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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Confira os projetos selecionados pelo Centro Avançado ICMC para Apoio à Inovação

Medicina, habitação, agricultura, nutrição e esporte: as iniciativas contemplam soluções para essas cinco diferentes áreas 

Projeto Feira na mesa foi um dos selecionados nesta primeira chamada


Cinco projetos foram contemplados pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, para contribuir com a formação empreendedora dos estudantes. Apresentados na primeira chamada pública lançada pelo Centro Avançado ICMC para Apoio à Inovação, os projetos possuem objetivos diversos, tais como: gerenciar e controlar ativos em ambientes médicos hospitalares; criar uma plataforma para moradia; democratizar a alimentação saudável no Brasil; desenvolver um sistema estatístico para acompanhamento de atletas que praticam Judô; contribuir para que a agricultura familiar seja mais sustentável e escalável. 

Todas as iniciativas selecionadas se relacionam a uma dessas três modalidades de estímulo: participação em competições de inovação; participação em editais de fomento voltados à incubação ou ao desenvolvimento de tecnologia; geração de inovação em parceria com empresas, institutos de pesquisa e órgãos governamentais para o desenvolvimento de protótipos ou provas de conceito de produtos ou tecnologias criadas no ICMC. 

Pelo menos metade dos projetos contempla a participação de alunos de graduação. Na próxima segunda, dia 12, acontecerá uma reunião com os responsáveis por cada iniciativa e as atividades previstas começarão a ser realizadas. Confira, a seguir, mais detalhes sobre as propostas selecionadas.



Modalidade: preparação para participar de competições de inovação 

Feira na Mesa 
Proponentes: Felipe Moreira; Guilherme Barcellos; João Pedro Secundino 
Objetivos: tornar a agricultura familiar um comércio mais sustentável e escalável tanto na região de São Carlos (a curto prazo) quanto no Brasil (a longo prazo) por meio da fomentação do empreendedorismo no ICMC e do uso da tecnologia. 
Parceiros: produtores orgânicos. 

Modalidade: inovação em parceria com empresas, institutos de pesquisa e órgãos governamentais para o desenvolvimento de protótipos ou provas de conceito de produtos ou tecnologias criadas no ICMC 

iSports: módulo Judô 
Proponentes: Vinícius Loureiro Siqueira; Wesley Da Silva. 
Docente: Francisco Louzada. 
Objetivos: o iSports é, atualmente, um instrumento que pode ser utilizado para identificação de novos talentos no futebol, funcionando como um “olheiro virtual” e auxiliando na avaliação de atletas. O acompanhamento dos jogadores é realizado por meio de análises estatísticas, que revelam indicadores técnicos, físicos, psicológicos e habilidades. O objetivo do projeto é adaptar e customizar o iSports para o Judô, um esporte de combate individual com boa popularidade no país, o qual tem produzindo resultados razoáveis em nível internacional, inclusive em olimpíadas. 

Modalidade: participação em editais de fomento voltados à incubação ou ao desenvolvimento de tecnologia 

Gerenciamento e controle de ativos em ambientes médicos hospitalares 
Proponentes: Cristiano José dos Santos; Ennio Politi Lopes; Pedro Silva Arantes. 
Docente: Rosana Vaccare Braga. 
Objetivos: o objetivo central deste projeto será o desenvolvimento de um sistema de gerenciamento da manutenção de equipamentos médicos de alto custo e geração de informações relevantes para a administração de Unidades de Saúde. 
Parceiros: HC de Ribeirão Preto, HU de São Carlos 

Projeto: 100kcal 
Proponentes: Vinícius Molina Garcia; Alexandre Batistella Bellas. 
Docente: Solange Oliveira Rezende 
Objetivos: o objetivo do 100kcal é democratizar a alimentação saudável no Brasil, através de uma inteligência artificial que gera dietas personalizadas automaticamente para as pessoas, e utiliza técnicas de psicologia comportamental e gamificação para a criação e manutenção de hábitos. 

PackUp - Startup voltada a moradias 
Proponentes: Marcelo Suckow de Barros Rodrigues; Bruno Facina. 
Objetivos: criar uma plataforma que auxilie pessoas a encontrar lugares para morar e pessoas para morar junto, inovando na maneira como esse processo é realizado. 

Texto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP 

Mais informações 
Centro Avançado ICMC para Apoio à Inovação (ICMCin): www.icmc.usp.br/institucional/icmcin 
E-mail: ccex@icmc.usp.br ou grad@icmc.usp.br

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Como a revolução da ciência de dados impacta a capital brasileira da tecnologia

Empresas estão fazendo uma verdadeira peregrinação ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, em busca de profissionais e de parcerias que possam trazer novas perspectivas para seus negócios a partir dos incontáveis bancos de dados que temos hoje à disposição

"Fique tranquilo, eu sou um cientista de dados": a frase na camiseta de Bruno Coelho, aluno do ICMC, traduz quanto esses profissionais têm se tornado cada vez mais fundamentais no mundo em que vivemos
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

O foodtruck que fornece sua comida favorita, o laboratório onde você fez seus últimos exames médicos, o banco em que você é correntista, a seguradora do seu carro e a prefeitura da cidade onde você mora. Há um elo unindo essa lista aparentemente desconectada: os dados valiosos que cada um tem sobre você. São como sementes que, se adequadamente germinadas, podem revelar qual tipo de culinária mais agrada seu paladar, o prognóstico do seu tratamento, suas futuras movimentações financeiras, a provável data em que seu carro precisará de conserto ou de um guincho e qual será o consumo de água, luz e energia da sua residência nos próximos meses. 

À primeira vista, parece o início do roteiro de mais uma série futurista de ficção científica, mas pare e pense: todos esses dados estão à disposição das instituições públicas e privadas com as quais você se relaciona e boa parte da tecnologia para analisá-los já foi criada. O que falta então para o futuro se tornar presente? Profissionais capacitados para gerar valor a partir da captura, do tratamento e da obtenção de novos conhecimentos, úteis e relevantes, com base em todos esses dados.

É fato que o Brasil e os demais países do mundo não estão conseguindo formar a quantidade necessária de pessoas para lidar com esse desafio. A escassez de cientistas de dados nos Estados Unidos oscilava em torno de 140 a 190 mil profissionais, em 2018, um número que só tende a crescer. No Brasil, embora não exista um levantamento que mostre o tamanho da demanda não atendida, quem atua no ensino e na pesquisa na área de ciência de dados tem se surpreendido com a constante peregrinação realizada pelas empresas a institutos especializados buscando mão-de-obra qualificada e o estabelecimento de parcerias. 

Essa efervescente demanda é evidente no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, a cerca de 240 quilômetros da capital do Estado de São Paulo. Conhecida como capital da tecnologia, a cidade está se transformando na “meca” brasileira da ciência de dados, um campo que se constrói na interseção de conhecimentos computacionais, estatísticos e matemáticos.

“São Carlos está no olho do furacão”, declara o professor André de Carvalho, vice-diretor do ICMC e do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria da USP. Ele revela que grandes corporações visitam constantemente o ICMC para efetuar processos seletivos e buscar parcerias científicas para lidar com seus bancos de dados. Recentemente, por exemplo, Serasa Experian, Intel e Magazine Luiza anunciaram que vão instalar centros de pesquisa na cidade.

Para André de Carvalho, São Carlos já é referência na área de ciência de dados
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

Eles valem ouro – Mas por que tantas empresas estão desesperadas pela ajuda dos cientistas de dados? Ora, hoje, cada ser humano com um dispositivo móvel em mãos é um produtor de dados, os quais são gerados em velocidade, volume e variedade cada vez maiores. Esses bancos de dados, quando não são utilizados adequadamente pelas instituições, acabam se tornando verdadeiros elefantes brancos. 

São elefantes que consumem recursos valiosos – pense em quanto espaço físico e virtual é preciso para armazená-los – e não são poucos os gestores que se assustam diante desse cenário complexo de números, nomes, datas, telefones, e-mails, endereços, comentários, curtidas, imagens, vídeos... É um amontoado heterogêneo que costuma conter informações preciosas, capazes de levar à solução de vários problemas e permitir avanços significativos às instituições, contribuindo para a tomada de melhores decisões. Há potencial para aumentar receitas, reduzir custos, aprimorar experiências de clientes e promover inovações. Não saber o que fazer diante dessa riqueza de dados é, no mínimo, desesperador. 

Não é à toa que, nos rankings internacionais que apresentam as melhores carreiras, os cientistas de dados sempre estão em destaque. Na avaliação sobre os melhores empregos do site carreercast.com, eles aparecem na 7ª colocação; no glassdoor.com, surge como a profissão número 1 dos Estados Unidos.

“Os cientistas de dados buscam utilizar, de modo eficiente, ferramentas matemáticas e computacionais para auxiliar no processo de extração de conhecimentos a partir de dados, auxiliando principalmente a tomada de decisões”, explica o professor Gustavo Nonato, do ICMC. Ele acabou de voltar à USP depois de passar um período como professor visitante no Center for Data Science da Universidade de Nova Iorque: “a experiência lá foi muito útil para ter uma visão mais clara do que é a ciência de dados, uma área ainda muito nova”.

Diante da ausência de profissionais com formação específica, as instituições têm recrutado graduados e pós-graduados em computação, matemática e estatística para ocupar cargos com nomenclaturas que vão desde o clássico “cientista de dados” até engenheiro/analista/arquiteto de dados, seguindo por variações como analista de inteligência de negócios entre outras. Segundo Nonato, os alunos recém-formados do ICMC têm sido recrutados a preço de ouro para trabalhar com ciência de dados. Outro professor do ICMC, Marinho de Andrade Filho, explica que os egressos do curso de estatística têm entrado no mercado com salários iniciais variando entre R$ 4 e R$ 6 mil, chegando a R$ 10 mil após cerca de um ano de atuação. 

Depois de uma experiência como professor visitante no Center for Data Science, em Nova Iorque, Gustavo Nonato (último à direita em pé) coordena, atualmente, o grupo de extensão DATA, no ICMC
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

Pensando com dados – Será que a Universidade está em sintonia com a revolução da ciência de dados? No ICMC, já é oferecida uma ênfase em ciência de dados, opção disponível para os alunos dos cursos de graduação em computação e em matemática (exceto Licenciatura), e também existe uma especialização em ciência de dados no Mestrado Profissional em Matemática, Estatística e Computação Aplicadas à Indústria (MECAI). Além disso, em breve, serão efetuadas alterações significativas no Bacharelado em Estatística – que passará a se chamar Bacharelado em Estatística e Ciência de Dados – e dois novos cursos serão criados: uma especialização do tipo Master Business Administration (MBA), destinada a quem já está inserido no mercado de trabalho; e uma nova graduação surgirá, o Bacharelado em Ciência de Dados. 

No momento, as propostas dos novos cursos estão sendo avaliadas por diversas instâncias da USP. Quando o Bacharelado em Ciências de Dados for oficialmente lançado, vai se tornar o primeiro curso desse tipo a ser oferecido no país. No mundo, há apenas 57 cursos de graduação em ciência de dados, sendo que nenhum deles é brasileiro, de acordo com informações disponíveis em abril no website http://datascience.community/colleges. Ao serem levadas em conta as opções de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), chega-se a um total de 545 programas espalhados pelo globo e somente um deles é oferecido no Brasil por uma instituição particular.

Como não há diretrizes curriculares nacionais específicas para o Bacharelado em Ciências de Dados, o grupo de professores que elaborou a proposta foi buscar inspiração em diretrizes internacionais. Um dos documentos que fundamentam a proposta – Diretrizes Curriculares para Programas de Graduação em Ciência de Dados – apresenta o resultado de um trabalho realizado por representantes de 25 instituições de ensino, que se reuniram durante três semanas nos Estados Unidos para discutir as habilidades essenciais na formação desse profissional.

O professor Thiago Pardo, que preside a Comissão de Graduação do Instituto, explica que o Bacharelado em Ciência de Dados do ICMC seguirá essas diretrizes internacionais, propondo um currículo interdisciplinar, que integre conhecimentos provenientes da computação, da estatística e da matemática. Ele afirma que a ideia é formar um profissional capaz de “pensar com dados”, que tenha competência e experiência prática para lidar com as mais variadas situações e domínios de aplicação da área. 

Mas, afinal, quais são exatamente as habilidades que esse novo profissional precisa ter? No documento com a proposta de criação do curso, destaca-se que o Bacharel em Ciência de Dados será capaz de: entender, formular e refinar questões apropriadas; obter, modelar e explorar os dados relacionados; processar os dados e realizar as análises necessárias; obter e comunicar o conhecimento relevante e, se necessário, apoiar o desenvolvimento e implantação de soluções com base nos resultados atingidos. 

Para se tornar apto a realizar tudo isso, há várias habilidades que precisam ser desenvolvidas. Em primeiro lugar, está o aprendizado de técnicas de coleta, armazenamento e gerenciamento de dados, envolvendo os processos de limpeza, transformação e estruturação dos dados, os quais podem ser provenientes de fontes variadas e ter formatos e tamanhos diversos. Depois, é necessário processar esses dados e realizar análises por meio de técnicas computacionais e estatísticas. São essas técnicas que possibilitarão extrair conhecimentos desses dados, empregando estratégias que podem incluir a utilização de modelagem estatística/matemática, visualização, mineração e aprendizado de máquina.

Porém, para que todo esse conhecimento ligado ao raciocínio lógico e à abstração resulte, de fato, em soluções, o profissional precisa desenvolver também as chamadas soft skills – aquelas habilidades não-técnicas que o permitirão se comunicar adequadamente, ser criativo, trabalhar em equipe e ter uma visão ampla e crítica sobre os processos que ocorrem dentro e fora das instituições. Note que formar um profissional assim é um desafio e tanto.

A fim de possibilitar que os alunos formados em Estatística no ICMC também possam ter acesso a essa formação mais ampla, atendendo à crescente demanda do mercado, outra iniciativa em andamento propõe uma atualização na grade curricular do curso. A proposta também está passando pela aprovação de diversas instâncias da USP e a expectativa é de que os ingressantes da Universidade em 2020 já tenham acesso à novidade, que prevê até uma alteração no nome do curso, que passará a se chamar Bacharelado em Estatística e Ciência de Dados. 

O professor Marinho explica que a espinha dorsal do curso continua sendo a estatística, que é uma profissão regulamentada no Brasil, o que se propõe é uma ampliação no escopo de algumas disciplinas a fim de associar o ensino de técnicas computacionais ao ensino das técnicas estatísticas, as quais já eram abarcadas pela grade curricular do curso. “Não existe uma competição entre a estatística e a computação pela fatia da ciência de dados. O que há é uma necessidade de unir os dois campos para tratar dos problemas que surgem a partir dos dados. É claro que existem diferenças nas abordagens, mas são conhecimentos que se completam”, diz Marinho. 

Com as alterações nas disciplinas oferecidas, houve uma vantagem adicional: a redução no tempo de formação no curso de Estatística. Em vez dos atuais 4,5 anos, a graduação poderá ser concluída em 4 anos. “Assim, o recém-formado poderá planejar mais facilmente o início das atividades do ano seguinte, quer seja no mercado de trabalho ou em um programa de pós-graduação”, completa o professor Marinho. 

Quando o Bacharelado em Ciências de Dados for oficialmente lançado pelo ICMC, vai se tornar o primeiro curso desse tipo a ser oferecido no país
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

Nasce o DATA – A demanda por capacitação é tão grande que quatro estudantes do ICMC se mobilizaram para criar o DATA, um grupo de extensão que surgiu oficialmente no início deste ano especialmente para difundir os conhecimentos sobre ciência de dados. A ideia nasceu depois que os quatro alunos do curso de Ciências de Computação foram selecionados para a final de um concurso internacional de ciência de dados, o Data Science Game, que aconteceu em outubro do ano passado. O time – formado por Bruno Coelho, Gustavo Sutter, Marcello Pagano e Tobias Veiga – conquistou o 12º lugar entre as 20 melhores equipes do mundo e, considerando-se as três equipes brasileiras que concorreram à final, ficou em 2º lugar.

O encanto pela ciência de dados floresceu nos quatro estudantes depois que se envolveram em projetos de iniciação científica e estabeleceram contato com novos conhecimentos da área, o que levou à formação do time. Bruno conta que participar da competição foi um processo intenso e enriquecedor: “Mesmo tendo que fazer tudo em um curto período de tempo, a experiência foi fantástica. Saímos muito motivados a estudar ainda mais sobre ciência de dados.” Então, os quatro decidiram criar um novo grupo de extensão, a partir do estímulo do professor Thiago Pardo e da inspiração de outros grupos bem-sucedidos criados no ICMC, como o Grupo de Estudos para a Maratona de Programação (GEMA) e o grupo de desenvolvimento de jogos Fellowship of the Game (FoG). O passo seguinte foi contatar o professor Gustavo Nonato, que aceitou assumir o papel de tutor da iniciativa.

Atualmente, o DATA está oferecendo um curso de introdução a ciência de dados, de 12 semanas, para cerca de 40 estudantes do ICMC, às quartas-feiras, das 14 às 16 horas. O que o grupo ensina? “Introdução à linguagem de programação Python, aos principais algoritmos, a aprendizado de máquina e a técnicas de pré-processamento de dados. A ideia é incentivar essa turma a participar de competições e prepará-los para futuros processos seletivos”, conta Gustavo.

Também às quartas, das 17 às 18 horas, o DATA reúne os alunos que já têm conhecimentos mais avançados na área para promover discussões e aprimorarem, colaborativamente, o know-how que já possuem. “Além de tornar a área de ciência de dados mais conhecida, outro objetivo do grupo é oferecer, futuramente, treinamento para a população em geral, por meio de cursos de extensão”, conta Nonato. “É claro que, para você se tornar um cientista de dados, é preciso ter uma formação sólida. Mas é fato que uma pessoa que possua alguma noção de programação, se fizer bons cursos sobre Python e sobre aprendizado de máquina, pode desenvolver interessantes soluções a partir de dados já disponíveis”, acrescenta o professor.

Bruno Coelho, Gustavo Sutter, Marcello Pagano e Tobias Veiga participaram da final do Data Science Game, que aconteceu no ano passado, de 27 a 29 de setembro, na França
(crédito da imagem: Data Science Game)

De volta ao futuro – Você é capaz de imaginar as soluções interessantes que podem ser criadas por quem faz ciência com dados? O professor André de Carvalho enumera uma série de possibilidades: melhorar o ensino identificando o perfil de cada aluno para disponibilizar conteúdos e avaliações particularizados; localizar trechos de processos jurídicos e sentenças que podem ser úteis para argumentações futuras; predizer quais clientes estão insatisfeitos com uma empresa e o porquê, buscando reduzir o problema; prever o resultado de reações químicas a partir das condições experimentais e das substâncias utilizadas; prever falhas em linhas de transmissão de energia elétrica; diagnosticar fadiga em estruturas como pontes e barragens; classificar objetos em imagens obtidas por telescópios espaciais; criar modelos capazes de dar suporte ao diagnóstico médico; prevenir a queda de idosos; melhorar o desempenho de equipes em práticas de esportes olímpicos e profissionais; prever a ocorrência de doenças e pragas; classificar automaticamente a qualidade de frutas; melhorar as políticas públicas; reduzir danos ao meio ambiente e aos seres humanos.

Todas essas possibilidades e outras mais estão descritas no artigo “Interdisciplinaridade da ciência de dados”, publicado por André na Revista da Sociedade Brasileira de Computação, edição de fevereiro de 2016. O que era futuro há três anos está se tornado cada vez mais presente. Não falta muito para que os cientistas de dados descubram a culinária que mais agrada seu paladar, o prognóstico do seu tratamento médico, suas próximas movimentações financeiras, o defeito que seu carro terá e quanta água, luz e energia a residência em que você mora consumirá. Resta saber quais decisões serão tomadas a partir desses novos conhecimentos. Há quem vislumbre o surgimento de um mundo mais humano e justo a partir de tantos dados; e há quem tema pela vulnerabilidade que o acesso a esses dados pode nos trazer. O fato é que as consequências de qualquer tipo de novo conhecimento depende do comportamento ético da humanidade. Isso vale também para ciência que brota dos dados.

Estudantes do ICMC que participam da primeira edição do curso de introdução a ciência de dados, oferecido pelo DATA
(crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP


Saiba mais
Cursos e programas em ciência de dados no mundo: http://datascience.community/colleges
Curriculum Guidelines for Undergraduate Programs in Data Science

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Desafios e oportunidades unem pesquisadores paulistas da área de computação

Fortalecer as parcerias científicas no Estado de São Paulo e potencializar o impacto das pesquisas em computação em âmbito nacional e internacional estão entre as metas dos participantes de uma iniciativa inovadora


No Salão de Eventos da USP, em São Carlos, foram expostos 177 pôsteres

São Carlos, cidade do interior de São Paulo conhecida como a capital da tecnologia, tornou-se também a capital dos pós-graduandos paulistas em computação no dia 4 de dezembro. Nesse dia, o campus da USP abrigou o primeiro Encontro Paulista dos Pós-Graduandos em Computação, que reuniu 206 mestrandos e doutorandos dos 11 programas do Estado de São Paulo. 

“O evento faz parte de uma iniciativa inovadora no Brasil, que busca fomentar a integração dos programas de pós-graduação do Estado na área de computação”, explica o coordenador do encontro, Adenilso Simão, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

Um dos participantes do evento é Jalasaya Bhattarai, que está visivelmente entusiasmado com a iniciativa. Do primeiro andar do Salão de Eventos da USP, que está tomado pelos 177 pôsteres dos mestrandos e doutorandos, ele registra o momento em uma selfie e diz que nunca viu algo similar acontecer no programa em que está matriculado, o mestrado em tecnologia da informação e segurança do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá. “Quando esses estudantes apresentam o que estão pesquisando para outros pesquisadores, eles têm uma grande oportunidade de aprendizado”, diz Jalasaya. 

A experiência não poderia ser mais rica para ele, que está apenas há duas semanas no Brasil, participando de um intercâmbio na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, em São Paulo. Natural do Nepal, Jalasaya emigrou para o Canadá em novembro de 2013 e sabe o quanto ter contato com outras culturas e tecnologias favorece o espírito científico. Ele até usa uma imagem para ilustrar a relevância das possíveis colaborações que encontros como esse propiciam: “É como fazer chá ou café. Para termos um bom resultado, precisamos misturar as substâncias com a água. Em pesquisa também é assim, precisamos integrar os conhecimentos e produzir uma mistura de inteligências para construir ciência”.

Mestrando em computação no Canadá, Jalasaya está fazendo intercâmbio no Brasil

Mas será que os ingredientes que os pós-graduandos utilizam para fazer ciência na academia são idênticos aos que precisarão empregar caso optem por atuar no mercado? Ao relatar sua trajetória profissional durante o evento, o cientista de dados Eduardo Hruschka explicou que há muitas diferenças entre esses dois universos, mas enfatizou o quanto a aproximação entre academia e mercado pode gerar bons frutos para ambos. 

Ninguém melhor do que Eduardo para falar sobre esse assunto, já que tem extensa experiência tanto na academia quanto no mercado. Começou ministrando aulas em universidades particulares e, em 2007, tornou-se professor no ICMC. Sete anos depois, afastou-se do Instituto para atuar no mercado. Este ano, assumiu a superintendência do Centro de Excelência em Big Data Analytics do Itaú-Unibanco.

Adenilso e Eduardo no palco do auditório onde as duas palestras do evento aconteceram

Estímulo à colaboração – Como coordenador do Programa de Pós-Graduação em Computação do ICMC, Adenilso conhece bem quais são as oportunidades que podem surgir a partir do fomento às parcerias científicas. Há muitas pontes que podem ser construídas entre os cerca de 800 mestrandos e 600 doutorandos matriculados atualmente nos 11 programas de pós-graduação em computação do Estado de São Paulo. 

Na tentativa de estimular essas colaborações, o professor construiu uma metodologia especialmente para o evento: um simples código capaz de identificar similaridades entre as palavras-chaves contidas nos resumos dos 177 trabalhos que foram expostos na mostra de pôsteres. Assim, os projetos que tinham algum tipo de relação foram apresentados em uma mesma área do salão, propiciando mais oportunidades para que os autores daqueles estudos interagissem entre si.

Além disso, durante a mostra, metade dos alunos ficava diante dos pôsteres para a apresentação enquanto a outra metade circulava pelo local. Uma hora depois, a dinâmica se invertia: a metade que tinha apresentado passava a circular e quem estava circulando tornava-se expositor.

“Até onde tenho conhecimento, nenhum estado brasileiro tentou fazer algo assim antes: integrar os programas de pós-graduação”, explica Osvaldo de Oliveira, coordenador do Programa de Mestrado em Ciência da Computação da Faculdade Campo Limpo Paulista (FACCAMP). Para ele, os programas têm muito a ganhar não só com as colaborações científicas que podem surgir a partir desse primeiro encontro, mas também a partir da realização de ações conjuntas futuras como a oferta integrada de disciplinas. “Estamos discutindo várias possibilidades, são iniciativas que trarão benefícios para os programas, para os alunos e também para a sociedade”, acrescenta Osvaldo.

Iniciativa estimulou colaborações científicas 

Desafios comuns – De 2013 a 2016, 316 doutores e 891 mestres em computação foram formados em São Paulo. “O Estado é responsável por cerca de 15% de todos os programas de pós-graduação em computação existentes no Brasil, que formam aproximadamente 15% dos mestres e 30% dos doutores do país nessa área”, ressalta Adenilso.

De fato, há diversos resultados positivos no Estado que merecem ser comemorados, mas o professor Roberto Cesar Junior, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, também chama a atenção para o fato dos brasileiros estarem muito aquém do restante do mundo quando o assunto é excelência em pesquisa: “Temos muitos problemas quando analisamos os dados referentes aos impactos científicos e às colaborações internacionais”.

Conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desde 2006, Roberto foi um dos palestrantes do evento e mostrou uma série de dados para fundamentar a afirmação. Por exemplo, o Brasil aparece muito abaixo da média mundial quando se leva em conta o impacto dos artigos científicos publicados. 

Para aumentar o impacto intelectual da ciência feita no país, Roberto diz é preciso seguir um princípio básico desde a fase de concepção dos projetos: os pesquisadores devem avaliar o conhecimento de ponta que está sendo produzido no mundo em seu campo de estudo, identificar lacunas e gerar ideias que possam resolver os problemas ainda não solucionados no mundo. Segundo ele, é necessário, ainda, estabelecer mais cooperações internacionais, criar mecanismos eficientes para atrair, selecionar e manter talentos, além de desenvolver ferramentas para avaliar a excelência da pesquisa e da formação. 

Para enfrentar desafios como esses, nada melhor do que unir forças. “Quando colaboramos com quem está a nosso redor, todos crescem. Nesse caso, um mais um é mais do que dois”, finaliza Osvaldo.

Para o professor Roberto, é preciso aumentar o impacto intelectual da ciência feita no Brasil

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação ICMC/USP

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br