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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Domingo é dia de maratona na USP São Carlos: venha saciar sua sede de ciência

Das 15 às 18 horas, público poderá conferir uma sequência de apresentações rápidas sobre ciência e ajudar a escolher os vencedores do Divulgathon, uma maratona de divulgação científica

Os responsáveis pelas três melhores apresentações de domingo serão convidados para participar da edição são-carlense do festival internacional de divulgação científica Pint of Science em 2020

Compartilhar os conhecimentos que são gerados pelos pesquisadores das universidades brasileiras diretamente com o público, de um jeito atraente e descomplicado. Este é um dos objetivos de um evento gratuito que acontecerá no próximo domingo, 27 de outubro, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. 

Será uma verdadeira maratona de divulgação científica, que vai começar às 15 horas e prosseguirá por três horas, tempo em que o público poderá assistir a uma sequência de apresentações rápidas sobre os mais diversos conceitos científicos. Esta será a primeira edição do Divulgathon: ciência sem barreiras, em que 57 maratonistas vão se revezar no palco do auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, no bloco 6 do Instituto, para compartilhar seus conhecimentos com o público. 

Durante o evento, uma banca de jurados vai acompanhar as apresentações e avaliá-las. O público também poderá ajudar a escolher os vencedores da maratona de divulgação científica. No final do evento, os responsáveis pelas três melhores apresentações serão convidados a participar da edição são-carlense do maior festival de divulgação científica do mundo, o Pint of Science, que já tem data marcada: 11, 12 e 13 de maio de 2020. 

Aquecimento – No sábado, 26 de outubro, um dia antes das apresentações públicas, os 57 inscritos no Divulgathon participarão de um workshop para preparem suas apresentações. Será um treinamento intensivo, das 9 às 18 horas, que será ministrado no auditório Luiz Antonio Favaro, no bloco 4 do ICMC. Diversos especialistas foram convidados para abordar conteúdos relacionados à comunicação pública da ciência. Também haverá exercícios práticos para despertar a criatividade, aprimorar as habilidades de comunicação oral, o trabalho em equipe e a capacidade de autorreflexão dos participantes em relação a como fazem divulgação científica e a como poderiam fazer melhor. 

O resultado desse treinamento intensivo poderá ser conferido na tarde de domingo, durante o Divulgathon. Além de preparar os atletas para a maratona, o treinamento tem como objetivo estimular que mais pessoas se dediquem à popularização do conhecimento científico. 

O evento é realizado pelo ICMC com apoio da Prefeitura Municipal de São Carlos, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Ciência, Tecnologia e Inovação, marcando o encerramento das atividades da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), que acontece de 21 a 27 de outubro. Ainda como parte da SNCT, o ICMC realizará na próxima quarta-feira, 23 de outubro, o seminário Além da sala de aula do amanhã: o impacto da inteligência artificial na educação. O seminário também é gratuito, aberto a todos os interessados e será realizado no auditório Fernão Stella Rodrigues Germano a partir das 15 horas. 

Seminário vai debater as ferramentas de inteligência artificial que já estão sendo aplicadas no meio educacional e abordará também o estado da arte na pesquisa da área e as futuras possibilidades

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 

Mais informações 
Confira a programação completa da SNCT na USP São Carlos: icmc.usp.br/e/25073
Confira quem são os 57 maratonistas: icmc.usp.br/e/3305f
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por que é preciso repensar as técnicas de ensino da matemática?

Pesquisas têm mostrado que a aversão à matemática pode estar intimamente relacionada à maneira como ela é apresentada

O origami pode tornar as aulas de geometria mais interessantes
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

É bastante comum vermos pessoas afirmando que não gostam de matemática. Provavelmente, você conhece várias – e pode até mesmo ser uma delas. Claro, não há problema algum em não ter afinidade com a matemática (ou com qualquer outra área do conhecimento). A questão é que, muitas vezes, esse desinteresse é causado pela forma como o conteúdo nos é ensinado e isso faz com que muitos estudantes se distanciem dessa ciência sem sequer terem a chance de conhecê-la com mais profundidade.

Professor da University of Frankfurt, David Kollosche pesquisou, na Alemanha, as razões desse distanciamento, quais seus riscos e como esses estudantes se sentem com relação à matemática. Ele apresentou seu estudo, intitulado Auto-exclusion in mathematics education (auto-exclusão na educação matemática), no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, no fim de setembro. Apesar de ter sido aplicado na Alemanha, o professor afirma que os resultados obtidos na pesquisa podem ser semelhantes em outros lugares do mundo.

Segundo ele, o medo que muitos estudantes estabelecem com a matemática pode até resultar em uma relação de dominação. “Um grande grupo de pessoas aprende que a matemática não é para elas. Silenciar pessoas dessa forma pode servir como função sociopolítica e econômica”, afirma.

Em sua pesquisa, realizada com 199 estudantes do ensino fundamental, ele constatou que mais de um terço dos estudantes têm uma relação negativa com a matemática. Essa negatividade pode levar à chamada auto-exclusão, que inclui três categorias de distanciamento do aluno da educação matemática: a exclusão física, quando o aluno deixa de ir às aulas; a passividade intelectual, quando ele apenas “passa” pelas aulas; e a de incapacidade, que é quando o estudante assume que não tem habilidade matemática.

Com o questionário aplicado aos estudantes durante a pesquisa, David identificou as razões pelas quais os alunos não gostam da área e, consequentemente, os motivos pelos quais se auto-excluem da matemática. “Uma prática de ensino humilhante ou sua falta de individualização pode levar à auto-exclusão, que acaba sendo intensificada pela forma de ensino”, explica David.

Então, se o problema está na escola, como pensar em formas de melhorar o ensino e deixar a matemática mais interessante para os estudantes? O que está sendo estudado nessa área para que os alunos não se auto-excluam antes de terem a chance de conhecê-la?

David veio ao ICMC em setembro e apresentou os resultados
de sua pesquisa sobre auto-exclusão na matemática
(crédito da imagem: Alexandre Wolf)

Explorar sem sair da escola - Quando uma professora do ensino fundamental sentiu que seus alunos estavam pouco participativos nas aulas, percebeu que era hora de agir e mudar. Estamos falando de Lucimar Mascarin, que é professora de matemática em uma escola estadual de Divinolândia, no interior de São Paulo, e formou-se no Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), no ICMC, em setembro deste ano.

Em sua tese, ela realizou uma pesquisa-ação com alunos do 9º ano de sua escola, em que desenvolveu técnicas lúdicas e exploratórias para melhorar o ensino matemática. Mais do que mostrar que é preciso mudar algumas técnicas de ensino, sua tese demonstra que não precisam ser realizadas atividades complexas para aumentar o engajamento dos alunos. A escolha da classe foi feita com base em dois motivos: a dificuldade em aprender matemática e o desejo de ter aulas diferentes. “No geral, eram alunos que, em questão de aprendizagem, apresentavam grande potencial de evolução. A sala iniciou o ano letivo com pouca participação, mas após alguns meses já conseguiam se organizar melhor e participar da rotina”, afirma Lucimar.

O enfoque de sua pesquisa foi a trigonometria e, para isso, ela desenvolveu diversas iniciativas. Entre elas, estava a criação de triângulos em papel para compreender os conceitos de relação entre triângulos e a realização de atividades experimentais fora da sala de aula. Ela levou os alunos para diversos lugares da escola com o objetivo de medirem a altura das construções e postes, utilizando um teodolito confeccionado pelos próprios estudantes. Com as informações adquiridas, eles voltaram à sala de aula para realizarem os cálculos e, assim, comprovarem teorias.

Lucimar também convidou o pai de um dos alunos, que é marceneiro, para explicar como utiliza conceitos matemáticos em sua profissão. “Com essas atividades, os alunos puderam relacionar a trigonometria com problemas da vida prática, gerando significados culturais para os conhecimentos escolares. Além disso, com as entrevistas, puderam confirmar o uso da matemática na prática profissional”, explica.

Fora da sala de aula, a professora também fez com que os alunos medissem superfícies circulares, para que calculassem circunferência e diâmetro e, assim, compreendessem a teoria na prática. Já dentro da sala de aula, Lucimar levou o jogo “trigominó”, uma espécie de dominó onde as peças possuem funções trigonométricas.

Entretanto, apesar dos resultados positivos, Lucimar alerta para a forma com os métodos devem ser empregados: “esse tipo de abordagem toma um tempo considerável para trabalhar os conteúdos matemáticos. Por isso, devem ser mesclados a outras metodologias, pois cada uma tem seu benefício. Cabe ao bom professor diagnosticar, avaliar e tomar essas decisões”.

Alunos de Lucimar jogam o trigominó
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

Geometria na palma da mão - Outra pesquisa que apresentou técnicas alternativas de ensino e também foi realizada no ICMC durante o PROFMAT foi a de Marília Tridapalli. Ela se formou no mestrado em março deste ano e apresentou um trabalho com práticas de ensino de geometria utilizando origami modular.

Para promover a aprendizagem da geometria, ela utilizou o origami, que pode ser um recurso manipulável bastante eficaz. “O aluno precisa ter o contato com as formas geométricas que constam nos livros didáticos para que concretize aquela ideia que, até então era abstrata, pois estava apenas desenhada”, diz a pesquisadora, que montou os chamados poliedros de Platão utilizando origamis modulares, que são formados pelo encaixe de vários papéis iguais ou simétricos.

Marília acredita que os resultados obtidos com o origami modular podem contribuir muito para o ensino da geometria no ensino fundamental, porque desperta o interesse e a curiosidade dos alunos por meio de objetos manipuláveis e elaborados por eles mesmos. “O professor pode criar suas próprias práticas e diversificar suas aulas. As sugestões são uma pequena parte do grande leque de possibilidades de aplicação desses objetos”, conclui a professora.

Marília durante a defesa de seu mestrado no PROFMAT
(crédito da imagem: Denise Casatti)
Texto: Alexandre Wolf - Assessoria de Comunicação do ICMC

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DO ESPECIAL DO JORNAL DA USP
"A MATEMÁTICA ESTÁ EM TUDO": http://jornal.usp.br/especial/matematica/

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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Veja as imagens marcantes da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia


"A matemática está em tudo" foi o tema deste ano da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que aconteceu do dia 23 a 29 de outubro. No Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, foram realizadas diversas atividades gratuitas e abertas ao público que mostraram como a matemática está presente no nosso dia a dia e contribui para explicar a beleza, as contradições e as transformações constantes do nosso universo.

O vídeo da abertura do evento, que contou com uma palestra sobre sincronização, ministrada pelo professor Hildebrando Rodrigues, está disponível no Youtube neste link: icmc.usp.br/e/cce78. Já algumas imagens marcantes da Semana podem ser conferidas nos álbuns de fotos disponíveis no Flickr e no Facebook!

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A matemática que habita os objetos ao seu redor

Não importa se você tem diante de si um celular, um computador, um papel, uma caneta. Olhe para eles como um matemático que só enxerga formas geométricas e a lista se reduzirá a cubos, esferas, cilindros... Descubra, agora, como é esse mundo para os especialistas em topologia

“Tudo o que tocamos no mundo concreto é tridimensional”, diz o professor Ton

Você é capaz de pegar um ponto no colo? Já se encostou em uma reta ou entrou dentro de um plano? “Tudo o que tocamos no mundo concreto é tridimensional”, diz o professor Ton Marar, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Portanto, conclui Ton, nós nunca conseguiremos pegar um ponto, encostar na reta ou entrar dentro de um plano. Simplesmente porque foram os matemáticos dedicados a estudar geometria que criaram pontos, retas e planos para representar as coisas do nosso mundo nas lousas e folhas de papel. Pontos, retas e planos só existem no universo das ideias.

Observe Ton e entenda melhor como isso funciona. Ele é um matemático do tipo inquieto: gesticula impacientemente enquanto fala sobre as formas e suas dimensões. O espectador que assiste a sua palestra, em uma manhã da semana, no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, na USP em São Carlos, pode facilmente imaginar as mãos de Ton tocando o cubo projetado no telão. Mas, como bem explicou o professor no começo deste texto, é impossível tocá-lo, já que é só uma projeção que aparece na tela.

Lembro-me do fascínio da minha filha quando, pela primeira vez, desenhei para ela dois quadrados parcialmente sobrepostos e os uni com retas saindo dos cantinhos (vértices). Claro que, naquele desenho que fiz do cubo, nem todas as linhas e ângulos que construí eram perfeitamente iguais. Essa distorção não ocorreu apenas por causa da minha pouca habilidade artística. Pense que, na vida real, os cubos têm sempre três dimensões: podemos movimentá-los para esquerda e para a direita, para cima e para baixo, ou ainda, para frente e para trás. Mas no papel só há duas dimensões: não podemos desenhar o cubo atravessando a folha de papel, com uma parte para frente e a outra para trás. Essa impossibilidade é matematicamente explicada e compreendida: é o preço que pagamos para representar um objeto de três dimensões em um espaço de duas dimensões.

Aliás, provavelmente, a maioria das pessoas que leem este texto estão dentro de cubos, inseridas em cômodos de edifícios ou casas, por exemplo. Essas mesmas pessoas concluem, sem nenhuma dificuldade, a impossibilidade de entrar no cubo que desenhei para minha filha e de Ton tocar o cubo projetado na tela do auditório. O mais complicado é pensar que, pelo menos matematicamente, existe um mundo com dimensões que vão além dessas três com as quais estamos acostumados. “Apenas por meio das projeções é que conseguimos entender como seria um objeto da quarta dimensão”, explica Ton.

Imaginativos como são, os matemáticos inventaram uma maneira para mergulharmos nesse universo que não podemos ver muito menos tocar. Há todo um campo dedicado a estudar essa essência das formas: chama-se topologia. Nesse mundo abstrato da topologia, não importa se temos um traço reto na horizontal, na vertical ou uma curva. Ela será compreendida simplesmente como uma linha aberta. Também pouco interessa se temos quadrados, triângulos, retângulos, hexágonos ou círculos. Para os especialistas em topologia, tudo isso não passa de linhas fechadas. Essas linhas, quer sejam abertas ou fechadas, podem passar continuamente por transformações e, depois, há sempre a possibilidade de desfazer essas modificações.

Entre as superfícies topológicas mais conhecidas está uma que pode até assustar à primeira vista: a Fita de Möbius. Apesar do nome, não têm nada de complicado. Você pode construir uma superfície dessas sem qualquer dificuldade: recorte uma tira de papel longa o suficiente para pode colar as duas pontas (pense em algo com, no mínimo, cerca de 30 centímetros de comprimento). Mas, antes de colar as extremidades, faça uma torção (dê meia volta, girando 180 graus) e, só então, cole as pontas, deixando aquela volta esquisita exposta. Pronto: você tem nas mãos uma Fita de Möbius (veja a imagem).
Esta imagem é uma reprodução da gravura “Banda de Möbius 2”, criada pelo artista Escher em 1963. Ele se inspirou na famosa Fita de Möbius, apresentada em 1858 pelo matemático August Ferdinand Möbius – Imagem: Divulgação
Imagine que essa faixa é grande o suficiente para ser considerada uma autoestrada e você decide pegar seu carro e sair dirigindo por ela seguindo a linha central. O que acontecerá? Ao final do percurso, você voltará ao ponto de partida, mas de cabeça para baixo. Ora, estamos em um caminho sem fim nem início. Quando estiver dirigindo, olhe para os lados e responda: você está percorrendo a parte interna ou a parte externa da estrada? Tenho certeza de que não conseguirá responder à pergunta porque a Fita de Möbius aparenta ter dois lados, mas só tem um. Essa é, aliás, uma característica das chamadas superfícies não orientáveis, ou seja, superfícies nas quais não é possível definir um interior e um exterior. Algumas correias e esteiras rolantes são construídas tal como a Fita de Möbius a fim de possibilitar que o desgaste das peças seja de forma homogênea.

“A Coisa” da quarta dimensão - Assim como estamos usando letras neste texto, os matemáticos também criaram uma linguagem para descrever as formas no espaço. Por exemplo, em vez de representar um plano por meio de um desenho, eles podem usar fórmulas matemáticas, com números e letras. Porém, de nada adiantaria mostrar aqui esses números e letras, já que seriam totalmente vazios de sentido para quem não domina a linguagem da matemática, tal como este texto seria incompreensível para alguém que não conhecesse a língua portuguesa. Vale lembrar que “a matemática não é uma ferramenta seca e mecânica, mas um corpo vivo de pensamento inseparavelmente conectado, dependente e inestimável para outros campos da nossa cultura”, como bem descreve o matemático Morris Kline no livro Mathematics in Western Culture, de 1953.

O fato é que, no inverno de 1986, durante seus estudos na Universidade de Warwick, na Inglaterra, Ton se deparou com equações que o surpreenderam. Ele decidiu então olhá-las sob outro ponto de vista: tentou desenhar o que tinha encontrado. Surgia assim o esboço de uma superfície muito atraente que, no futuro, sairia do universo abstrato da imaginação matemática para o mundo concreto, transformando-se em uma obra de arte. Nomeada de Singularidade H2 de David Mond, a descoberta está na tese de doutorado de Ton, defendida em 1989, e ganhou um primeiro esboço em papel cartão, com aproximadamente 30 centímetros. No ano seguinte, o modelo foi ampliado 10 vezes e deu origem a uma estrutura em argamassa armada e pesando mais de uma tonelada que está fixada no jardim em frente à Biblioteca Achille Bassi, do ICMC. Carinhosamente chamada como A Coisa, ela é uma atração do instituto e faz parte do acervo da USP de obras escultóricas em espaços externos.

"A Coisa é a projeção de um plano curvado e torcido na quarta dimensão", diz Ton - Foto: Nilton Junior/ArtyPhotos
Pode até parecer papo de alienígena, mas A Coisa veio, literalmente, da quarta dimensão. Ton explica: a escultura que podemos apreciar no jardim do ICMC é uma projeção na terceira dimensão de uma superfície matemática que só existe na quarta dimensão. Como estamos limitados a enxergar em três dimensões, ao olharmos para A Coisa, vemos diversas interseções entre as partes desse objeto. Se fôssemos capazes de mergulhar na quarta dimensão, veríamos que essas partes, na verdade, não se tocam. “A Coisa é a projeção de um plano curvado e torcido na quarta dimensão”, diz Ton.

Para apreciar A Coisa pessoalmente, basta ir até o jardim do ICMC, na área I do campus da USP, em São Carlos. Existe, ainda, a possibilidade de conhecê-la virtualmente assistindo aos vídeos disponíveis na galeria virtual Superfícies além da terceira dimensão, criada pelo professor Thomas Banchoff, da Brown University, em colaboração com o professor Davide Cervone (disponível neste link).

Inquietação constante - O fascínio de Ton pelo formato dos objetos nasceu muito antes dele chegar ao ICMC, aos 17 anos, para cursar o Bacharelado em Matemática. Desde criança, ele olha para o céu e se questiona sobre a forma do nosso universo. Hoje, aos 59 anos, sabe que quanto mais conhecemos sobre o assunto, mais a nossa insignificância se manifesta. As inquietações que tinha quando chegou ao Instituto são praticamente as mesmas, há apenas uma certeza: “se temos alguma chance de entendermos o formato do nosso universo, será por meio da topologia”.

Ele mostra no telão a capa da revista Nature de 2003: uma superfície composta por 120 células e quatro dimensões junto com a pergunta “Este é o formato do universo?”. Ton conta que os estudos mais recentes sobre o tema têm levado os cientistas a acreditarem que ele é composto de 120 dodecaedros sólidos (assista ao vídeo). Nesse sentido, o universo teria um formato finito, mas sem bordas.

Capa da revista Nature mostra uma superfície com 120 células e quatro dimensões - Imagem: Revista Nature
Para compreender como é a quarta dimensão, pense em alguns princípios básicos da geometria analítica concebida por René Descartes. Observe que as dimensões de um objeto correspondem ao número de coordenadas necessárias para descrever seus pontos em termos de latitude e longitude.

Veja a imagem a seguir: temos um plano bidimensional com dois eixos (o X e o Y). Se você quiser definir um objeto de duas dimensões usando a geometria analítica, precisará saber qual sua posição no eixo X e no eixo Y, certo? Olhe novamente para a imagem: se um carro estiver no ponto laranja, local em que o eixo X e o eixo Y coincidem, podemos dizer que esse carro está em 0,0. Já se o veículo estiver no ponto verde, ele estará em um local que corresponde ao número 2 no eixo X e ao número 3 no eixo Y, portanto, podemos afirmar que está em 2,3 (tal como no alfabeto, o X vem sempre à frente do Y).
Neste plano em duas dimensões, é possível enxergas as relações entre os eixos x e y - Imagem: Wikimedia Commons
Prosseguindo com essa ideia, se quisermos construir um plano em três dimensões, vamos precisar de mais um eixo e usaremos outra letra para designá-lo, no caso o Z (veja a imagem). Perceba que, matematicamente, não há nenhuma razão especial que nos impeça de criar mais eixos e, portanto, vislumbrar mais dimensões.

Olhe para este plano em três dimensões: veja que, matematicamente, não há motivo que nos proíba de criarmos mais eixos além do x, y e z - Imagem: Wikimedia Commons
Acostumados a ter uma vida cotidiana em nossos cubos tridimensionais, não é tarefa fácil imaginar a existência de outras dimensões. Tal como foi complicado para nossos antepassados encararem que a Terra não era plana. Talvez a imagem a seguir ajude: note que temos uma linha (uma dimensão); depois um quadrado (duas dimensões); a seguir um cubo (três dimensões); e, por último, um hipercubo (quatro dimensões). Lembra-se de que, no começo deste texto, contei sobre a primeira vez que desenhei um cubo para minha filha? A mesma técnica que usamos para desenhar um cubo, sobrepondo parcialmente dois quadrados, é usada para desenhar um hipercubo, mas nesse caso precisamos sobrepor dois cubos.

Para construir um hipercubo, é preciso sobrepor dois cubos - Imagem: Duke Research Blog
Se você ficou tão fascinado quanto eu pela quarta dimensão, faça uma busca na web: há inúmeros vídeos mostrando como são construídas essas superfícies. Quem tiver a oportunidade de ir aos Estados Unidos, também pode visitar a exposição Para todo o tempo: interpretações da nossa coleção sobre a quarta dimensão, que fica em cartaz até fevereiro de 2018 no Weatherspoon Art Museum da Universidade da Carolina do Norte, na cidade de Greensboro.

A verdade é que o encanto das formas geométricas tem movido a humanidade há séculos. Há até uma versão dramática sobre a morte de Arquimedes de Siracusa (287 a.C. – 212 a.C.), matemático, físico, engenheiro, inventor e astrônomo grego: profundamente imerso em seus cálculos enquanto os romanos tomavam a Grécia, ele desenhava círculos em sua bandeja de areia plana quando notou a sombra do soldado romano que o mataria. A tragédia levou o filósofo inglês Alfred Whitehead a fazer uma interessante reflexão: “Nenhum romano perdeu a vida pelo fato de estar absorvido na contemplação de uma figura geométrica”. Diferentemente dos romanos, talvez Arquimedes já tivesse compreendido que o futuro da nossa existência dependia, de certa forma, dos avanços no estudo da matemática.

Texto: Denise Casatti/Assessoria de Comunicação do ICMC

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DO ESPECIAL DO JORNAL DA USP
"A MATEMÁTICA ESTÁ EM TUDO": http://jornal.usp.br/especial/matematica/

Para saber mais
Galeria de imagens sobre “A Coisa”: icmc.usp.br/e/cd98e
O físico Carl Sagan explica em vídeo a quarta dimensão:

Vídeos da série “Isto é Matemática”:
• A Fita de Möbius: https://www.youtube.com/watch?v=aZZ_d-FF0Bc – Fita de Möbius

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Descubra as relações entre a música, a matemática e a computação

Minicurso gratuito vai abordar conceitos desses três campos do conhecimento durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

Atividade acontecerá dia 28 de outubro, sábado

Quais são as relações que existem entre a música, a matemática e a computação? Responder essa pergunta é um dos objetivos do minicurso que acontecerá dia 28 de outubro, sábado, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. A atividade faz parte da programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

“A música, a matemática e a computação estão fortemente interligadas pela lógica. Mas não é raro encontrar estudantes ou profissionais com formação em matemática ou computação que desconhecem a correlação com a música. Também não é incomum encontrarmos profissionais dessas áreas com talento ou predisposição para tocar algum instrumento musical”, explica o professor Murillo Homem, do Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ele vai ministrar o minicurso Música, matemática e computação, que busca motivar os participantes para o estudo dessas ciências, vislumbrando os modelos matemáticos e computacionais que envolvem o universo musical. 

A iniciativa tem como objetivo, ainda, promover uma troca de conhecimentos entre estudantes do ensino médio e alunos de graduação. Entre os itens que serão abordados estão: a matemática do tom puro; os parâmetros físicos do som, como frequência, amplitude e fase; os parâmetros perceptuais do som, como a intensidade, a altura e o timbre; o tom complexo; a representação da informação sonora; as noções de síntese do som; além das ferramentas e ambientes para a computação musical.

O minicurso é aberto a todos os interessados, gratuito e acontecerá das 8h30 às 12h30 e das 14 às 18 horas na sala 4-005, no bloco 4 do ICMC, que está localizado na avenida Trabalhador são-carlense, 400, na área I do campus da USP, em São Carlos. Há 40 vagas disponíveis. As inscrições podem ser realizadas até a próxima quarta-feira, 25 de outubro, ou enquanto houver vagas no seguinte link: icmc.usp.br/e/cc773. Vale lembrar que o preenchimento do formulário não garante a vaga, as confirmações das inscrições serão enviadas por e-mail.

Confira a programação do ICMC: www.icmc.usp.br/e/91111

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação ICMC/USP
Crédito da imagem: freevector.com 

Mais informações
Link para inscrições: icmc.usp.br/e/cc773
Link com o programa do minicurso: icmc.usp.br/e/30071
Comissão de Cultura e Extensão Universitária do ICMC: (16) 3373.9146 ou ccex@icmc.usp.br