo”.

A inovação trazida para a ciência por esses pesquisadores de redes complexas é difícil de mensurar. O mestrando Felipe Eltermann, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp, ingressou na área meio por acaso. Formado em Engenharia de Computação, ele começou a atuar em uma consultoria que realiza serviços de prospecção tecnológica. “Coletar dados relacionados a patentes não é algo simples”, diz. A partir dessa experiência, ele começou a se interessar por realizar uma pesquisa científica e, em conjunto com uma professora da área de economia, passou a atuar em um projeto que tem como objetivo construir um mapa da evolução da inovação tecnológica no Brasil: “A economia evolucionária compreende a economia como um sistema em constante evolução, que se transforma por dentro, e tem a inovação tecnológica como o que guia e possibilita seu crescimento econômico. Desse ponto de vista, a gente analisa a rede de patentes. Assim, você tem as patentes, as empresas e as pessoas, tudo interconectado ao longo do tempo”.

Para Felipe, o campo das redes complexas parece muito promissor. Há muitos indícios de que ele está certo. “As redes estão no coração de algumas das mais revolucionárias tecnologias do século XXI, empoderando tudo, do Google ao Facebook”, escreve o professor Albert-László Barabási no livro Network Science. Ele lidera um centro de pesquisa em redes complexas na Universidade Northeastern, em Boston, nos Estados Unidos. Para o professor, as redes permeiam a ciência, a tecnologia, os negócios e a natureza em um grau muito mais elevado do que podemos imaginar à primeira vista e, consequentemente, nós nunca vamos entender os sistemas complexos a menos que sejamos capazes de desenvolver uma profunda compreensão sobre as redes que existem por trás deles. Não é à toa que há tantos cientistas tentando capturar o mundo com essas redes.

Para Felipe, o campo das redes complexas parece muito promissor

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Créditos das fotos: primeira imagem (grupo) - Reinaldo Mizutani; segunda imagem (grafo) - Martin Grandjean; demais imagens - Denise Casatti.

Mais informações
Site do projeto Fenômenos Dinâmicos em Redes Complexas: http://www.inpe.br/redes_complexas_e_dinamica/
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Games, psicologia, mudanças climáticas e envelhecimento agitam segunda noite do Pint of Science

Temas foram debatidos em três diferentes bares da cidade, que atraíram cerca de 270 pessoas no total

Vacas, puns, arrotos e seus efeitos sobre o planeta foi o tema do bate-papo no Vila Brasil
Comandar o personagem de um jogo de vídeo game através de palmas e tapas em uma mesa. Foi assim que começou o debate sobre games na psicologia e a psicologia dos games no Beatniks Road Bar. Enquanto isso, no restaurante Mosaico, o público era apresentado a duas diferentes correntes que estudam o envelhecimento humano. A poucos metros dali, no boteco Vila Brasil, perguntava-se: será que podemos colocar a culpa nas vacas quando falamos sobre as emissões de gases de efeito estufa?

Esses foram os três temas discutidos durante a segunda noite do festival internacional de divulgação científica Pint of Science, que aconteceu na última terça-feira, 24 de maio, em São Carlos. Realizado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, o evento prossegue nesta quarta-feira, 25 de maio, com mais três bate-papos nos três bares que sediam a iniciativa (confira a programação).

No Beatniks, o psicólogo e pós-doutorando do ICMC, Leonardo Marques, ensinou três séries de comandos ao público a fim de guiar o personagem de um game: palmas e tapas na mesa se alternavam para levá-lo a avançar, agachar ou saltar. O objetivo era treinar organização social, memória e despertar a competição.

No Beatniks, a discussão foi sobre a relação entre os games e a psicologia

Depois da atividade, foi a vez de Maria de Jesus dos Reis, professora do Departamento de Psicologia da UFSCar, lembrar que os primatas e mamíferos também realizam jogos e que eles são muito importantes para o nosso desenvolvimento. “Os jogos humanos têm relação com hábitos sociais, pois vivemos em grupo e, desde cedo, jogamos e vivenciamos essa interação, como em canções infantis e brincadeiras”, disse a professora. Ela ressaltou que os jogos são usados na área da saúde para promover a reabilitação física, combater a depressão e até mesmo o câncer.

A seguir, Gabriel Lima, coordenador de desenvolvimento de jogos na Ludo Educativo, falou sobre o desafio de desenvolver jogos educativos. Para ele, é fundamental mudar o estereótipo que existe sobre esse tipo de game, considerado por muitos como chato. “Ao desenvolver um jogo, é preciso criar um cenário imersivo e tomar cuidado com a trilha sonora”, destacou.

Para encerrar o debate, o professor Seiji Isotani, do ICMC, lançou perguntas que instigaram o público. O docente questionou, por exemplo, se jogos violentos geram violência. A pergunta abriu um debate interessante entre uma minoria que defendia que sim e a maioria, que não. Depois de ouvir os argumentos dos dois lados, o professor disse que há estudos que apontam que esses jogos realmente fazem com que aumente a agressividade de crianças, contrariando o senso comum.

Vacas, puns e arrotos – No Vila Brasil, um tema polêmico esquentou a noite fria: o impacto da pecuária nas emissões de gases de efeito estufa. Para a pesquisadora Patrícia Anchão Oliveira, da Embrapa Pecuária Sudeste, há muita desinformação quando se aborda esse tema. Ela ressaltou que não se pode considerar apenas o animal de forma isolada quando se avalia as emissões, mas que se deve levar em conta todo o sistema de produção. Segundo ela, os resultados de pesquisas nessa área têm demonstrado que é possível mitigar as emissões de gases de efeito estufa com manejo adequado do animal e das pastagens, uso apropriado de insumos, melhoramento genético, adoção de sistemas integrados de árvores, pastagem e agricultura e manejo nutricional.

Carlos e Patrícia falaram sobre o impacto da pecuária nas emissões de gases de efeito estufa
Já o professor Carlos Henrique Prado, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apresentou para o público um experimento realizado em Ribeirão Preto para saber se as pastagens brasileiras vão suportar o aquecimento global. O experimento simulou um clima com aumento de temperatura e de gás carbônico e os resultados não foram animadores. De acordo com Carlos, o Brasil tem uma vantagem enorme na pecuária em relação aos outros países porque tem uma área grande de pastagem. “O país é hoje o maior exportador de carne do mundo. A pastagem é o que sustenta essa vantagem de produção de carne. Com o experimento, queríamos saber se nossas pastagens teriam condições de sustentar essa vantagem com as mudanças climáticas”, contou.

O público mostrou-se bastante interessado pelo debate e preocupado com o futuro do planeta com o aumento das emissões de gases de efeito estufa e as mudanças climáticas. Os questionamentos foram desde as comparações entre as emissões dos animais e os automóveis até o uso de tecnologias para redução das emissões. “As perguntas, que estavam previstas para acontecer apenas no final das apresentações, começaram a surgir antes. O público quer se informar e a ciência precisa ir onde as pessoas estão, porque elas são curiosas e têm sede de informação. O evento foi fantástico para isso”, afirmou a jornalista Simone Bezerra, da Rádio UFSCar, que mediou o debate. “Foi diferente, porque a gente fica muito preso em sala de aula, em palestras, em ambientes acadêmicos. Em um lugar mais descontraído, você acaba sendo até mais criativo”, concluiu Carlos.

Sem medo de envelhecer – “Nós fomos feitos para morrer aos 40 anos”, afirmou a professora Márcia Cominetti, do Departamento de Gerontologia da UFSCar, na abertura do bate-papo Envelhecimento: o que acontece com nosso corpo e como a tecnologia pode nos ajudar, que aconteceu no restaurante Mosaico. Ela apresentou as duas correntes científicas que estudam o envelhecimento: uma delas explica esse processo baseando-se nos nossos genes e a outra acredita que o envelhecimento é fruto das agressões do ambiente. “Na verdade, não podemos ignorar nosso código genético nem o ambiente”, destacou.

Márcia chamou a atenção para as perdas e o ganho da nossa jornada rumo à velhice e explicou como é possível retardar o processo por meio de uma alimentação saudável, da prática de exercícios físicos e da adoção de uma dieta com restrição calórica. Esse último caso se refere a uma dieta em que a pessoa passa a consumir cerca de 30% menos calorias do que consome normalmente.

Depois, foi a vez da professora Alessandra Rossi Paolillo, do Departamento de Terapia Ocupacional da UFSCar, mostrar como a tecnologia pode contribuir com os idosos. Ela apresentou diversos exemplos de aparatos tecnológicos que podem ajudar quem é acometido por demências, câncer e derrame a se tornar mais independente e ter uma melhor qualidade de vida. A professora é pesquisadora do Grupo de Óptica do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) e mostrou como foi desenvolvido o protótipo de um aparelho criado pelo Grupo para combater a osteoartrose, uma doença reumática que afeta as articulações do corpo provocando dor e limitando os movimentos. O protótipo combina o uso simultâneo do laser e do ultrassom e resultou no depósito de uma patente.

Alessandra mostrou o protótipo do aparelho criado pelo Grupo de Óptica do IFSC

Em São Carlos, o Pint of Science conta com o apoio do  Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC). Em âmbito nacional, há o patrocínio da Elsevier.

Texto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação ICMC/USP
Com a colaboração de Gisele Rosso e Henrique Fontes

Mais informações
Site do evento: www.pintofscience.com.br
Assessoria de comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

terça-feira, 17 de maio de 2016

Venha brindar a ciência na capital da tecnologia

São Carlos terá nove bate-papos gratuitos em três diferentes bares nas noites dos dias 23, 24 e 25 de maio durante o festival Pint of Science

Primeira edição do evento foi tão bem-sucedida que, este ano, iniciativa se espalhou para mais seis cidades

Sentar na mesa de um bar para uma conversa descontraída sobre a epidemia de Zika, o medo da matemática, o desafio de empreender, a psicologia dos games, as mudanças climáticas, o envelhecimento, a inteligência artificial, a comunicação científica e as ondas gravitacionais. Essa é a proposta do Pint of Science em São Carlos, o festival internacional de divulgação científica que acontecerá em três bares da cidade na próxima semana, durante os dias 23, 24 e 25 de maio. 

Realizado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, a iniciativa ocorreu pela primeira vez no Brasil no ano passado. A proposta de levar os cientistas para falar diretamente com o público em um ambiente descontraído deu tão certo que várias pessoas procuraram o Instituto para saber como poderiam promover o festival em suas cidades. Resultado: este ano o Pint of Science espalhou-se para mais seis cidades brasileiras e acontecerá na capital paulista, fluminense, mineira e nas cidades de Ribeirão Preto, Campinas e também em Dourados, no Mato Grosso do Sul. 

É como se fosse um grande festival de música, em que os artistas se apresentam simultaneamente em vários palcos a cada noite. Só que, nesse caso, os artistas são os pesquisadores e demais participantes convidados para conversar com o público.

Durante as três noites do evento em São Carlos, o público poderá participar gratuitamente de nove debates que acontecerão em três bares: no Beatniks, no Mosaico e no Vila Brasil. A cada noite, a partir das 19h30, três temas atuais serão discutidos (veja a programação completa abaixo). O evento é gratuito e as pessoas só pagarão o que consumirem nos locais em que ocorrerá cada bate-papo. Como não são realizadas inscrições ou reservas antecipadas, para garantir um lugar é preciso chegar antes das vagas se esgotarem.

Em São Carlos, o evento conta com o apoio do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP, e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Em âmbito nacional, há o patrocínio da Elsevier.

São Carlos foi a primeira cidade da América Latina a participar do evento

Mais 11 países – Além do Brasil, outros 11 países vão realizar o Pint of Science nos dias 23, 24 e 25 de maio: África do Sul, Alemanha, Austrália, Áustria, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Irlanda e Itália. Uma rede global com mais de 100 cidades será construída especialmente para brindar a ciência durante o festival, que começou na Inglaterra em maio de 2013. 

A ideia surgiu quando dois pesquisadores do Imperial College London, Michael Motskin e Praveen Paul, organizaram um evento chamado Encontro com pesquisadores em 2012. Nesse encontro, pessoas acometidas por Alzheimer, Parkinson, doenças neuromusculares e esclerose múltipla foram convidadas para conhecer os laboratórios dos pesquisadores e ver de perto o tipo de pesquisa que realizavam. A experiência foi tão inspiradora que os dois decidiram propor um evento em que os pesquisadores poderiam sair de seus laboratórios para conversar diretamente com as pessoas. Nasceu, assim, o Pint of Science, que rapidamente se espalhou pelo mundo.

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC
Fotos: Paulo Arias
Mais informações
Site do Pint of Science: www.pintofscience.com.br

Contato para esta pauta
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

PROGRAMAÇÃO DO PINT OF SCIENCE EM SÃO CARLOS


Segunda-feira, 23/05, às 19h30



Terça-feira, 24/05, às 19h30

  • Os games na psicologia e a psicologia dos games. Onde: Beatniks.

  • Envelhecimento: o que acontece com o nosso corpo e como a tecnologia poderá nos ajudar. Onde: Mosaico.

  • Vacas, puns, arrotos e seus efeitos sobre o planeta. Onde: Vila Brasil.

Quarta-feira, 25/05, às 19h30

  • Meu emprego, minha vida: o que muda na era da Inteligência Artificial. Onde: Beatniks.

  • Surfando nas ondas gravitacionais. Onde: Mosaico.

  • Ciência com cor e sabor: comunicação científica, jornalismo literário e suas possibilidades. Onde: Vila Brasil.