Mostrando postagens com marcador Dia Internacional da Mulher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dia Internacional da Mulher. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ela despertou com o encanto da computação

A história de uma menina que se descobriu na arte de programar 


Sabrina (na primeira fileira, ao centro) foi uma das voluntárias no evento Technovation HackDay, momento em que compartilhou sua história com as participantes da iniciativa
(crédito da imagem: Marina Maldonado/Estúdio Wfk)

Os olhos azuis vibrantes de Sabrina Tridico miravam para as entranhas do computador desmontado. Nas mãos do irmão, a nova placa de vídeo que precisava ser instalada atiçava a curiosidade da menina de 9 anos. Pouco tempo depois, lá estava ela de novo: agora, sentada em frente ao micro, fuçando o interior invisível da máquina. A meta era fazer daquele computador um caderno em branco: eliminar tudo o que havia sido registrado ali. Nesse processo de formatação, ela seguia, mais uma vez, as orientações do irmão, 15 anos mais velho.

Sabrina, aos quatro anos, no colo do irmão, que já tinha 19, e ao lado da mãe
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

Quando chegou ao ensino médio e se deparou com a oportunidade de cursar o ensino técnico na área de administração, mecatrônica ou informática, ela percebeu que não faria como as outras garotas, que enxergavam administração como a única alternativa. Para Sabrina, informática era uma escolha natural. Morando em Franca, cidade a cerca de 400 quilômetros de São Paulo, a estudante só havia cursado escolas públicas e descobriu a diversão da arte de programar na primeira aula do curso técnico, também gratuito. “É como fritar um ovo”, diz, lembrando-se que aprendeu a lógica da programação a partir da comparação com a lógica da culinária. 

“Como se frita um ovo? A gente costuma dizer: pega o ovo e coloca na frigideira... Mas não! Como vamos pegar o ovo sem abrir a geladeira? Para o computador, você precisa ensinar passo a passo o que tem que ser feito: abra a geladeira, pegue o ovo, feche a geladeira e assim por diante”, explica Sabrina que, hoje, cursa Ciências de Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. 

A lembrança do ovo e da frigideira voltam à memória da estudante no momento em que ela está sentada em um dos maiores laboratórios de informática do ICMC, no sexto andar do bloco 6 do Instituto. É sábado, 24 de fevereiro, e Sabrina está novamente diante de um microcomputador: desta vez prepara o cenário onde, daqui a pouco, 74 garotas de 10 a 18 anos vão se sentar para aprender os princípios básicos da programação. Ela é uma das voluntárias no evento Technovation HackDay e, logo mais, estará em frente à tela de projeção do laboratório, compartilhando momentos relevantes de sua trajetória com essas meninas. Todas elas se dividiram em equipes com até cinco participantes cada e estão aqui para desenvolverem o projeto de um aplicativo até o final do dia. A maioria delas nunca teve contato com a arte de programar. 

Por isso, Sabrina aproveita o momento não só para falar sobre sua história, mas também para dar dicas relevantes sobre como essas meninas podem encantar os jurados durante a apresentação de seus projetos. Ela diz para as garotas manterem uma postura poderosa quando estiverem no palco, porque nosso corpo também fala, e coloca em prática o que ensina: mantém a pose de “mulher maravilha”, gesticula, fala em voz alta e com entusiasmo. Os olhos azuis parecem brilhar ainda mais quando ela está assim: feliz. 

Não poderia ser diferente: em breve, Sabrina embarca para os Estados Unidos, onde fará um estágio de três meses em uma empresa de tecnologia chamada Audible, que atua no ramo de livros em áudio. Ela exercerá o papel de engenheira de software em um dos times da empresa que busca soluções para sincronizar as palavras que o leitor ouve por meio do áudio com as palavras que são exibidas em um dispositivo de leitura de livros digitais (ebooks) como o Kindle, por exemplo.

Sabrina foi uma das coordenadoras da Semana de Computação (Semcomp) em 2016
(crédito da imagem: Denise Casatti)

Rumo ao exterior – Como será que Sabrina conseguiu esse estágio almejado por muitos estudantes da área de computação? Tudo começou quando ela se candidatou a uma bolsa, no ano passado, para participar do maior evento do mundo voltado a mulheres na computação, o Grace Hopper Celebration. “Foi a melhor experiência da minha vida e lá eu consegui o estágio”, diz a estudante, que foi uma das 657 mulheres selecionadas para participar do Grace Hopper Celebration, com todas as despesas sendo custeadas pela instituição AnitaB.org

A experiência de participar do evento junto com mais 18 mil mulheres foi marcante: “Conheci meninas da Rússia, do Quênia, da Índia, e dividi quarto com uma norte-americana que faz faculdade, trabalha, tem uma filha de dois anos e estava lá tentando estágio. Ouvir as histórias dessas mulheres foi muito gratificante. Percebi, ainda, que há algo em comum no percurso da maioria das mulheres que entraram na computação: elas tiveram aliados masculinos”. Sabrina participou de palestras, workshops, minicursos e diversas outras atrações promovidas por empresas convidadas durante o Grace Hopper Celebration, que aconteceu de 2 a 4 de outubro de 2017, em Orlando, na Flórida.

"Foi a melhor experiência da minha vida", diz Sabrina sobre a participação no Grace Hopper Celebration
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

“Eu notei que muitos problemas que a gente tem aqui também existem em outros países e que a nossa educação na USP é muito forte. Estamos em pé de igualdade com qualquer universidade norte-americana”, completa a estudante. “Recomendo muito a participação no evento Grace Hopper Celebration. Poucas brasileiras se inscrevem, acho que é porque não conhecem”. As inscrições no evento são abertas anualmente e mulheres que estejam em qualquer fase da carreira acadêmica podem concorrer a bolsas  alunas de graduação, pós-graduação, pós-doutorandas e professoras. Segundo Sabrina, o processo seletivo é bastante simples: basta enviar o histórico escolar, o currículo e uma carta de recomendação (tudo em inglês) além de responder a um breve questionário.

Grace Hopper foi uma analista de sistemas da marinha dos Estados Unidos e criou a
primeira linguagem de programação de computadores a se aproximar da linguagem humana
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

Empoderamento feminino – A trajetória de Sabrina chamou atenção dos organizadores da Campus Party, o maior evento tecnológico do Brasil, que este ano aconteceu de 30 de janeiro a 4 de fevereiro, no Anhembi, em São Paulo. Ao chegar ao local do evento, ela comentou com um amigo que havia participado do Grace Hopper Celebration e que tinha conseguido um estágio no exterior. O amigo, que participava voluntariamente da organização da Campus Party, relatou a história da garota para um dos responsáveis pelas palestras e Sabrina foi convidada para falar ao público em um dos palcos. Lá, ela contou que entregou currículos para diversas empresas durante o Grace Hopper Celebration e que, ao voltar ao Brasil, foi contatada pela Audible. Depois de quatro entrevistas por Skype, foi chamada para estagiar.

Sabrina no palco da Campus Party
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

Aos 22 anos, ela está contando os dias para voltar aos Estados Unidos e acaba de se tornar embaixadora de um movimento de empoderamento feminino na área de tecnologia chamado She++. Está difícil até para Sabrina acreditar no que está acontecendo: “Eu nunca imaginava sair do país, sou muito apegada a minha família. Aliás, nem imaginava entrar na USP, porque sempre estudei em escola pública”. Depois de um ano fazendo cursinho, Sabrina só foi convocada para estudar na USP na sexta chamada da Fuvest, em 2014. 

“Eu sempre fui destemida e desbocada, mas sentia que para as meninas que estavam na sala era um empecilho ser minoria. Como éramos as únicas garotas, os professores sempre sabiam nossos nomes, mas nunca me causaram problemas. Quando terminei o curso técnico, trabalhei por um ano em uma empresa de desenvolvimento web para pagar o cursinho e era a única desenvolvedora lá. Só sofri assédio de um cliente uma vez, que não gostou de ver uma mulher trabalhando no site dele”. 

Ainda bem que os obstáculos só serviram para tornar essa garota do interior ainda mais persistente. Se há encanto na computação, com certeza, ele brilha nos olhos de Sabrina.

Outra paixão de Sabrina, além da computação, é a dança: ela faz parte do grupo de dança do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO)
(crédito da imagem: arquivo pessoal)

quarta-feira, 8 de março de 2017

“Elas: expressões de matemáticas brasileiras” entra em cartaz no ICMC

No Dia Internacional da Mulher, Instituto inaugura exposição destacando o perfil de oito pesquisadoras brasileiras que atuam na área da matemática


Cada peça traz uma personalidade. Em cada personalidade, está um pouco da história da matemática no Brasil. Encorajar as mulheres interessadas em atuar nesse campo de pesquisa é o objetivo da exposição Elas: expressões de matemáticas brasileiras. Inaugurada nesta quarta-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a exposição é gratuita e fica em cartaz até dia 31 deste mês na biblioteca Achille Bassi do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

“Esperamos que, em pouco tempo, atitudes como as das mulheres que fazem parte dessa exposição sirvam para promover oportunidades e tratamento iguais para as mulheres na ciência”, diz Thaís Jordão, professora do ICMC e curadora da exposição. Entre os perfis apresentados nos painéis estão os de três ganhadoras do prêmio Para Mulheres na Ciência: Adriana Neumann, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Cecília Salgado, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Carolina de Araújo, professora do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

Carolina de Araújo, a única mulher entre os professores do IMPA, vê a matemática como uma arte

Completam a exposição peças com os relatos das professoras Maria José Pacífico e Walcy Santos, ambas da UFRJ; Keti Tenenblat, da Universidade de Brasilia; Ketty de Rezende, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); e Maria Aparecida Ruas, do ICMC. Aposentada, Maria Aparecida é professora sênior no Instituto, onde começou a dar aulas em 1981. Ela foi a primeira mulher a chefiar o Departamento de Matemática do ICMC.

Na opinião de Maria Aparecida, a presença das mulheres na matemática ainda é pequena e seria interessante pensarmos de que maneira podemos aumentar a inserção feminina na área. “Muitas mulheres possuem aptidão em matemática e acabam não seguindo na área por diferentes motivos. Em qualquer segmento da sociedade, seja na política, na ciência ou em empresas, se há equilíbrio de gênero, isso reflete melhor o que acontece na sociedade. Além disso, o equilíbrio traria uma maior diversidade de pensamentos”, analisa a professora (leia a entrevista completa).

Cada peça da exposição tem como pano de fundo uma lista com os nomes de 500 matemáticas brasileiras. “Fizemos uma busca por currículos de profissionais de matemática cadastrados na Plataforma Lattes, a qual gerou um total de 5.920 nomes. Desses, 500 eram nomes de mulheres”, revela Thaís.

Segundo a curadora, o idealizador da iniciativa foi o professor Ali Tahzibi, do ICMC. Em visita ao Centre International de Rencontres Mathématiques (CIRM), localizado em Marseille, na França, ele viu a exposição Women of Mathematics throughout Europe. Inspirado nessa mostra, Tahzibi teve a ideia de fazer um projeto similar no Brasil e apresentou a proposta à professora Thaís. Coube a ela fazer o convite para que algumas matemáticas brasileiras compartilhassem seus perfis na exposição, que tem o apoio da Comissão de Cultura e Extensão Universitária do Instituto.

"Apenas cerca de 10% da comunidade matemática brasileira é formada por mulheres.
Mudar este panorama é um dos nossos desafios", diz a professora Maria Aparecida Ruas

Texto: Denise Casatti - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP


Elas: expressões de matemáticas brasileiras
Site:
elasmatematicas.icmc.usp.br
Local: Piso térreo da Biblioteca Achille Bassi (Av. Trabalhador São-carlense, 400, no campus I da USP, no Centro de São Carlos)
Quando: até 31 de março
Horário: segunda a sexta-feira, das 8h às 21h30, e aos sábados, das 9h às 12h (exceto feriados).
Mais informações: Comissão de Cultura e Extensão Universitária do ICMC – Telefone: (16) 3373.9146

E-mail: ccex@icmc.usp.br

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulheres na matemática: afinal, existe uma questão de gênero?

Confira a resposta na voz de três mulheres, três professoras do ICMC que foram convidadas a refletir sobre a participação feminina na matemática



São muitas as iniciativas que buscam discutir e incentivar a participação das mulheres na matemática. Há diversos grupos em redes sociais, além de programas e workshops desenvolvidos em universidades de várias partes do mundo, sem contar os inúmeros artigos publicados sobre o tema. Neste Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a USP lança a campanha Elas Sempre Podem, que busca empoderar as mulheres e defender a igualdade de gênero.

Em sintonia com a campanha, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, apresenta três entrevistas realizadas com professoras do Instituto. Convidadas a refletir sobre a participação feminina na matemática, elas apresentam a visão que têm sobre o assunto e lançam luzes para pensarmos também a respeito da participação da mulher no campo das ciências exatas.

Uma das entrevistadas, a professora Maria Aparecida Ruas, participará, na próxima sexta-feira, 11 de março, do Encontro Paulista de Mulheres na Matemática, evento que será sediado no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da UNICAMP. Veja, a seguir, a questão de gênero na matemática sob a perspectiva de Maria Aparecida, Sueli Aki e Thaís Jordão.

A primeira mulher na chefia do Departamento de Matemática do ICMC
Ela está no ICMC desde 26 de outubro de 1981 e, mesmo aposentada, continua atuante, agora como professora sênior. Confira o bate-papo com a professora Maria Aparecida Ruas.



O que você pensa sobre a questão das mulheres na matemática?

Eu acho que vale a pena olhar para essa questão, pois a presença das mulheres na matemática ainda é pequena e seria interessante pensarmos de que maneira poderíamos aumentar a inserção feminina na área.

Qual o principal motivo do menor número de mulheres dentro da matemática? É uma questão biológica, social, cultural, histórica ou uma combinação de todas as anteriores?

Sem dúvida é uma combinação de vários fatores. Apenas não acredito que seja uma questão biológica e que os homens sejam mais inteligentes do que as mulheres. No entanto, a maneira como homens e mulheres abordam as questões científicas pode ser um pouco diferente e isso é bom porque as diferenças complementam e enriquecem a solução dos problemas.

Durante sua carreira, houve algum tratamento diferenciado por ser mulher?

Na minha carreira essencialmente não sofri preconceito por ser mulher. Diferentemente das outras profissões, acredito que a universidade seja um dos lugares com menos dificuldades para que a mulher tenha uma carreira plena, com menores chances de sofrer preconceitos ou outras dificuldades. No meio acadêmico, a promoção na carreira é por mérito. Se uma mulher se destaca e tem um currículo melhor, a questão de gênero não deve influenciar. Em alguns momentos, podemos enfrentar obstáculos pelo fato das mulheres serem em geral mais sensíveis, agregadoras e evitarem discussões, mas acho que são questões naturais de convívio.

Em relação ao mercado, como você enxerga a inserção feminina na área da matemática?

Poderia haver uma porcentagem maior de mulheres no mercado se houvesse mais inscritas em concursos. Esse baixo número está diretamente ligado às poucas mulheres nos cursos de graduação e pós-graduação na área de ciências exatas. Já em relação à contratação de mulheres como professoras universitárias, como eu disse, não acredito que haja problemas, pois, em geral, sempre o melhor é escolhido.

Você acredita que esse desequilíbrio entre homens e mulheres dentro da matemática gera algum prejuízo?

Seria bom que houvesse mais mulheres. Muitas possuem aptidão em matemática e acabam não seguindo na área por diferentes motivos. Em qualquer segmento da sociedade, seja na política, na ciência ou em empresas, se há equilíbrio de gênero, isso reflete melhor o que acontece na sociedade. Além disso, o equilíbrio traria uma maior diversidade de pensamentos.

Qual seria uma possível solução para esse cenário?

Além de programas de conscientização, acredito que seja necessário ter mais estímulo. Desde cedo, nas escolas e nas famílias, precisamos mostrar que a matemática pode ser um caminho. Assim, poderemos ter mais presença feminina na área.

Sua trajetória profissional a influenciou nas repostas anteriores?

Alguma influência sempre tem porque, em geral, a gente reflete as informações e as vivências pelas quais passamos.

Por que você escolheu matemática e qual a maior recompensa de ser professora?

Na verdade, eu nunca tive muitas dúvidas sobre o que queria. A matemática sempre foi uma das minhas principais motivações para a vida. Eu sempre quis ser professora, gosto de ensinar e já dava aula particular de matemática desde os meus 12 anos para alunos do ensino fundamental. A interação com os estudantes é de que mais gosto, sejam eles da graduação, pós-graduação ou até mesmo aqueles que já se formaram e ainda entram em contato. Aprendo com eles todo dia.


Uma das mais antigas professoras de matemática do ICMC

Ela está no Instituto desde 19 de março de 1987 e continua em plena atividade. Confira o bate-papo com a professora Sueli Aki.




O que você pensa sobre a questão das mulheres na matemática?

Eu não sei se o menor número de mulheres é uma questão de gênero. Algo que sempre me perguntei é sobre a quantidade no meio acadêmico, principalmente no campo das ciências exatas. Hoje, existem muito mais mulheres na área, mas na época em que eu entrei no Instituto eram poucas.

Qual o principal motivo do menor número de mulheres dentro da matemática? É uma questão biológica, social, cultural, histórica ou uma combinação de todas as anteriores?

A carreira acadêmica é muito exigente. Para você chegar à academia, você tem que passar por mestrado, doutorado, pós-doutorado e conciliar tudo isso com a vida pessoal, família, filhos. Por isso, acredito que seja mais uma questão social. A dedicação que é exigida na vida acadêmica faz com que muitas mulheres tomem outros caminhos.

Durante sua carreira, você teve algum tratamento diferenciado por ser mulher?

Não. Eu nunca senti preconceito nenhum.

Em relação ao mercado, como você enxerga a inserção feminina na área da matemática?

Eu não vejo problemas em relação a isso. Acredito que nos concursos, por exemplo, não é levada em consideração a questão do gênero e sim o trabalho profissional. Há muito tempo as mulheres estão conseguindo seu espaço.

Você acredita que esse desequilíbrio entre homens e mulheres dentro da matemática gera algum prejuízo?

Acredito que a diversidade acrescenta, mas ter a mesma quantidade de homens e mulheres através de um decreto não resolveria.

Qual seria uma possível solução para que essa questão social não interferisse tanto?

Eu acho que a sociedade naturalmente está conduzindo isso, ela está mudando e os homens também estão evoluindo. Precisamos que a sociedade dê amparo aos pais no cuidado com os filhos através de creches, segurança, saúde, garantindo a eles segurança e autonomia. 

Por que você escolheu matemática?

Eu fui atraída pela educação. Morava em Dracena, cidade pequena no interior paulista com 40 mil habitantes e as profissões que eu conhecia na época eram as tradicionais: engenheiro, advogado, médico, professor e assim foi fácil decidir unir educação e matemática. Então, me formei na UFSCar e, como tinha facilidade com matemática, me estimularam a seguir carreira acadêmica. 

Hoje, depois de quase 30 anos de carreira, sente-se realizada com a profissão?

Eu me sinto muito realizada com o que me propus. O que mais gosto é da relação que estabeleço com os jovens. Parece que nós, professores, nunca envelhecemos porque conseguimos absorver essa energia dos jovens. Puro engano!


A mais caçula: ela chegou ao Instituto em 2014

Uma das características marcantes da mais recente professora contratada pelo ICMC é a irreverência. Confira o bate-papo com Thaís Jordão, que chegou ao ICMC no dia 31 de março de 2014.




O que você pensa sobre a questão das mulheres na matemática?

Eu acho um assunto extremamente delicado. Analisando alguns dados aqui do Instituto, nós vimos que a quantidade de mulheres decresceu, comparando-se o cenário de 2005/2010 com o atual. Isso parece ir totalmente contra os movimentos feministas que estão surgindo. Foi uma surpresa para mim. Eu esperava que esse cenário estivesse melhorando, mas não foi o que a gente viu. Esse fenômeno aqui no ICMC não é isolado.

Qual o principal motivo do menor número de mulheres dentro da matemática? É uma questão biológica, social, cultural, histórica ou uma combinação de todas as anteriores?

Eu imagino que seja uma combinação de todas, mas ainda não existe uma resposta fechada. Esse é um dos motivos pelo qual surgiu o grupo de mulheres da USP Rede Não Cala, para pensarmos nesses pontos e tratar da violência de gênero.

Durante sua carreira, houve algum tratamento diferenciado por ser mulher?

Aconteceu com uma conhecida minha quando estava prestando concurso e fizeram a seguinte pergunta para ela: “Se você for aprovada, seu marido irá aceitar que você mude de cidade?”. Eu achei algo extremamente invasivo. Já no meu doutorado eu sentia muita diferença entre os colegas da turma. Na classe havia três mulheres e nove homens e era nítido que nós éramos sempre deixadas de lado. Por exemplo, quando a turma se reunia para discutir exercícios e vinha alguém de fora para fazer uma pergunta, raramente a questão era direcionada para as garotas. Parecia que éramos incapazes de responder. No começo, isso me incomodava. Porém, depois que eu percebi que tinha potencial, não ligava mais.

Em relação ao mercado, como você enxerga a inserção feminina na área da matemática?

Acredito que elas ainda não têm muitas oportunidades. É claro que se há um número menor de mulheres na Universidade, é natural que elas apareçam menos no mercado. Mas o cenário ainda é extremamente precário.

Você acredita que esse desequilíbrio entre homens e mulheres dentro da matemática gera algum prejuízo?

Sim. Uma vez que exista uma separação entre o que é de responsabilidade dos homens e o que deve ser realizado pelas mulheres, elas podem ficar sobrecarregadas. Por exemplo, se as atividades domésticas ficarem sempre a cargo das mulheres, elas poderão não dar conta de se dedicar à área acadêmica tanto quanto os homens.

Qual seria uma possível solução para esse cenário?

Isso é o que discutimos nas várias redes de movimentos feministas. Eu acho que ainda não tem uma solução pronta para isso. Acredito que conscientizar e motivar as mulheres, mostrando que elas também são capazes, é o melhor caminho.

Sua trajetória profissional a influenciou nas repostas anteriores?

Provavelmente influenciou porque a minha criação, assim como a da maioria das mulheres, também foi machista.

Por que você escolheu matemática e qual a maior recompensa de ser professora?

Eu sempre quis fazer ensino superior, mas eu não sabia o que escolher. Como eu tinha facilidade com matemática, resolvi fazer o curso. Foi só durante a graduação que descobri que realmente gostava da área e comecei a ficar fascinada com a ideia de trabalhar com pensamentos abstratos. Hoje, não me arrependo da escolha. Quando eu vi que poderia ensinar que a matemática não é só uma coisa mecânica e que é possível enxergar o que há por trás dela, decidi que queria ser professora. O mais fascinante é quando você vê os olhos dos alunos brilharem depois de você lançar uma ideia e eles conseguirem entender que há algo muito maior por trás do que está na lousa.

Texto: Henrique Fontes – Assessoria de Comunicação ICMC/USP
Fotos: Henrique Fontes (imagens de Maria Aparecida e Sueli) e Reinaldo Mizutani (imagem de Thaís)

Mais informações
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quarta-feira, 4 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher: moda e estresse feminino é tema de palestra no ICMC nesta quinta-feira

Regis Mara Santana será a palestrante
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, promove na próxima quinta-feira, 5 de março, a palestra Moda e estresse feminino. O evento é gratuito, aberto à participação de toda a comunidade e acontecerá às 15 horas no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano. 

Entre os temas que serão abordados pela palestrante, a hair stylist Regis Mara Santana, está a história da moda feminina, o processo evolutivo da mulher, o impacto provocado pelo estresse, a síndrome do pensamento acelerado e as formas para se combater esses problemas. O evento tem o apoio da Comissão de Cultura e Extensão Universitária do ICMC.

Mais informações
Comissão de Cultura e Extensão Universitária do ICMC: (16) 3373.9146

segunda-feira, 10 de março de 2014

Exposição conta a história de mulheres do ICMC


A trajetória de 19 mulheres que fazem parte da comunidade do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, será contada a partir de hoje, 10 de março, na exposição “A beleza de ser mulher”. Composta por painéis que relatam em primeira pessoa os momentos mais marcantes da história de docentes, servidoras técnico-administrativas, alunas e ex-alunas, a exposição é uma iniciativa da Comissão de Ação e Integração Social (CAIS) do ICMC em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado no último sábado, 8 de março.

Entre os depoimentos dessas mulheres, que tanto contribuem para a sociedade, o público pode conferir o relato da docente aposentada Lourdes Onuchic: “Sempre que possível mantenho o sorriso. Isso é porque eu gosto muito do que faço”.

Já a ex-aluna Keithy Outubo ensina em seu painel que “ouvir o humano da sua alma é fundamental para nossa felicidade, mesmo que não tenhamos a aprovação imediata daqueles que nos cercam. Seguir isso garante um crescimento constante em direção a nossa felicidade, paz interior, prosperidade e satisfação pessoal”.

A exposição é gratuita, aberta a todos os interessados, e permanece em cartaz até 31 de março no saguão da Biblioteca Achille Bassi.


Você também pode conferir os painéis nesse link: icmc.usp.br/e/ccb00


Exposição “A beleza de ser mulher”
Quando: de 10 a 31 de março de 2014
Onde: saguão da Biblioteca Achille Bassi
Mais informações: (16) 3373.8184 ou cais@icmc.usp.br