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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Personagem do Youtube conecta jovens com o mundo da matemática

Joaquim e seu mentor, professor de matemática da Unicamp, protagonizam o canal “Fantástico Mundo Matemático”

Régis, o mentor de Joaquim, revela que sempre foi muito comunicativo e que a ideia de fazer divulgação científica em matemática sempre o cativou – Foto: Denise Casatti

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Com seu simpático sorriso, Joaquim tem chamado a atenção nos corredores do Riocentro, por onde anda desde o dia 1º de agosto, quando começou o Encontro Mundial de Matemáticos, evento que acontece até dia 9 no Rio de Janeiro. Muitos dos que param para cumprimentá-lo e tirar fotos conhecem Joaquim por causa do Fantástico Mundo Matemático, canal do Youtube em que ele atua.

A missão de Joaquim é contribuir para que mais jovens vivenciem o mundo da matemática. Um desafio que tem cumprido com maestria por causa de seu mentor, o matemático Régis Varão, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp. Régis fez mestrado e doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada e pós-doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

“Eu não sei de onde veio o Joaquim. A vida toda eu contava história, eu inventava história. Então, é algo que eu faço naturalmente. Às vezes eu estou dando aula, surge uma dúvida e eu simulo que sou algum aluno. Eu não sei, talvez eu tenha simulado o que faço em aula e aí veio o Joaquim”, conta o professor.

Joaquim é fruto da fértil imaginação de um pesquisador da área de Sistemas Dinâmicos e Teoria Ergódica, graduado pela Unicamp. O personagem facilita o estabelecimento de uma conexão entre os jovens e o mundo da ciência.

Joaquim é um dos participante do Encontro Mundial de Matemáticos, que acontece até dia 9 no Rio de Janeiro – Foto: Denise Casatti

“Para minha surpresa, alguém uma vez, um professor, me falou: olha, os alunos gostam muito do Joaquim porque eles falaram que têm as mesmas dúvidas do Joaquim. Como ele é mais brincalhão, os alunos estão se identificando com ele. Outro exemplo de como eu vou trazendo as pessoas para esse convívio da matemática: um rapaz tinha assistido a um dos vídeos e escreveu que precisou ver cinco vezes para poder entender. Aí eu respondi: nada na minha vida eu aprendo de primeira. Eu preciso pegar, reler, dar um tempo, pensar. É assim que funciona com todo mundo.”

Com o exemplo, Régis revela que a proposta do canal é exatamente essa: transmitir conceitos e ideias que vão além do conteúdo matemático explícito nos vídeos. Joaquim e Régis querem falar sobre a atitude proativa que precisamos ter diante da busca por um novo conhecimento. A experiência de criar o canal no Youtube mudou até mesmo a maneira como o próprio Joaquim enxerga a matemática.

“Como o Joaquim disse, ele começou a vivenciar a matemática. Ele realmente percebeu que a matemática é além daquela parte técnica. Isso é algo que ele diz que marcou muito: você viver a matemática é se divertir, é conversar com as outras pessoas e até mesmo interagir com a avó dele. E ele assumiu esse papel de levar essa vivência para as pessoas, algo que ele tem aprimorado ao longo do tempo.”

Joaquim e Régis são um exemplo criativo das infinitas possibilidades que existem para que possamos inspirar mais jovens a vivenciarem o fantástico mundo da matemática.

Ouça no áudio acima a entrevista com o professor Régis Varão


Denise Casatti, especial para o Jornal da USP


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terça-feira, 7 de agosto de 2018

A matemática que nasce de um floco de neve

Em evento no Rio de Janeiro, o francês Étienne Ghys falou sobre a geometria desse minúsculo objeto da natureza
Os cabelos brancos de Étienne Ghys remetem aos flocos de neve. Ele é um matemático francês, que trabalha com geometria e sistemas dinâmicos – Foto: Denise Casatti

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Você já observou um floco de neve bem de perto, como fazem os cientistas quando usam um microscópio? Se você nunca teve a oportunidade de ver uma fotografia desse minúsculo objeto da natureza, faça uma busca pela internet. Você vai se surpreender com a beleza que habita um simples floco de neve.

Encantado com essa beleza, o francês Étienne Ghys contou o que a ciência já sabe sobre os flocos de neve e o que ainda falta saber em uma palestra que ministrou no encontro mundial de matemáticos, evento que acontece até dia 9 de agosto no Rio de Janeiro. Apesar de nenhum floco de neve ser idêntico a outro, eles têm algo em comum: a forma hexagonal, pois são como estrelas de seis pontas. Étienne disse que, muito antes de existir um microscópico, em 1610, um dos cientistas mais famosos da história, o alemão Johannes Kepler, foi o primeiro a sugerir que havia simetria nos flocos de neve.

“O entendimento da natureza através da matemática é um conceito muito moderno. E as simetrias que Johannes tentou encontrar na natureza ainda hoje estão na raiz da ciência. As simetrias governam a matemática e a física.”

Diretor de pesquisas na Escola Normal Superior de Lyon, na França, e pesquisador honorário do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Étienne explicou como a ciência foi, aos poucos, compreendendo mais e mais sobre a geometria dos flocos de neve. Hoje, os pesquisadores são capazes de inserir fórmulas matemáticas em programas de computador e gerar imagens de flocos de neve muito parecidas com as que encontramos na natureza.

“O fato é que os matemáticos têm grande criatividade, mas as criações deles não são objetos concretos, são objetos artificiais, virtuais. Por isso, eles trabalham em um mundo externo, no mundo deles. E não é fácil comunicar essas coisas abstratas para outras pessoas. Às vezes, já é difícil se comunicar com outros matemáticos.”

De fato, nem sempre é fácil entender como funciona o mundo abstrato da matemática, mas vale a pena tentar. Pense que os flocos de neve têm algo em comum com os favos das colmeias das abelhas. Se dividirmos um favo ou um floco em pequenas partes, você verá que cada uma delas é semelhante à original. É como se os favos e os flocos possuíssem dentro de si cópias menores deles mesmos.

A partir do estudo dessa geometria, os matemáticos criaram objetos virtuais chamados fractais. A pesquisa desses objetos já está ajudando a humanidade a compreender fenômenos que ocorrem no mercado financeiro, aprimorar a transmissão de informações via fibra óptica, a mistura de substância e a análise de imagens médicas. Tudo isso a partir da matemática que nasceu com o estudo de um simples floco de neve.

Ouça no áudio acima a reportagem com o professor Étienne Ghys.


Denise Casatti, especial para o Jornal da USP

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Competição matemática estimula estudantes a buscar novos caminhos

Jovens premiados em olimpíada têm oportunidade de entrar em contato com a vida universitária

Estudantes durante cerimônia de entrega de medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – Foto: Denise Casatti

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Despertar nos alunos da educação básica o gosto pela matemática e pela ciência em geral, motivando esses estudantes na escolha profissional pelas carreiras científicas. Esses são alguns dos objetivos da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Este ano, a competição reuniu 18,2 milhões de estudantes das redes pública e privada. Na tarde desta quinta-feira, 2 de agosto, 575 desses jovens, vindos de todo o Brasil, receberam suas medalhas de ouro em uma cerimônia especial realizada durante o encontro mundial de matemáticos, o ICM 2018, que acontece no Rio de Janeiro até dia 9 de agosto.

O que poucos sabem é que a OBMEP possibilita a muitos desses jovens terem seu primeiro contato com as universidades públicas, porque os alunos premiados podem participar do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC). Quem mora em São Carlos tem a oportunidade de participar de encontros, que são realizados aos sábados, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP. “Uma das coisas que a OBMEP e o PIC fazem é levar esses jovens a descobrir que podem fazer uma universidade pública e passar”, conta Ires Dias. Professora do ICMC, ela é uma das coordenadoras orientadoras do PIC no interior do Estado de São Paulo e acompanha, há 13 anos, a trajetória de estudantes da região de São Carlos premiados na OBMEP.

Ires relata que, ao participar do programa, os estudantes aprendem a raciocinar e a escrever, o que contribui para que sejam estimulados a optar por carreiras em diversas áreas do conhecimento: “A gente não está formando só matemáticos e candidatos à Medalha Fields, estamos colaborando com todas as áreas”.

Muitos desses premiados tornam-se alunos da USP. Esse é o caso de Heitor Sousa Borges que ingressou este ano no curso de Relações Internacionais. Aos 17 anos, com a medalha de ouro da OBMEP no peito, Heitor conta que participa da competição desde o primeiro ano do ensino médio, quando conquistou a medalha de bronze. No ano seguinte, foi a vez de ganhar prata. O garoto revela que o estímulo da família foi fundamental: “Meu pai sempre esteve ao meu lado, ensinando matemática e me incentivando a participar de todas as olimpíadas que eu pudesse”.

Heitor Borges, que faz Relações Internacionais na USP, recebeu a medalha de ouro nesta quinta e comemorou com os pais – Foto: Denise Casatti

A relação da família de Heitor com a USP é bastante estreita. O pai, Herivelto Martins Borges Filho, é professor no ICMC e a irmã está cursando Arquitetura no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, em São Carlos. “Durante o ensino médio, eu tinha afinidade com várias matérias diferentes. Então, quando fui escolher qual graduação queria, foi um desafio. Eu pensava em direito, relações internacionais e matemática pura”, conta Heitor. “Considerei que relações internacionais é o que eu quero levar para minha vida, mas não necessariamente eu vou excluir matemática, sempre dá para incorporar, independentemente da profissão. Acho que hoje em dia é muito importante você construir habilidades em várias áreas”, completa o estudante. Tanto que Heitor pretende continuar estudando matemática, já que receberá uma bolsa da OBMEP concedida aos medalhistas que desejam fazer iniciação científica depois de ingressar na universidade.

Heitor explica também que a matemática que se aprende na OBMEP é muito diferente da matemática comum, ensinada nas escolas de modo geral: “É uma matemática muito mais focada em desenvolver nosso raciocínio lógico e criatividade, que sempre serão úteis para a nossa vida em qualquer área que a gente decida atuar”. A mãe de Heitor, Elizabeth Sousa, que é analista de sistemas, completa: “Ter esse raciocínio lógico bastante desenvolvido possibilitou ao Heitor estabelecer relações entre diferentes áreas do conhecimento. Por exemplo, quando ele vai estudar história, consegue compreender por que as coisas aconteceram daquela forma e isso o estimulou a ir para o lado das Humanas”.

Para o pai de Heitor, é fundamental que a família e a escola estimulem os jovens a participar da OBMEP. “A matemática é um bicho-papão não só no Brasil, o analfabetismo matemático é um fenômeno mundial. É essencial trabalharmos em direção à superação do medo e eliminar esse estigma negativo da matemática. A experiência mostra que, quando os alunos têm uma bagagem matemática, é natural que eles se saiam bem nas demais disciplinas”, ressalta Herivelto, que faz parte do comitê organizador do ICM 2018.

Hexacampeão

Outra história inspiradora é a de Lauder Leal, que, durante quatro anos consecutivos, participou do Programa de Iniciação Científica Jr. no ICMC. “Antes de fazer a iniciação científica júnior, eu não imaginava cursar uma faculdade. Depois é que comecei a pensar em qual curso queria fazer”, conta o estudante. Em seu primeiro ano de OBMEP, quando ainda era aluno na Escola Estadual Jesuíno Arruda, em São Carlos, Lauder ganhou apenas uma menção honrosa. Apenas depois de participar do PIC pela primeira vez é que conquistou o primeiro ouro e nunca mais parou.

A professora Ires Dias e o hexamedalhista Lauder Leal, que nasceu em São Carlos e faz Matemática Aplicada na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro – Foto: Denise Casatti

O garoto recebeu sua sexta medalha de ouro no mesmo palco em que, no dia anterior, foi entregue a Medalha Fields, popularmente conhecida como o Prêmio Nobel da matemática. Três medalhistas Fields estavam presentes na cerimônia de premiação da OBMEP: o italiano Alessio Figalli, o brasileiro Artur Avila e o francês Cédric Villani, respectivamente vencedores da honraria em 2018, 2014 e 2010.

Para Lauder, assistir à entrega da Medalha Fields e conhecer alguns medalhistas é um estímulo para sua futura carreira na área de matemática: “Normalmente, quando a gente pensa nos grandes matemáticos da atualidade, não pensamos que eles são pessoas normais. Mas depois de vir aqui, a gente percebe que eles passam pelas mesmas dificuldades que qualquer um de nós, eles têm as mesmas experiências, a única coisa é que eles se esforçaram para chegar onde estão. Se a gente se esforçar, não chegaremos necessariamente no nível em que eles estão, mas com certeza conseguiremos ter sucesso”. Depois de conquistar a sexta medalha de ouro, Lauder ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Getúlio Vargas e está cursando o primeiro ano do curso de Matemática Aplicada.

Motivação

Durante evento no Rio de Janeiro, 575 estudantes de escolas públicas de todo o Brasil receberam medalhas – Foto: Denise Casatti

Ao longo do tempo em que atua na OBMEP, a professora Ires Dias já perdeu a conta de quantos estudantes ingressaram na USP depois de participar do PIC. “A gente trabalha com mais de 80, 90 alunos por ano na região de São Carlos. Você não muda a vida de todos eles, mas se transformarmos a vida de 10%, já é um sucesso”, ressalta.

Professora da USP há 32 anos, Ires revela de onde vem a motivação que a faz continuar trabalhando com os estudantes da OBMEP há 13 anos: “Nesse tipo de trabalho você vê o resultado, você está com eles acompanhando. Então, eu acho que isso faz com que a gente continue, apesar de todas as dificuldades”. Assim como Ires, muitos outros professores e alunos da USP trabalham em prol das olimpíadas científicas e estão ajudando a transformar a vida de muitos jovens do nosso país.

A OBMEP é organizada desde 2005 pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada, com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática. A partir do próximo ano, a competição será ampliada e também poderão participar estudantes das 4ª e 5ª séries do ensino fundamental.

Ouça no áudio acima a entrevista com a professora Ires Dias.


Denise Casatti, especial para o Jornal da USP

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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Jovem atrai 45 mil seguidores no YouTube falando de matemática

Júlia Jaccoud, formada no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, tem um canal de divulgação científica desde 2015

Formada em Matemática pela USP, em São Paulo, Júlia Jaccoud tem
canal de divulgação científica no YouTube – Foto: Denise Casati

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Quem vê uma jovem de cabelos cor-de-rosa choque caminhando com a câmera e o microfone na mão no Encontro Internacional de Matemáticos, imagina que ela é uma profissional da área de comunicação que está entrevistando os mais renomados matemáticos do mundo durante esse evento que ocorre até dia 9 de agosto, no Rio de Janeiro.

Mas, de vez em quando, alguns dos participantes do encontro tomam a iniciativa de pedir para tirar uma foto com ela porque a reconhecem do YouTube: ela é a Matemaníaca, uma aluna recém-formada da USP que tem 24 anos e contabiliza nada menos do que 45 mil seguidores na mais famosa plataforma de compartilhamento de vídeos.

Julia está participando do Congresso Internacional de Matemáticos,
que ocorre no Rio de Janeiro até 9 de agosto – Foto: Denise Casatti

A ideia de criar o canal de divulgação científica sobre matemática surgiu quando Júlia Jaccoud estava no início do curso de Licenciatura em Matemática, no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, em São Paulo. “A gente tem uma grande carga de estágios dentro do nosso curso. Quando chegou esse momento, no segundo ano, eu ficava seis meses com os alunos, com os professores, criava laços e ia embora. Então, eu queria uma ferramenta que me unisse aos alunos e professores que eu conhecia no estágio.”

O primeiro vídeo de Júlia foi postado no dia 14 de março de 2015. “Eu fazia inglês na época e, conversando com umas colegas, elas falaram: ‘Júlia, você já fez curso de fotografia, de teatro, dança, balé, por que você não faz um canal no YouTube?’ Eu não tinha ideia desse universo e não imaginava que ia atingir 45 mil seguidores.”

Ela conta que, no início do projeto, explicava que tinha criado um canal de aulas diferentes, para falar que matemática é legal. Naquele momento, Júlia não sabia que o que estava fazendo tinha nome: era divulgação científica. O primeiro ano da iniciativa foi marcado por muitos aprendizados, ela descobriu como captar as informações, roteirizar e foi lapidando o próprio conteúdo que estava construindo.

No ensino médio, toda vez que afirmava gostar de matemática, as pessoas logo diziam: então faz Engenharia! Júlia simplesmente aceitava essa sugestão sem questionamentos e tinha a vida pautada para fazer Engenharia. Tudo mudou quando conversou com uma engenheira que estava fazendo um projeto no prédio em que morava. Foi assim que ela descobriu que não queria ser engenheira.

“E aí, na minha cabeça, foi o primeiro momento que comecei a pensar sobre, de fato, o que eu queria fazer, onde eu me via depois de uma graduação. Como tinha feito 14 anos de balé, curso de fotografia, de teatro etc., o que fazia mais sentido e poderia unir a arte e a matemática era licenciatura, porque assim eu poderia ensinar matemática como eu via a partir da minha forma de me expressar, a partir da minha arte.”

Hoje, na descrição do canal Matemaníaca, está escrito que o objetivo de Júlia é apresentar a beleza da “inutilidade” da matemática, isto é, mostrar que a matemática vai muito além de sua aplicabilidade e que é, também, uma forma de arte.

Ao que tudo indica, essa aluna recém-formada pela USP conseguiu alcançar seu objetivo e está contribuindo para despertar o encanto pela matemática e esclarecer dúvidas de muitas meninas e meninos que estão no ensino médio.

Ouça o áudio acima com entrevista de Júlia Jaccoud para a Rádio USP.


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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Brasil de braços abertos para a Matemática

Encontro internacional no Rio de Janeiro reúne pesquisadores de todo o mundo e entrega Medalha Fields a quatro matemáticos notáveis

Os quatro matemáticos vencedores da Medalha Fields, da esquerda para direita: Akshay Venkatesh, Peter Scholze, Alessi Fegalli, Caucher Birkar - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O mais importante encontro mundial de matemáticos começou nesta quarta-feira, 1º de agosto, no Rio de Janeiro. Serão nove dias com 1.200 palestras, 574 sessões temáticas, 483 exibições de pôsteres e seis premiações. Os números impressionam até os pesquisadores da área.

Professores, estudantes de graduação, pós-graduação, pós-doutorandos e ex-alunos da USP estão entre os 2.500 pesquisadores dos cinco continentes que participarão do evento. O encontro integra oBiênio da Matemática do Brasil e faz parte das ações destinadas, entre outros objetivos, a incentivar o estudo da disciplina, popularizá-la e promover atividades que contribuam para aproximá-la do público.

“No nosso dia a dia, na nossa cultura, na nossa comunicação de massa, a Matemática não aparece. Só a escola ensina Matemática e, muitas vezes, fracassa nisso porque as ideias são um pouco abstrata e podem parecer sem sentido para a criança. Mas quando ela começa a ter o contato em casa, na comunicação, essa familiaridade vai surgindo. Não ter a Matemática nas nossas vidas afeta o aprendizado escolar e até no gosto (ou falta de) pela Matemática”, disse Marcelo Viana, presidente do comitê organizador do encontro e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

Viana destaca que a iniciativa de realizar o evento no Brasil é uma oportunidade de mostrar que a Matemática não se restringe a fazer contas, mas é uma ciência que permeia a vida de todos nós e nos ajuda a entender coisas que não entenderíamos de outro modo, além de ser uma forma de diversão e entretenimento.

“Se nós não fizermos essa popularização ninguém mais vai fazer. Ou pior ainda: outras pessoas não habilitadas vão fazer. Para termos um efeito de grande escala, também precisamos aprender a comunicar. Uma das dificuldades para nós, cientistas, é que somos treinados para falar uma linguagem técnica e não com o público”, destaca o diretor-geral.


Medalha Fields

A medalha Fields traz na frente (esq.) a efígie de Arquimedes e seu nome em grego. No verso (dir.), há a frase em latim “Matemáticos de todo o mundo reunidos prestam homenagem por obras notáveis” – Fotos: Stefan Zachow / IMU / Domínio público via Wikimedia Commons

No encontro mundial, são reconhecidos os matemáticos mais notáveis e promissores do planeta por meio de diversos prêmios, entre eles está a honraria máxima da área, a Medalha Fields – informalmente chamada de o “Nobel da Matemática”.

Os vencedores foram anunciados na quarta-feira: Caucher Birkar (Irã), Alessi Fegalli (Itália), Peter Scholze (Alemanha) e Akshay Venkatesh (Índia). Entregue pela primeira vez em 1936, a láurea é um reconhecimento a trabalhos de excelência e um estímulo a novas realizações.

Idealizada pelo matemático canadense John Charles Fields para celebrar os grandes feitos na área, a medalha já foi conquistada por 56 estudiosos das mais diversas nacionalidades, entre os quais Artur Avila, pesquisador do Impa, agraciado em 2014, na Coreia do Sul.

Os vencedores da Medalha Fields são selecionados por um comitê de especialistas, nomeados pela União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês), a organização supranacional patrocinadora dos Congressos Internacionais de Matematemáticos (ICMs, sigla em inglês). A cada quatro anos, são escolhidos até quatro pesquisadores com, no máximo, 40 anos de idade. Além da medalha, há um prêmio em dinheiro no valor de 15 mil dólares canadenses.

Nunca antes realizado no Hemisfério Sul, o encontro surgiu em 1897, em Zurique, na Suíça. A cada quatro anos, o evento é organizado pelo país-sede em parceria com a União Matemática Internacional e só foi suspenso no período dos conflitos mundiais.

No Brasil, o encontro também agregará a cerimônia de premiação dos 576 medalhistas de ouro da maior competição científica do País, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Organizada desde 2005 pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada, com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática, a competição reúne 18,2 milhões de estudantes das redes públicas e privada.

Muitos desses medalhistas se tornam, posteriormente, alunos dos cursos de matemática da USP que, hoje, são oferecidos em três campi da Universidade: em São Paulo, São Carlos e Ribeirão Preto.


Denise Casatti, especial para o Jornal da USP



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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Exposição motiva mais mulheres a seguirem carreira na Matemática

Curadora da iniciativa, professora da USP ressalta relevância da trajetória da única mulher que ganhou a Medalha Fields, o prêmio Nobel da Matemática

Exposição, no Rio de Janeiro, conta a história da primeira mulher a ganhar
uma Medalha Fields – Foto: Denise Casatti



Motivar as mulheres a seguirem carreira na área da matemática. Esse é um dos objetivos da professora Thaís Jordão, curadora da exposição Maryam Mirzakhani Memorial, uma homenagem à única mulher a ganhar a Medalha Fields, a maior honraria da Matemática.

A exposição é uma das atrações do Encontro Mundial para Mulheres em Matemática (WM)2, que ocorre nesta terça-feira, 31 de julho, no centro de convenções e eventos Riocentro. O evento antecede o Congresso Internacional de Matemáticos, o ICM 2018 (International Congresso of Mathematicians), que será realizado de 1º a 9 de agosto, também no Riocentro.

A professora Thaís Jordão, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, explica a importância de realizar essa homenagem. “O fator principal é dar maior visibilidade para a primeira mulher na história a receber uma Medalha Fields. Muitos matemáticos, ao prestigiarem a exposição, vão se identificar com os diferentes estágios da vida de Maryam, que aparecem nas peças. O público vai entender também que, além de uma genialidade, tudo é fruto de muito trabalho e esforço.”

A exposição é uma iniciativa do Comitê para Mulheres em Matemática da União Matemática Internacional. A professora da USP foi convidada para participar do projeto porque, no ano passado, organizou a exposição Elas expressões de matemáticas brasileiras, uma homenagem a nove matemáticas do Brasil.

Curadora da exposição, Thaís Jordão diz que se sente honrada em participar da
iniciativa: “Maryam é um exemplo a ser seguido” – Foto: Denise Casatti

Reflexão

Nos grandes painéis expostos na entrada de um dos auditórios do Riocentro, as imagens e textos sobre a trajetória de Maryam são um convite à reflexão. Em uma mesa, repousa um livro de condolências, em que os participantes do evento podem deixar uma mensagem para a família da matemática, que morreu no ano passado, depois de lutar alguns anos contra o câncer.

Para produzir o memorial, a professora Thaís trabalhou ao longo de cerca de dois meses, durante os finais de semana, junto com o designer gráfico Rafael Meireles. Nas pesquisas sobre Maryam, Thaís descobriu que foi o irmão que contribui para despertar o encanto da garota pela Matemática.

A professora da USP explica que esse é um aspecto comum na trajetória de vários pesquisadores. “Na verdade, todo e qualquer matemático que eu conheço hoje sempre teve uma pessoa – seja homem ou mulher – que o motivou, seja através de uma aula, da apresentação de um resultado. Enfim, de alguma maneira, ao oferecer o conhecimento, aquela pessoa fez o receptor envergar uma beleza ali.”

Natural de Teerã, no Irã, Maryam nasceu em maio de 1977 e graduou-se em Matemática pela Universidade de Tecnologia de Sharif, onde o professor Ali Tahzibi, do ICMC, também cursou Matemática. Ele estava no terceiro ano da universidade e era monitor da disciplina Análise Complexa, ministrada para os estudantes do primeiro ano. Foi assim que ele conheceu Maryam. “Eu não me esqueço, até hoje, de como ela resolvia os exercícios em sala de aula: sempre encontrava a forma mais breve e mais bela. Um talento extraordinário”. Ele conta que, no Irão, a Olimpíada de Matemática é muito popular e que Maryam foi a única garota do país a ganhar duas medalhas de ouro.

“É como se ela enxergasse a Matemática com super óculos”, conta Ali. “Porque Maryam dominava inúmeras áreas diferentes da Matemática, o que é muito raro, e conseguiu produzir resultados com impactos em todas elas”. Para Ali, ao ganhar a Medalha Fields em 2014, Maryam se tornou um incentivo para meninas de todo o mundo e para as iranianas, em particular, que ainda enfrentam muitas barreiras no mundo acadêmico.

Painel destaca o papel relevante do irmão de Maryam – Foto: Denise Casatti

Pintura

Maryam gostava de trabalhar escrevendo sobre grandes folhas papel branco que espalhava pelo chão. Sua filha, Anahita Vondrak, quando a via assim, logo falava: “Mamãe está pintando de novo”. Ao olhar a cena retratada em um dos painéis, Thaís completa: “Talvez ela realmente estivesse pintando a ciência.”

Aliás, Anahita é um dos destaques da exposição. No painel preferido da professora Thaís, a garota brinca com a Medalha Fields que a mãe ganhou, um símbolo de que é possível conciliar ciência e maternidade.

A exposição ficará em cartaz no pavilhão 5 do Riocentro até dia 9 de agosto. Depois, a ideia é levá-la para outros eventos e espaços, estimulando mais garotas a seguirem carreira na Matemática, fazendo o que Maryam desejou no momento em que ganhou a Medalha Fields. “É uma grande honra, eu ficarei feliz se isso encorajar mais jovens cientistas mulheres e Matemáticas. Eu tenho certeza de que haverá muito mais mulheres ganhando esse tipo de prêmio nos próximos anos.”

Painel mostra Anahita brincando com a Medalha Fields que a
mãe ganhou – Foto: Denise Casatti

Ouça o áudio acima produzido pela Rádio USP sobre a exposição.


Denise Casatti, especial para o Jornal da USP
Texto originalmente publicado em https://jornal.usp.br/universidade/exposicao-motiva-mais-mulheres-a-seguirem-carreira-na-matematica/


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